21st Sep2011

Desassossego (filme das maravilhas)

by Pedro Henrique Gomes

Um pouco de tudo e um muito de nada

Após uma carta-manifesto, escrita por Felipe Bragança e enviada para alguns cineastas, eis que surge Desassossego, filme realizado a partir de vários olhares, disposto através de diversas estéticas e propostas narrativas tão distintas quanto singulares. Como obra coletiva, em que diversos diretores se unem para compor um olhar distinto, Desassossego articula esses fragmentos de maneira a potencializar não somente o discurso da carta-manifesto, e está imbuído de uma pretensão bastante produtiva de estender um diálogo sobre toda uma sociedade e o olhar que se lança sobre ela; sobre nossa cultura (da vida e da arte); sobre a infância e a juventude (especialmente a carioca). Desassossego vai estruturando esses fragmentos (pequenos curtas que 14 cineastas espalhados pelo país filmaram a partir da carta) pela lógica da inversão rítmica. O objetivo não é narrar linearmente as histórias, tampouco dar uma arquitetura dramática que os interligue e os conecte uns aos outros. A ideia do jogo é quebrar o arco dramático, provocar a ruptura da linguagem (tanto estética quanto narrativa). Funciona como discurso, mas a força que os fragmentos engendram na tela não é suficiente para sustentar o filme.

Não por isso deixam de existir aqueles momentos de pura força (e não falamos aqui da potência tradicional, imagética e equilibrada, renascentista e naturalista, mas da construção largamente desterritorializada, subcomposta, em alguns casos, por fragmentos independentes e valiosos), e que enfim protestam a favor de todo um ideário possível e imaginável. Desassossego é um filme que, sobretudo pela proposta narrativa (que demanda uma ação muito particular a cada realizador envolvido), é intelectualmente livre. Nessa potência, basicamente se prontificam uma série de consequências dessa mise em scène multiconstituída. Pois se cada filme é um filme, e cada filme é um mundo, Desassossego então é vários olhares que, dispostos e condensados dentro um só, investigam um mesmo drama (terreno; o ponto de vista dos autores do projeto), só que distantes, incomunicáveis. Assim, o que se materializa na tela não são os diálogos possíveis entre estes fragmentos, mas os discursos montados a partir deles, na montagem em si. O processo é arriscado, até mesmo ousado, pois se corre o risco de perder a voz meio tudo isso. Não obstante, é pertinente verificar que a voz fica, só que quase não se pode ouvi-la.

Responsáveis por organizar os filmes, Felipe Bragança e Marina Meliande lançam um olhar sobre eles, mesmo que inconscientemente. Se existe um planejamento e uma organização dessas imagens, quem deve lançar esse olhar sobre elas são os diretores (que são quem organizam as imagens), e o destino, portanto inefável, é comandar as vozes que se proliferam em meio a multidão de imagens semelhantes, que se autoestimulam e comunicam-se distantes demais. Desassossego cai numa armadilha que tem sido muito cara e venenosa aos aventureiros do filme de parceria e colaboração mútua: aos distribuir tantas crenças e visões de mundo, corre-se o risco de sobrepor um olhar em detrimento de outro. Não há estancamento desse jorro, a tendência é o esvaziamento da crença. Perde-se energia física, embora se mantenha a ideia a vista – há uma força ali, não se pode negar. Em outras palavras, o filme de Felipe e Marina se configura num aglomerado um tanto distante de suas próprias pretensões, pois só alcança a simples lógica do jogo, não se funde num discurso-presença totalizante. Os espaços, propositalmente ou não, resultam em esquemas irregulares que só conseguem atingir um ponto de equilíbrio em seu próprio artifício. Surpreendentemente para um filme coletivo, Desassossego fecha-se em si mesmo.

(Desassossego, Brasil, 2010) De Felipe Bragança e Marina Meliande.

21st Aug2011

A Alegria

by Pedro Henrique Gomes

Mundo em frangalhos

A Alegria idealiza uma estrutura narrativa potencialmente elegante: a melancolia que se quer extravasar. Não é o sentimento de alegria comum, do falso-conceito de satisfação e bem estar, de plenitude e gozo eterno da felicidade (por si só um uma falsa-verdade que povoa a mente da sociedade capitalista). Não existe a alegria instaurada, e sim a alegria possível. Felipe Bragança e Marina Meliande dirigem um filme a parir do êxtase, da explosão, da sinergia que parece prestes a envolver e comover o companheiro do lado, mas que demora a tomar efeito. Até os fantasmas querem a liberdade. Um espírito imagético-revolucionário, como se fosse possível fundir a insatisfação de Guy Debord com a prosa-fantástica de Apichatpong Weerasethakul.

A influência de Apichatpong empresta tanto a certeza (quanto ao suprimento das mesmas potências, das mesmas dialéticas e da mesma fruição das imagens) quanto a incerteza (quanto a sensação de incompletude, de que falta algo nesse jogo, de necessidade de retrabalhar os espaços mortos em cada plano). Pois se em Apichatpong o cinema só pode fluir a partir dele mesmo e da natureza que o cerca (o encontro é sempre proporcionado através do corpo humano que invade o espaço natural, cerceado por seres intangíveis num primeiro olhar), A Alegria só consegue lidar suficientemente bem com as artificialidades que sobram desse cinema tão imagético e vibrante praticado pelo cineasta tailandês. Apesar de versar sobre super-heróis (certamente que não é somente isso: há também a revolta, o espírito revolucionário da adolescência marxista, a inquietude diante do estado das coisas, sensação de enclausuramento, a necessidade de transbordar e de, enfim, respirar), portanto sobre uma energia possível que pode acompanhar a juventude e a rebeldia, A Alegria nunca instaura a desestabilização de um Apichatpong e a provocação de um Debord.

O filme de Felipe e Marina se afilia ao fantástico para suscitar o medo, o espanto, o acuamento. O interessante para os cineastas é contorcer a relação das personagens com o mundo: afastando para aproximar, se desgrudando do mundo para se recolocar nele, para tentar buscar (recuperar?) um espaço há muito perdido em meio a espetacularização da condição humana na sociedade, explorar a violência como força tonificante desse cinema pretensamente viciado em arquétipos. A Alegria dá um tiro no pé de uma personagem ao mesmo tempo em que almeja o enternecimento de outra. Trata da violência suburbana carioca como contextualizadora desse mundo a ser conquistado (ou reconquistado talvez seja mais apropriado). É um cinema todo fruto do conceito narrativo-funcional (e que algumas vezes atinge certo rigor e excelência, como na cena em que os jovens tentam atravessar a parede, num exemplo dessa poética do descontrole), mesmo que os experimentos não sejam lá tão radicais como em Desassossego e até mesmo em A Fuga da Mulher-Gorila. É um esboço fortemente armado, mas que ainda não encontrou o melhor caminho para se libertar.

(A Alegria, Brasil, 2010) De Felipe Bragança e Marina Meliande. Com Clara Barbieri, César Cardadeiro, Flora Dias, Maria Gladys, Mariana Lima, Sandro Mattos, Tainá Medina, Rikle Miranda, Junior Moura e Marcio Vito.