28th Jun2013

Irmãs Jamais

by Pedro Henrique Gomes

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Nota-se, seja qual for o interesse do espectador pela obra de Marco Bellocchio, que seu cinema nunca foi um cinema conciliador, como o de alguém que pretende mediar um discurso político da esquerda com seus opositores ou ainda como se buscasse representar, ingenuamente, a luta das forças antagônicas se debatendo no espaço político. Irmãs Jamais faz a política do corpo, da moral: é antes sobre ela do que sobre a própria convivência particular, da família, do crescimento conturbado e de um contexto histórico violento. Ora, como o próprio diretor já disse, seu cinema é e sempre foi moralista (mas em um sentido oposto ao moralismo de Kenji Mizoguchi ou Joseph Losey, por exemplo, estes mais ontológicos, metafísicos). Mas essa moral é simbolizada pela ausência de julgamentos a priori, pela construção de uma história de momentos, de intervalos, de pausas e de elipses que levam o espectador a suspender o juízo em relação aos personagens que vão e voltam na história, ora mais velhos, ora mais imaturos, ora mais radicais. Mas são sempre personagens.

Também problematiza, mesmo que estando já muito além da questão em termos estéticos (Bellocchio não é tão interessado na pureza da imagem e na “epistemologia do real”), a disputa pela narrativa. O “documentário” e a “ficção” não lhe servem de base para a fruição da história, ou seja, os personagens, que são seus familiares e assim se portam, com seus nomes reais e percursos de vida reais, são também alegorias, criações a partir do contato com a câmera e com a própria ideia de realização de um filme. É daí que o filme existe, de uma série de workshops que o diretor organiza em Bobbio, na Província de Piacenza, já há muitos anos e que se chama Fazer Cinema. No filme, ao longo do tempo, que começa em 1999 e vai até 2008, seus familiares se misturam com atores, a ideia de real e de ficção envelhece, uma forma ganha corpo para além da simples rotulação do método captura do mundo. Ora, o mundo é “incapturável”.

Pois sempre há ficção, como bem disse, decerto por outras palavras, Jacques Aumont – daí a ideia de falso-documentário ser, ao menos neste caso, uma grande besteira que alguns críticos têm repetido, porque pretende passar a ideia de que alguma coisa é “real” e outra, encenada. Irmãs Jamais é plenamente um “filme de ficção”, mesmo quando é documentário (o formato documentário), e é precisamente aí que mora sua beleza. O limite da história encenada é mais um problema do espectador do que do cineasta. E então Bellocchio também brinca com as narrativas, cruzando seus parentescos, jogando com memória, acessando o passado da única forma possível, isto é, através do presente.

A semelhança com De Punhos Cerrados (1965) é inclusive colocada na tela através de pequenos cortes – uma cena de Vincere (2009) também é mencionada. Entre uma cena e outra, alguns frames de seu primeiro filme piscam, remetem aos mesmos movimentos, dialogam com ele, como se quisessem olhar novamente para o passado na tentativa de compreendê-lo, pois não há inocência nas imagens de Bellocchio a ponto de tentar reescrevê-lo. E não por acaso, pois Irmãs Jamais é também uma releitura daquele espaço da família, da casa, do jantar, dos conflitos, dos dramas individuais, do crescimento. A narrativa de fabulações conspira, investe nos desejos e nas aspirações pessoais da família Bellocchio e dos que compõem o núcleo central da ação. Pois no fim o filme é isso, acerca do ser e do não ser das coisas; um luto, uma vitória, imagens antigas de uma morte, já algo gastas, combinam com o registro da nostalgia do tempo.

Como forma de combate, de um cinema militante, no sentido de que resiste enquanto ideias e no que toca sua forma, Bellocchio não suprime a sujeira que emana daquilo que as câmeras captaram ao longo do tempo, pois os quase dez anos de registros e encontros tornam o filme, em termos de luz, assimétrico, fazendo com que as imagens apresentem uma crueza bastante autêntica e violenta, que vão mudando na companhia dos personagens, vão seguindo novos rumos, novas formatações. As vozes dos personagens, não importa o quanto de interpretação existe nelas, é sempre a voz de um problema. Cabe ao espectador resolver suas contradições.

(Sorelle Mai, Itália, 2010) De Marco Bellocchio. Com Pier Giorgio Bellocchio, Elena Bellocchio, Donatella Finocchiaro, Letizia Bellocchio, Maria Luisa Bellocchio, Gianni Schicchi, Alba Rohrwacher, Valentina Bardi, Silvia Ferretti, Irene Baratta, Alberto Bellocchio, Anna Bianchi.

01st Jun2012

A Tentação

by Pedro Henrique Gomes

Filme político

Um homem está à beira de um abismo (no topo de um prédio, a bem dizer). Outro homem, um policial, está na janela próxima, tentando convencer o potencial suicida a não consumar seu desejo de morte. Gavin Nichols (Charlie Hunnam) é o jovem que está prestes da pular. O detetive Hollis Lucetti (Terrence Howard) é quem tenta persuadi-lo do contrário. Com o passar do tempo, conforme a discussão evolui, Hollis percebe que Gavin não está ali por vontade própria, mas sim que pode ter sido coagido por um terceiro a saltar do abismo antes do meio dia, caso contrário outra pessoa morrerá em seu lugar. Entremeando esse diálogo, A Tentação estabelece seus conflitos através de flashbacks, sendo que o motivo pelo qual Gavin (ateu) está ali, prestes a acabar com a própria vida, é filtrado pelo seu ponto de vista, com o mesmo ocorrendo com o passado recente de Hollis (católico). As crenças de ambos entram em jogo como medidas de persuasão (da parte de Hollis, que versa sobre o seu catolicismo, sua família e os problemas que enfrenta com ela) e de justificação (quando Gavin tenta explicar que não pode desistir da ideia, nem contar exatamente o que lhe faz estar em tal situação). O grande mérito, aqui, é verificar que não importa o exercício do cinema como função-fim (o final da história não significa nada; o embate é explicitamente moral e narrativo), mas a clareza e pertinência com que o desenho é estruturado. E se existem momentos vacilantes, há também aqueles de pura força.

Se o discurso é marcadamente intelectualizado (no sentido de que é, sem meias palavras, ateu, mas não só, pois é também antiteísta), não raro, as conversas entre os personagens representam com facilidade alguns dos argumentos mais simplórios que permeiam a discussão acerca da existência ou não de uma força inteligente antromórfica que dorme acima das nuvens ou mesmo fora do espaço e do tempo – estamos falando, em essência, do Deus cristão. Decerto entrar em discussões filosóficas ou teológicas (seja através dos argumentos a favor da existência de Deus, na via dos três principais: o ontológico, o cosmológico e o teleológico) ou científicas (biologia, astronomia, astrofísica) poderia complexificar a conta a ser paga dentro daquilo que o filme se propõe a narrar. Se por um lado essa ausência enfraquece o ataque ao teísmo (e ao cristianismo em particular), pois fica no comum da argumentação e da disputa filosófica, retratando o fundamentalista como um homem irracional, perdido em sua fé cega, e o ateu, racional e analítico, ponderando ideias e argumentos a partir das evidências que dispõem, todavia reduz a análise àquilo que é mais interessante: a tensão entre as forças fundamentais da religião e a crítica ateísta aos dogmas religiosos. Mesmo que nem toda religião seja essencialmente dogmática, A Tentação faz a crítica justamente daquele lado perigoso que os dogmas e as fés se fazem valer quando da negação do pensamento racional.

Tais como os capítulos que passam e nada do filme de Matthew Chapman (bisneto de Darwin) esconder o jogo: logo fica claro, sem qualquer mistério, o porquê do desdém de Gavin diante da pergunta do “vazio do mundo”, feita por Joe Harris (Patrick Wilson), fanático religioso que descobre a traição de sua mulher, Shana (Liv Tyler), com o próprio Gavin. Joe perguntou se ele não conjeturou a possibilidade desse sentimento de vazio existir em razão da ausência de Deus em sua vida. O ateu sorriu com galhardia. Em outro encontro, Joe convida Gavin e seu amigo Chris, com que divide o apartamento, para uma janta. Os quatro sentam-se à mesa e Joe pede que todos façam uma oração pedindo perdão pelos pecados dos dois (Gavin e Chris). Chris, que é homossexual, parece não se importar muito para além do constrangimento, mas Gavin não aceita o perdão divino e rebate as palavras do anfitrião hostil.

A legitimidade do texto corresponde ao sacrilégio: falar de Deus (ou contra ele) é algo como disputar um terreno inviolável, ultrapassar uma barreira antes intransponível, e é justamente esse o efeito e a intenção do filme – agora sem o Malleus Maleficarum para infestar a livre fruição das crenças. Bruxaria seria o caso se estivéssemos no século XVI. Gavin, ateu convicto, se envolve com a jovem cristã (ou seria apenas mulher de um cristão fundamentalista/literalista bíblico?) já correndo o risco de perdê-la ou de perder a si mesmo. O drama todo é fruto antes de dilemas éticos que sexuais. Para Joe, não importa tanto a traição, a homossexualidade ou mesmo a ausência de Deus, pois os atos não são malignos ou prejudiciais em si. O problema está no sentimento de culpa, de medo: o pecado, o inferno, a punição eterna.

Nesse ponto, é também muito claro aquilo que Chapman pretende com seu filme, que é defender um posicionamento positivo sobre o ateísmo e, também, criticar as instituições religiosas na medida em que elas se pretendem possuidoras dos discursos humanos (e, conceitualmente, sobre-humanos). A Tentação se resolve em meio a uma estética propositalmente naïf – a luz, o plano, o movimento, nada foge ao padrão estético hollywoodiano; os personagens tampouco possuem força expressiva para além das caricaturas desejáveis. Salvo que o filme se insurge diante disso como parte da lógica do discurso que ele mesmo pretende estabelecer, a tragédia é constituinte de sua essência dramática. A bem dizer, não é porque pensar que o irremediável das relações humanas significa arquitetar a distopia, mas é justamente quando se encena o drama que ele corporifica sua resistência.

(The Ledge, EUA, 2011) De Matthew Chapman. Com Charlie Hunnam, Liv Tyler, Patrick Wilson, Terrence Howard.