27th Dec2013

Os 13 melhores de 2013

by Pedro Henrique Gomes

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Tabu, de Miguel Gomes (Portugal, 2012) – Crítica aqui.

Um toque de pecado

Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-ke (China, 2012) – Crítica de Ricardo Vieira Lisboa aqui.

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Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche (França, 2013) – Crítica aqui.

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Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog (Canadá/França/EUA/Alemanha/Reino Unido, 2010) – Crítica aqui.

a bela que dorme

A Bela Que Dorme, de Marco Bellocchio (Itália, 2011) – Crítica aqui.

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O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (Brasil, 2012) – Crítica aqui.

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A Visitante Francesa, de Hong Sang-soo (Coréia do Sul, 2012) – Crítica de Leonardo Bomfim aqui.

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Spring Breakers – Garotas Perigosas, de Harmony Korine (EUA, 2012) – Crítica de Pedro Henrique Ferreira aqui.

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Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie (França, 2012) – Crítica de Inácio Araújo aqui.

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Depois de Maio, de Olivier Assayas (França, 2012) – Crítica aqui.

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O Mestre, de Paul Thomas Anderson (EUA, 2012) – Crítica aqui.

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4:44 Last Day on Earth, de Abel Ferrara (EUA, 2011) – Crítica de Fábio Andrade aqui.

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Crazy Horse, de Frederick Wiseman (EUA/França, 2011) – Crítica de Bruno Carmelo aqui.

Vários filmes entraram em cartaz em Porto Alegre apenas este ano após terem estreado em outras cidades ainda em 2012 (Mistérios de Lisboa, Holy Motors, As Quatro Voltas etc), mas considerei, para esta lista, a data de estreia nacional. Mistérios de Lisboa, aliás, seria o primeiro da lista. Como o foi na minha seleção de melhores do ano publicada no Zinematógrafo #6.

29th Sep2013

Boa Sorte, Meu Amor

by Pedro Henrique Gomes

boa sorte

Algum profeta antigo poderia dizer que os bons filmes não podem ser cordiais com o espectador. Eis que Boa Sorte, Meu Amor, o primeiro filme longo de Daniel Aragão, não chega para nos fornecer algum conforto. Senão através de um ímpeto irreconciliável com nossas histórias passadas, cravadas que estão nas memórias que nos poluem, essa ilusão distante das “felicidades da vida” revelará, antes e para nossa surpresa, uma potencial morte. Um plano que, de partida aberto, se encerra no personagem que fala à moda de um Béla Tarr dos mais apaixonados pela forma da imagem – e que constitui, não raro aí, também a sua força (por impulso associativo também não será difícil lembrar de O Cavalo de Turim num plano em que vemos justamente um cavalo esfacelado na rua). Na mesa, uma história (coisa de pai pra filho) que vamos compreender melhor ao longo filme é executada em letras cruéis. Imagem que, de certa forma, mais ao fim de tudo (Boa Sorte não tem um “final aberto”), ecoa ainda o Glauber das terras cheias de vazios, das aproximações de câmera nada lentas e imperceptíveis. Desde já podemos perceber que as pausas dessa voz que nos conduz o relato são mais assustadoras que qualquer imagem de um corpo (morto). O presente não existe.

Antes, porém, a moldar os primeiros planos, temos imagens de um vilarejo desértico, de um pequeno reduto de águas e de uma construção daquelas que têm uma cruz no topo. Um pouco depois vamos conhecer Dirceu (Vinicius Zinn), jovem que trabalha em uma dessas empresas que derrubam as coisas velhas para que se possam erguer coisas novas. Como em O Som ao Redor, o personagem também vai se mover entre os ciclos (in)finitos da Grande Máquina. Dirceu “vem” de família abastada do sertão, gente de posses, mas seu pai logo tratou de ir para o Recife, deixando o latifúndio (maldito latifúndio). Aragão trata de nos introduzir a esse personagem a partir de algo que ele observa, quero dizer, de olhares que se chocam. Maria (Christiana Ubach) aparece fundida no preto e branco da imagem, primeiro sorridente, depois povoada por alguma agonia que ainda parece tentar enfrentar. A tocar, uma música que compartilha um vigor, uma esperança; desejos. Como vemos, ela carrega um mistério.

Eu não tenho sobrenome

Durante um jantar com o pai de Dirceu, quando já estão em meio a um romance, surgem algumas palavras no rodapé da mesa: casamento, nome da família, sobrenome, natural de qual cidade mesmo? Maria não quer lembrar “daquilo tudo”, não é importante o sobrenome de família e ainda diz odiar “aquele fim de mundo” em que nasceu. Parece necessário deixar claro que houve uma espécie de ruptura para ela em relação a sua infância. Boa Sorte, Meu Amor não deixa de ser algo como um violento processo de re-pensamento de uma estória (sim), desalento que pede alguma outra potência. Em algum momento, Maria acaba deixando a cidade e Dirceu vai atrás dela. É lá no tal fim de mundo que ela se esconde dele. O filme de Daniel Aragão traz esse peso das chegadas e das partidas, acompanha a gentrificação das cidades e a exploração das regiões que a cercam e, embora contraste isso ainda com certa ingenuidade de uma estética formal operada através da montagem, não perde seu caráter de lucidez poética, isto é, não abandona as pessoas para ficar com as teses de bolso.

O menino que não precisava respirar

Se a grande questão para Dirceu é encontrar Maria, não nos restaria outra coisa senão acompanhar seu percurso pelo sertão. Na casa dela, nada. Aí então o filme dá uma guinada para um procedimento autofágico, demolidor. Para onde quer que olhemos, lá estará um perigo, um desvio da ordem que Dirceu tanto pensava manter sob controle quando vivia na capital cercado pelos “seus”, no “conforto” da cidade – que, assim como em O Som ao Redor, aparece como forma de construção não somente de uma imagem alegórica do capital, mas como registro assustador da acumulação a-estética dos símbolos que compõem as cidades. A geografia urbana deixa de ser uma combinação acadêmica maldita para assumir de uma vez por todas sua política.

Vem compor com isso a angústia de Dirceu, que se por um lado parece determinado a qualquer coisa para encontrar Maria, todavia permanece um personagem algo inacessível para o espectador (frio, duro, mas não por isso descarregado das contradições do humano), o que faz pleno sentido quando percebemos que sua busca não é pelo Outro, mas pelo Outro nele mesmo. O passado fisiológico, fincado na memória, é também parte de sua herança, indissociável do jogo. Boa Sorte, Meu Amor se aventura nessa viagem impura pela flexão dos corpos (outra palavrinha maldita para a crítica de arte), pelos semelhantes mundos que se chocam, juntando os pedaços do desespero para, num grito último, poder dizer de onde veio.

(Boa Sorte, Meu Amor, Brasil, 2013) De Daniel Aragão. Com Vinicius Zinn, Christiana Ubach, Rogério Trindade, Jack Mugler, Carlo Mossy, Maeve Jinkings, Jr Black, Marku Ribas, Júlio Rocha, Cacau Maciel, Gerlane Silva, Sandra Possani, Ana Lucia Altino, Zezita Matos, Bianca Muller.