03rd Aug2014

A Gatinha Esquisita

by Pedro Henrique Gomes

gatinhaesquisita

A Gatinha Esquisita, primeiro longa-metragem de Ramon Zürcher, é tudo menos um filme inconsciente daquilo que mostra. Não um filme de conteúdo, mas de sentidos e sentimentos, de exasperações e relevos. Horror vacui. Sua simplicidade, se é possível assim dizer, distribuída ao longo de pouco mais de uma hora de duração, não lhe retira o rigor. Antes pelo contrário, é aí que está a chave de sua compreensão dos espaços (curtos) do apartamento onde o filme acontece. É aí, não por acaso, que ele se revela, que seus personagens transitam e, afinal, existem. Desse ponto de vista, já fica mais fácil assimilar sua inspiração, bastante livre, é verdade, no Kafka de A Metamorfose. A compressão do espaço fica então mais evidente, mas seu aspecto kafkiano não pretende ir além disso.

Passar um café, olhar a garrafa que se move na fervura da água, cozinhar qualquer coisa para comer, fumar um cigarro ou deixar que ele fume a si mesmo, observar a movimentação da rua pela janela, colocar a roupa para lavar, conversar, jogar, dar de comer aos animais domésticos. Se por um lado não há movimento de câmera, por outro, de plano a plano, muitas coisas ocorrem naquele apartamento no qual avó, mãe, filhos e filhas convivem – sobretudo na cozinha, espaço de reuniões para o café da manhã, lugar de discussões, onde o ato de ligar o liquidificador resulta sempre num grito intenso de Clara, a menina mais jovem, alegre e teimosa. A expressão séria de sua mãe, o tapa que lhe dá no rosto em um momento, seguido da risada irônica da menina, enfim, todas as pequenas coisas de que a vida é feita. O filme de Zürcher é exato na medida de suas dimensões psicológica, narrativa e espacial.

A estratégia é simples, mas nada fácil. É composto de uma lógica pois é antes pensamento: ao reduzir o filme em duração, ele o prolonga em intensidade. Decerto retirando os excessos e as sobras e reforçando a dimensão do tempo, do sol que se põe lá fora, da luz da lua que já elimina as sombras nos corredores. É claro que é intenção do filme estabelecer isso, essa noção de tempo que avança diante de nossos olhos, pois o percebemos, acompanhamos muitas coisas acontecendo. Seria portanto impensável que o tempo corresse de outra forma senão inserido visceralmente na narrativa do filme – a música, pontual, também vem acentuar isso. Mas A Gatinha Esquisita é um filme do tempo presente, pois é um tempo que se faz ver. Sua outra chave, isto é, sua dimensão psicológica, uma vez que não há um passado a conhecer e tampouco um futuro ao qual seremos conduzidos, é aquela do próprio corpo, sua expressão facial, marcada pelos sorrisos e pelas lágrimas engasgadas.

Falamos em lágrimas. As únicas verdadeiras são as que não saem ou saem disfarçadas. Pensamos na personagem de Jenny Schily, a mãe, figura a qual a câmera parece mais interessada em avançar o olhar. Há um momento em que ela parece reter o choro, onde diz que é porque estava a cortar cebolas que seus olhos lacrimejavam. Evidentemente, arrisco dizer, não era por isso. Por outro lado, é disso mesmo que se trata, de perceber as coisas no íntimo, de abraçar uma compleição dramática estendida aos indivíduos – a todos eles. Mundo do horror ao vazio.

É exatamente aquilo que Renoir já falava nos anos 1930, ou seja, que “o cinema deve ser um revelador de temperamentos humanos”. Mas algumas questões se impõem. O velho adágio, a dificuldade conhecida: como filmar isso? A câmera não se move e, ao mesmo tempo, os personagens se movimentam com liberdade, com poucas restrições ditadas pelo diretor. As “marcações” são os limites do próprio apartamento, limites do espaço. Os corpos algumas vezes aparecem “cortados” nos planos, entram e saem, embora se mantenham os quadros. Essa liberdade de movimentos dada ao elenco é sentida o tempo inteiro, seja nos planos em que, num enquadramento reduzido, acumulam-se cinco ou seis pessoas movendo-se intensamente, seja quando a própria escolha de um ponto de vista de câmera já se coloca como que no olho do furação.

Se é verdade que o filme não se configura num exercício de estilo, tampouco em alguma espécie de teatro filmado (termo que, vale dizer de passagem, em algum momento da história teórica e crítica se tornou quase uma ofensa automaticamente aplicada), é também parte de sua concepção essa busca por aquela apreensão minimalista das coisas, por filmar os detalhes e subtrair as hipérboles. Poderiam também acusar A Gatinha Esquisita de ser um filme demasiado formalista (outro conceito que se tornou perigoso), ou mesmo radicalmente formalista e simplesmente isso. Mesmo se fosse, seria preciso salientar, em sua defesa, que a experiência do filme não é um reduzido processo racional, daí que toda essa parafernália de que alguns críticos e teóricos se servem (em maiúsculas mesmo: Geometria do plano, Matemática da forma e todas as demais massagens egocêntricas e cientificistas imagináveis) para dar conta de suas próprias ambições ser apenas, ao fim e ao cabo, da firmeza de um castelo de areia.

(Das merkwürdige Kätzchen, Alemanha, 2013). De Ramon Zürcher. Com Jenny Schily, Anjorka Strechel, Mia Kasalo, Luk Pfaff, Matthias Dittmer.

Publicado originalmente no Zinematógrafo #9 (maio/junho 2014).