14th Nov2011

Bastardos Inglórios ou o que é o cinema

by Pedro Henrique Gomes

Repetir o novo, inovar o velho

Logo na cena de abertura de Bastardos Inglórios, a tensão se instaura através da temporalidade. Um destino aceitável, ou melhor, negociável, se projeta em função do estiramento temporal da ação configurada. Nesse filme de Quentin Tarantino, onde o drama se instala lentamente, na medida em que o tempo de exposição dos personagens a certas evidências é alargado, é necessário respirar fundo. Como sabemos, para salvar a sua vida e a de sua família, o fazendeiro Perrier LaPadite (Denis Menochet) opta por entregar a vida de refugiados judeus que ele abrigava sob assoalho de sua casa nas mãos do exército nazista de Hitler, representados então pela figura imponente do Coronel Hans Landa (Christoph Waltz). Nessa cena (que bem poderia durar apenas dois ou três minutos), todos os judeus morrem, com exceção de uma das filhas da família, que consegue escapar – não sem certa dificuldade. E se no cinema de Tarantino alguém sobrevive a alguma tentativa de extermínio, é dada como certa a intenção de vingança a posteriori. Ou seja, o pior erro de um personagem de Tarantino não é matar, mas matar mal. Shoshana (Mélanie Laurent), o cordeiro que resistiu às dentadas dos leões durante o massacre que dizimou seus familiares, circunscreve desde já seu plano sanguinário de vingança.

Enquanto Shoshana dirige um cinema em Paris, na França de 1944, portanto tomada pelas tropas do exército alemão, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt) reúne seu pequeno contingente de soldados norte-americanos judeus no intuito de matar todo e qualquer nazista que encontrarem pela frente. Como percebemos, são personagens também movidos pelo instinto vingativo. Olho por olho. Cria-se, a partir daí, a narrativa da vingança, ou das vinganças que, torrencialmente impulsionadas pelo ódio embrionário de seus mestres, convergem todos os corpos numa noite de gala no cinema, fundindo-os (os nazistas todos, esses assassinos) numa só fumaça pictórica com requintes de crueldade para o bem. O que fica claro com isso? Não existem heróis sujeitos a redenção que não passem pelo crivo fisicamente mortal (pois sabemos que, no cinema de Tarantino, é possível morrer apenas mentalmente) da violência. Violência como substrato do drama, violência como registro do falso, como potência da estrutura, como criação artística superior que só o cinema nos pode emprestar. Violência, afinal, como elemento cataclísmico. Mas violência essa que nada tem de banal, ao contrário, é perigosa, pretensiosamente kitsch. Brutalidade que é incomparável; passa longe da estetização de um Winding Refn, está também distante demais de qualquer filme de Takashi Mike (embora falemos de cinemas distantes inclusive geograficamente, o que influi em outras de retratação do sangue e da morte na tela), foge da cientificização da linguagem de um Cronenberg.

***

O personagem interpretado por Menochet, do fazendeiro aparentemente desinteressante para o filme, é ao mesmo tempo fundamental e inútil. Fundamental porque, a partir de uma decisão sua (entregar ou não entregar os judeus ao nazismo; uma questão de sobrevivência, não de moral), toda uma série de ações desencadeia-se (distante de seu campo visual e sensível, é verdade) culminando na epopeia final. Inútil, pois, depois dali, não mais teremos notícias suas. No entanto, a lógica das circunstâncias explica que, não fosse seu momento de fraqueza, Shoshana não teria fugido para a França, não teria ido trabalhar em um cinema e, consequentemente, jamais teria incendiado esse mesmo cinema lotado de nazistas, inclusive com Hitler dentro, jamais teria matado o grande herói alemão do cinema (e justamente no cinema, na sala de projeção, ao lado da película em pleno desenrolar, no auge do encantamento e da fascinação da plateia), interpretado por Daniel Brühl. Arte suprema. Suprema, sobretudo, porque engendra na existência de cada personagem a substância indissociável a ele mesmo, pois, aqui, cada um tem um fim único, indiscernível (não poderia ser de outra maneira), completo, orgástico.

Só se pode prever uma cena no instante mesmo em que ela ocorre, pois não existem evidências que nos permitam a antecipação do acontecimento em si. Tarantino investe sempre no caminho oposto. É quando menos se espera, logo no momento inesperado, que surge um grande feito interno na ação dramática. E a virtuose disso tudo reside no fato de que, uma vez dadas as cartas para o jogo, o espectador se insere na contingência daquilo que se inscreve na tela sem se sentir surpreso pela violência que de lá irrompe, pois já assimilou o discurso – um pouco da essência temporal de cada plano do Kubrick de Laranja Mecânica. A relação da grafia da violência com a violência das coisas (diferente de um Peckinpah e a violência dos escrúpulos ou de um Michael Mann e a violência cotidiana das ruas), do mundo, é sempre algo como incerta, fantástica, atrelada mais a uma vontade de potência (porque aliada a história, a dramaturgia) do que ao artifício de um esteta. Desenvolve-se então um gosto nada volátil, que não se quebra diante das fragilidades de erros quaisquer (pois eles existem, embora diminutos).

O pelotão liderado por Aldo Raine jamais sucumbe. Para eles, viver é caçar nazistas. Na devassidão de Tarantino, seria demais exigir que eles soubessem lidar com o mundo (o nazismo), pois assistimos a prepotência com que o mundo lidou com eles. E principalmente porque os bastardos nunca são vistos na ação mesma das coisas, das missões, eles já estão lá depois do acontecido. Tarantino só filma o plano, a estratégia de ataque, para depois se retratar com sequências de longos diálogos apreensivos, onde quase sempre os personagens que compõem cada um dos planos se mostram inquietos e os objetos da cena são alterados, pois a mise en scène é fundamental em Bastardos Inglórios. A câmera de Tarantino filma a relação da matéria e do homem a partir de uma conscientização de suas formas íntimas. Personagens que não são dissimulados, ao contrário, são vertiginosos, dúbios, ambivalentes. No entanto, descuidam-se muito facilmente, entregando detalhes para o inimigo a revelia da gravidade das coisas. Eles se assumem farsas, assumem-se caricaturas perante o inimigo quando expostos a situações de risco, seja por algum gesto (a maneira não alemã que o personagem de Michael Fassbender pede três copos ao garçom) ou por um ato (entregar a arma ao inimigo; quase uma heresia) ou por alguma condição física (a perna engessada da Bridget von Hammersmark que não dá cabo de sua mentira) ou mesmo por meio da linguagem falada (a tentativa patética dos bastardos de falar italiano). Emil Jannings, a quem Goebbels chamou de O Artista do Estado pela sua participação em diversos filmes realizados para a difusão da ideologia nazista, é a própria caricatura mais anunciada.

O que o filme mostra é a arbitrariedade que move as relações e as jogadas humanas, no tom jocoso peculiar a Tarantino (aquela mesma fruição das incompatibilidades das atitudes vista e revista desde Cães de Aluguel, passando por Pulp Fiction e Jackie Brown e que culminam aqui no seu exemplo mais latente). E se Tarantino sempre lidou com sobras de outros cinemas, seu pastiche as transcende, evoluindo as obras mesmas, base de uma cinefilia antropofágica, carnívora. Mas nada disso furta a liberdade da criação, sobretudo da invenção (inventar a partir do já inventado), pois, como sabemos, um filme, depois de difundido, é mais do mundo do que do cineasta (no sentido subjetivo e exploratório). A função do autor, nesse caso, é justamente evoluir a forma, dar um novo compasso ao balé, dinamizar novamente as estruturas desses famosos monumentos erigidos para o deleite. Principalmente porque, quando falamos em referências, decerto referimo-nos a universos pré-concebidos, revisitados não somente pelo puro prazer da homenagem (definição sempre redutível, rasa e desmerecedora quando falamos de Tarantino, ou até mesmo em se tratando dos irmãos Coen com Capra, de Claire Denis com Ozu, de Lynch com Jodorowsky), mas por uma estética toda corporificada pela lucidez do autor e não por uma paixão cega, sensibilização típica dos cineastas mais medíocres. Essa narrativa, do modo como é exposta (filmada, regida), jamais poderia nos remeter aos filmes engessados pela violência em si, e não por sua essência. Bastardos Inglórios cola o espectador num estado tal da consciência do personagem que é a um só tempo próximo e distante, pois sentimos a tensão que se estabelece, mas não nos apegamos a ela ou mesmo aos personagens que morrem frequentemente dentro da tela, pois, propositalmente, eles dispõem apenas de suas próprias caricaturas para existirem e agirem. É por isso que argumentar contra a “construção de personagens superficiais”, nesse caso específico, é um posicionamento até bastante limitado. Eles são assim porque precisam. Morrem e não existe resignação alguma da parte do roteiro em matá-los, dado o universo no qual eles se articulam. A caricatura é o que os torna fortes e marcantes.

Especificamente em Bastardos Inglórios, a câmera nunca quebra o ritmo (nem o altera), a fruição, o embate colossal que permeia qualquer plano. A mise en scène de Tarantino, para além de sua composição estética, é exemplar no sentido de nunca trair os objetos projetados, a câmera enquadra e filma, movimenta somente pela necessidade do reenquadramento, caso contrário permanece no campo-contracampo, no essencial do acontecimento. Os detalhes vão se possuindo uns aos outros e conjurando a lógica das coisas e das relações humanas estabelecidas, e, para cada duelo dramático, algum detalhe cênico (seja do ator, logo do corpo e de seu movimento no espaço demarcado, seja das coisas não humanas) desemboca em uma reviravolta pertencente unicamente aquela cena – o que equivale dizer que cada cena de Bastardos Inglórios possui um ponto de fuga, uma virada espetacular em sua unidade específica. E se a estrutura é muita pensada, com a rigidez que a periodização pede, mas sem deixar de ser arquetípica, o conteúdo complementa a lógica do jogo. A consciência de que esse jogo (no sentido de confluência de objetos, pessoas, histórias) é metafórico – como a brincadeira com as figuras grudadas nas cabeças; como o personagem de Fassbender, crítico de cinema – é a força que dá pulsão ao filme, pois o coloca em uma posição privilegiada do olhar, a do olhar histórico-desvirtuado, menos afeito a precisões dramáticas e mais ligado na frustração imediata desses eventos.

A alteração do fato histórico, no entanto, se dá pela força da metáfora (sabemos o horror que foi a Segunda Guerra e o Holocausto, bem como o fascismo e o nazismo instaurados), mas sem nunca se corromper narrativamente – e daí que Hitler não morreu daquela maneira? E daí que o cinema de Tarantino minta deliberadamente. Esse cinema confirma essa virtuose de curvar a retenção dos corpos outros, corpos passados, desmistificando suas barbaridades, banalizando suas personas. Forma mais ácida de estruturar um filme não existe. A beleza reside na organização dessas histórias (de vingança, sobretudo; histórias que poderiam ter realmente acontecido), que são metalinguísticas sobremaneira. A pujança do espectador é brincar com seus signos. Com Bastardos Inglórios, Tarantino não nos furta o prazer da mentira que é o cinema. A prática, aqui, é de um cinema como um fluxo de imagens incessantes, perpetuadas pela potência de suas cores, seus diálogos (umas com as outras e entre si mesmas), entrecortadas pela narração em off, arremedadas com precisão. E se a beleza do cinema contemporâneo tem um nome, a chamaremos, por enquanto, de Bastardos Inglórios.

17th Oct2011

Drive

by Pedro Henrique Gomes

Ação

Drive, novo filme de Nicolas Winding Refn, dá margem as mais diversas interpretações sobre um estado tal do cinema de ação contemporâneo. Onde está o conflito? Onde está a ação? Como conduzir o romance? Como filmar a perseguição? Como morrer e como matar? Em meio a essas questões, o mais recente filme de Refn constroi uma geografia muito peculiar (essa mise em scène, assim, é só sua, irreconhecível desde já) e narra a ação humana a partir de uma concepção de cinema bastante diferente daquela saturada pelo mainstream hollywoodiano. Pois se existe algo empolgante em Drive não é a correria de uma perseguição, a velocidade dos carros e seus super motores ou os corpos femininos semi nus dançando para a câmera. O que importa é noção de perspectiva que se estrutura nessa relação da ação física e da ação mental.

A força de Drive não está em sua indiferença as formalidades correntes, mas na consciência de que é preciso filmar mais e melhor, tratar mais e melhor, sair da linha de produção, envolver-se em outra solução para cada uma das questões. Ao espectador resta então perceber a variação do discurso e da manipulação. O filme tem em seu protagonista um homem sem nome, que apenas dirige, como diz ele próprio. O driver é um dublê de filmes hollywoodianos e que trabalha numa mecânica de automóveis. Paralelamente a isso, realiza alguns trabalhos como motorista. Basicamente, ele dirige e ponto. Não tem nome, nem número. É o tipo de poucas palavras e muitas ações, mas ações sempre pensadas, mesmo que, algumas vezes, impulsivas. Sua vida segue dentro da normalidade, quando então conhece Irene, sua vizinha. Logo ficam amigos, mas o marido de Irene, que estava preso, ganha a liberdade e volta para casa. E volta devendo para bandidos, que o obrigam a realizar um assalto de maneira a pagar a dívida. Conhecedor da situação, The Driver oferece ajuda no trabalho (apenas dirigindo, claro). Tudo isso pois, sob aviso, os bandidos, que estão a serviço de mafiosos poderosos, ameaçam Irene e o filho. O assalto, que deu certo por um lado (conseguiram o dinheiro) e errado por outro (alguém morreu), desemboca num jogo de gato e rato fulminante. Percebemos de longe, que ele não quer enriquecer, fazer carreira, esbanjar, quer tão somente viver – mesmo que para isso necessite cortar algumas cabeças.

Há uma luz que corta, entra e perfaz o olhar sóbrio do motorista inominável. A escuridão marca um lado enquanto a luz ilumina o outro. A câmera capta o ponto de vista dele enquanto dirige, registra seu olhar apreensivo, porém sábio, com elegância, sem palavras, sem explicações – comuns ao cinema de gênero. O único diálogo que almeja diretamente a alegoria e o efeito rápido e imediato é também uma cena de função lógica essencial a construção de personagens. É quando um suposto empresário oferece a mão em cumprimento e o personagem de Ryan Gosling diz que suas mãos estão um pouco sujas, pois acabara de mexer no carro. No que o empresário responde: as minhas também. É um diálogo de fácil compreensão (aliás, Refn é sempre muito seco e direto), mas de fundamental função narrativa.

Um filme que efetivamente cria uma relação de afeto entre personagens que não se resume ao gozo banalizado da paixão. Há, de fato, um romance em jogo, mas não há, narrativamente, uma valoração exacerbada sobre ele. As coisas simplesmente acontecem – e o romance mesmo fica para o extrafilme, pós-créditos. Algo queima por dentro, transcende a lógica do impulso, e cresce mais para o olhar do espectador do que para os próprios personagens. The Driver coloca, antes de tudo, a vida de Irene em questão. Não lhe interessa ficar com o dinheiro (que não é pouco, 1 milhão de dólares), mas proteger aqueles que parecem ser os únicos capazes de lhe fazer sorrir. Ao mesmo tempo, quando confessa a Irene que participou do assalto, ela lhe esbofeteia a face, num gesto instintivo que significa tudo em tão pouco: Drive é mesmo um filme sobre pessoas, sobre o humano, pois não importa o dinheiro sujo do crime, nem a música oitentista, tampouco os objetos figurativos, mas a potência do outro. A cena demonstra o olhar do diretor, pois não está ali simplesmente para inserir o drama, mas para dramatizar, sobretudo, as relações humanas.

Não se trata, todavia, da estetização da violência, mas a exploração da violência em si enquanto significado e significante. Se ela é explícita, se é gráfica, é também dispositivo da ação. Pois é perceptível o tratamento, em Refn, do sangue, da pungência das lâminas que atravessam as veias das vítimas – no mundo de Refn, todos podem ser vítimas, não há algozes ou heróis. O jorro de sangue é muito comum, porém hipertrabalhado (não há morte pela morte, sangue pelo sangue; filmar isso é algo como um ritual), indo de encontro a proposta estética que permeia o cinema de Refn. A estilização da morte, a morte enquanto cerimônia essencialmente cinematográfica, munida de toda uma dramatização possível, enquadrada e filmada sem moral, mas com torpor, até que se esgote o conteúdo e não se perca a forma, torna-se exemplo de sua motivação em filmar as coisas reais da vida pelo olhar romantizado da câmera. Drive tão logo tem início e já fica clara sua predileção pela imagem-total. Refn firma o estilo de seu filme sem precisar afirmá-lo como identidade. É uma condição vividamente aceitável e reconhecível como discurso estruturado na tensão, no sufoco da expectativa. E uma concepção de ação cinematográfica não menos que válida.

Refn conscientiza-se da largura do plano, do estiramento do tempo dramático, e horizontaliza a sangria. Mas não há milagres na ação de Drive. O protagonista vence humanamente, derrota um por um seus inimigos porque é cerebral, não por ser brucutu. Apesar de a estética ter base na produção dos anos 80, do motorista ser um decalque clássico do anti-herói moderno do cinema de ação (nem mau, nem bom, apenas fatalista), Drive se afasta do registro supérfluo (tudo bem que o palito que carrega intermitentemente na boca, tal qual o Cobra, personagem mítico de Stallone, é um tanto quanto detestável), evacua as facilidades e as convenções desse cinema opulento e flambado. Refn invoca a mitificação inevitável do poderio alucinatório desse personagem, criado e cultivado na iminência dos sentidos.

(Drive, EUA, 2011) De Nicolas Winding Refn. Com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Ron Perlman, Oscar Isaac.