06th Feb2012

O Raio Verde

by Pedro Henrique Gomes

Publicado originalmente em Cinefilia – Revista de Cinema

Sobre os filmes de Rohmer, muito se diz que não acontece nada, que os personagens não fazem nada, falam sobre nada. Ledo engano. Em poucas obras acontece tanta coisa numa imagem. Um plano que parece só mostrar uma personagem caminhando em meio a natureza revela sempre muito mais do que aquilo que, a priori, é tido como primeiro plano – a sentença de morte de uma imagem seria justamente não possuir um segundo plano. O Raio Verde não escapa à escrita. A conversa aparentemente frívola (a inquietação do Homem), o passeio desregrado (busca por rumos), o jantar casual (parte da sociedade, das relações com o mundo, conferidas também nas conversas acaloradas que muitas vezes se dão na companhia do vinho e do pão), tudo constitui a personagem em sua essência: Delphine (Marie Rivière, aqui também como co-escritora do roteiro) não é nem mais tão jovem para a balada nem mais tão velha para o ostracismo. Cheia de planos para suas férias, recebe uma ligação no trabalho do companheiro com quem planejara viajar. A notícia não é boa: o sujeito não vai mais poder fazer a viagem. Ela tem, portanto, 15 dias para encontrar outra pessoa para passar as férias ou acabará viajando sozinha, na companhia de sua solidão – a solidão é sempre uma companheira fiel em Rohmer – o que ela não quer que ocorra.

A potência e a exuberância de O Raio Verde estão na sutileza. Se, e somente se, Rohmer fosse um cineasta mais provocador (o que, a rigor, ele não deixa de ser), perderia sua sutileza, sua finesse. O trunfo está na perspicácia da ironia, na graça com que o romantismo é filmado, no absoluto controle sobre o objeto a ser filmado e o objeto a ser escondido (sugerido), na troca do plano para o contraplano, na escolha do melhor ângulo. São essas coisas que fazem dois cineastas aparentemente tão distintos em suas propostas, como Rohmer e Bela Tárr, parecerem tão semelhantes na imagem, pois elas sempre dizem mais do que se pensa: na palavra de um (Rohmer) e no silêncio de outro (Tárr), estão as dicotomias. Talvez por isso que “a planeza da imagem” (Deleuze/Imagem-Tempo) de Rohmer seja o “achatamento da profundidade” de Tárr.

Delphine vive de sua docilidade, mas sofre por seu isolamento, que constantemente a entristece. Mas a distância que a afasta do namorado (distância das relações é uma constante na obra rohmeriana) acaba sendo o ponto de partida para sua nova caminhada. Mesmo que seja difícil, mesmo que conheça outras pessoas (homens e mulheres, entre elas uma menina sueca que cria o contraste exato para consigo: ao contrário de Delphine, ela é mais sociável e disposta a arriscar-se), mesmo que converse bastante, que chore e que sorria, Delphine descobre o amor quando se cansa de procurá-lo. Ainda assim se mostra hesitante ao tentar conhecer outras pessoas, relutando o quanto pode ao confrontamento com o sexo oposto. A insuficiência de amor permeia o filme: há na personagem de Rivière um desejo tão brusco (aquilo que é externado), mas ao mesmo tempo tão íntimo e sensível (aquilo que não é externado) que ela não consegue lidar com sua carência (que, antes de ser puramente carnal, é mesmo de relações, sobretudo, humanas). Delphine vaga de trem em trem, de rua em rua, de bosque em bosque. A busca amiúde é pela companhia que lhe possa devolver a alegria de viver (a alegria da vida: vive-se, deseja-se viver sempre nos filmes de Rohmer). Daí o fato de Rohmer não abordar a morte em seus filmes. No fim, seus filmes são mesmo sobre isso: viver ou viver.

Ao seu modo, Delphine encara essa superstição do raio verde romantizada por Júlio Verne. De acordo com a ciência, na exatidão do momento do pôr do sol, o último raio de luz que o astro celeste envia pode cintilar, por uma brevidade, formando um raio verde. Num de seus romances, Verne disse que, se duas pessoas presenciassem o fenômeno, então suas almas estariam para sempre ligadas, como almas gêmeas. Delphine, que ouvira sobre o fenômeno através de uma conversa entre algumas pessoas à beira-mar, apegou-se a lenda. Ela passa então a vê-la como a porta de entrada rumo a satisfação plena. Ver o raio verde no horizonte do oceano pode ser a abertura desta porta. Enfim, viver-se-á. Um filme com final feliz.

(Le Rayon Vert, França, 1986) De Eric Rohmer. Com Marie Rivière, Maria Luisa Garcia, Béatrice Romand, Eric Hamm.

01st Nov2011

O Amigo da Minha Amiga

by Pedro Henrique Gomes

Publicado originalmente em Cinefilia – Revista de Cinema

Restituir o verbo

O Amigo da Minha Amiga é último filme da série Comédias e Provérbios (que conta com outros 5 filmes, entre os quais dois de seus melhores trabalhos Pauline na Praia e O Raio Verde), e como fecho de um ciclo, o encerra com elegância. Como no restante da série, aqui temos um ciclo amoroso complexo, em que desventuras amorosas e conflitos morais transitam nas mentes e nos corações dos personagens. A palavra, como sempre, é parte da encenação. É através dela que os personagens transeuntes do filme irão expressar suas aflições, tentando resolver questões existenciais – familiares a todos. Integrantes da classe média suburbana francesa, os personagens de O Amigo da Minha Amiga são a síntese de um cinema interessado em falar da contemporaneidade. E que, nesse desejo, acabam se tornando algo a mais, algo que eles, a priori, desconhecem. Portanto, não deixa de ser um filme sobre uma jornada pelo descobrimento pessoal do mais íntimo dos sentimentos humanos.

O filme conta a história de dois casais franceses, que vivem (e convivem) entre si, enfrentando suas peculiaridades e desejos. Blanche (Emmanuelle Chaulet) é uma secretária que, por ocasião de um almoço ao acaso, fica amiga de Léa (Sophie Renoir), que é técnica de informática. Blanche tem certa dificuldade em arrumar namorados, em razão de uma suposta timidez, apesar de sua beleza e inteligência. Lea namora Fabien (Eric Viellard), mas seu namoro não vai lá muito bem das pernas. Fabien é amigo de Alexandre (François-Eric Gendron), que é namorado de Adrienne (Anne-Laure Meury). Enquanto Blanche se apaixona por Alexandre, Lea, que não sabe se vai continuar com Fabien, tenta fazer com que Blanche se interesse por ele. Mas Lea é indecisa, pois nunca sabe ao certo se quer ou não continuar sua relação com Fabien, o que acaba confundindo ainda mais os sentimentos tanto do próprio Fabien quanto da amiga Blanche.

A teia de relações fica sempre balançando entre o amor e a amizade, e por vezes podemos ser confundidos pelo naturalismo com que os personagens falam um com os outros. Apesar de demonstrarem sempre interesses banais, no subtexto existe sempre o flerte mais ousado – que acaba disfarçado pelo “cinismo bondoso” dos diálogos. Alexandre, que tem Blanche em suas mãos, mas a esnoba, é afim de Lea, e chega sempre com “sutilezas na palavra” (influência explícita de Camus e Balzac) quando se dirige a menina. Lea, cedo ou tarde irá ceder ao charme discreto do rapaz, enquanto Blanche pode estar saindo com seu namorado. É esse mesmo o clima (Rohmer, como poucos, era um mestre em criar atmosferas), de relações não tão organizadas, mas certamente previsíveis aos personagens – estes, aliás, de tão diferentes entre si, de tão opostos num mesmo espaço, acabam por adquirir interesses sexuais em comum. E na organização desse espaço (cênico), Rohmer é craque.

Para elucidar personalidades extremas (Blanche e Lea não são como o fio e a navalha) Rohmer brinca com os figurinos. Se as duas vão a uma festa, uma veste azul em cima e branco embaixo e a outra o exato oposto. Os figurinos voltam com função dramático-metalinguística nos planos finais do filme (desta vez com o verde), mas que, para não estragar o desfecho, não vão ser detalhados aqui. Não que um filme possa ser reduzido a questões de encerramento, até porque (ainda mais quando falamos de Éric Rohmer) o que vale mesmo é a estrutura que lhe sustenta no caminho até esse desfecho. Não cabem “bons momentos” ou “pequenos momentos”, no final do filme, soma-se o geral do conjunto das experiências totalizantes. O Amigo da Minha Amiga é assim, dotado de mecanismos rigorosos de construção dramática e precisão na criação de “climas”, seja pelos diálogos sempre sofisticados que se inserem dentro de planos e contra-planos posicionados habilidosamente pelo diretor ou pelos momentos de puro prazer de ver aqueles personagens em embates ácidos através da troca de palavras. Rohmer também economiza na “musicalidade”, assim com Bresson, para evitar, segundo ele, a banalização dos sentimentos. Deixava que seus personagens expressassem sentimentos diversos através da palavra.

(L’ami de mon amie, França, 1987) De Eric Rohmer. Com Emmanuelle Chaulet, Sophie Renoir, Anne-Laure Meury, Eric Viellard, François-Eric Gendron.