12th Aug2011

Melancolia

by Pedro Henrique Gomes

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O mais importante em Melancolia é que Lars Von Trier joga limpo com o espectador. Seus mecanismos, sua forma e seu conceito, suas manipulações e seus efeitos, tudo é abertamente trabalhado de maneira a refletir a superfície e a atmosfera, em que pese a comparação com os universos indiscerníveis de Dogville e Manderlay. Aqui, seus personagens parecem não se conhecerem, apenas se devoram mental e fisicamente. Mesmo as irmãs Justine e Claire, relacionam-se com certa antipatia, e dizem eu te amo na medida em que soltam quase um eu te odeio. Mas elas compartilham o medo do desconhecido. Em Melancolia há também a dose de ironia peculiar ao diretor. Se o mundo é mau, outro mundo vai acabar com ele, e não necessariamente os próprios homens. Quanto a isso nada pode ser feito pelo humano.

Durante a festa, todos os convidados não pertencentes ao ciclo familiar (os não-personagens, aqueles que não falam para a câmera, só fazem terceiro plano, literalmente fora de foco) sorriem complacentes, demonstram-se estarrecidos complacentemente. Falam entre si, dançam entre si, mas não dialogam verdadeiramente, não se tocam sensivelmente. É a tal Dança da Morte. Parece tudo um simulacro, um teatro das impalpabilidades. Não reclamam de nada, só batem palmas tímidas de aprovação ou se deixam dominar pelo silêncio reprovador. E, cedo ou tarde, lentamente todos eles vão embora da festa, mas Von Trier não filma as despedidas, os tapinhas nas costas. Ninguém sai de cena, eles apenas desaparecem mesmo, como se ali nunca estivessem de fato. Isso se dá decerto na medida em que o planeta misterioso se aproxima – Melancholia vem, as pessoas vão. Os corpos humanos vão esvaziando as imagens do filme, mais ou menos conforme a pressão da atmosfera causada pela colisão dos planetas se faz mais forte. Fica evidente que em algum momento faltará ar.

Na dialética do filme, existem lugares e caminhos por onde não será possível atravessar. No segmento de Justine, há a ponte que seu cavalo se nega a pisar, logo abaixo do planeta ameaçador, enquanto sua irmã passa tranquilamente para o outro lado. Há, também, logo no início, a limusine que carrega os recém-casados rumo à festa sofrendo para fazer uma curva (com essa cena, Von Trier nos diz que de fato não iremos acompanhar uma história de amor, pois o casal não bate; comprovaremos). Já na parte dois, a de Claire, a mesma ponte também faz o motor do carro de Claire apagar em seguida. Ao passo que Melancholia se aproxima, suas forças se invertem, ou se revelam diante de suas outras fraquezas. Justine passa de um estado inconstante a um nível depressivo (ainda que não seja a depressão o seu problema). Quando sorri, parece chorar, mas nunca o contrário. O sexo que ela nega ao marido após o casamento (uma junção que vai acabar em tempo real, tão rápida e friamente quanto seu início), todavia ela corporifica com um qualquer, num ato perpetuado por uma crueza imagética distanciada. Nessa cena, a câmera, em um momento raro, filma Justine com um certo afastamento, enquanto ela perde o slogan (a perda da pureza, da santidade). Ou seja, alguém está negando aquela atitude peremptória como um valor moral em si, só não se sabe se o cineasta ou a personagem – provavelmente a própria Justine.

Mas aqui não existe silogismo, uma vez que Melancolia já parte do fim, e é só ele que interessa. O fim empírico, o fim em si mesmo. Mas Von Trier não trata do mundo como metáfora para a condição humana, o olhar parte antes do Homem, é ele quem olha, mesmo que impotente, mesmo que cegamente. O mundo é só mundo, só um lugar (um lugar doravante sujo e decrépito). Constatamos isso ao observar Justine se banhando sob a luz do Melancholia. Corpo nu, curvado sob a relva do jardim, pintado pelo azul dessa luz que de tão forte transfigura as cores da natureza. Uma luz não raro azul, cor que assume um poder de controle mental, todavia ligada aos processos psíquicos de solidão e depressão. É ela, Justine, quem faz as pazes com seu destino, ela é quem vai de encontro aos seus anseios mais profundos. Não que, com isso, ela esteja o aceitando como um futuro inadiável cujas proporções são igualmente inabaláveis, mas, sim, reconhecendo e legitimando o fato de que, não importa o que eles façam ou para onde tentem ir, o fim do mundo é evidente, o cataclismo é só questão de tempo. Ela não aceita esse processo trágico (como a música de Wagner que compõe a trilha sonora), ela o compreende. O longo prólogo, acompanhado sonoramente por Tristão & Isolda, carrega peso semelhante ao da abertura de Anticristo, quando toca a ária de Handel, aquela mesma que anuncia a morte – aqui, seria a morte do mundo, e aí então a consequente morte do Homem.

Claire tem guardadas as pílulas da morte, para quando o momento chegar. Perdida entre a ciência do marido John (Kiefer Sutherland) e a fé da irmã Justine, ela quer estar preparada para o evento, aconteça o que acontecer. Não quer que a Terra, que é má, tire sua vida diretamente, prefere alimentar um suicídio coletivo. E ela ao mesmo tempo quer cuidar da irmã – que já não responde mais por si, apesar de saber quantos grãos de feijão estavam na garrafa e ter certeza que o fim do mundo se dará em poucas horas – e do filho. John, o cientista, o astrônomo, o estudante dos signos, enlouquecido com suas teses que não se materializaram, apela para um ato puramente científico logo após a desilusão. Perdeu a fé em sua ciência. Este sim, aceitou o fim do mundo sem compreendê-lo, ou percebeu tarde demais. Ele, como Isolda, é consumido pela tristeza. E se em Anticristo a personagem de Charlotte Gainsbourg já sofrera com o luto, precisando de cuidados do marido, aqui, num primeiro momento, é ela quem cuida de um familiar – é ela quem observa outro corpo nu ao pé da árvore.

A dicotomia entre as partes, da agonia de Justine (Kirsten Dunst) ao desespero de Claire (Charlotte Gainsbourg), instaura os parâmetros do drama. Mas é por aí que Melancholia trava em alguns vícios e limitações do autor. Von Trier quer engendrar o drama pela câmera, mas ela é muitas vezes frouxa, simplesmente treme, sem atingir um efeito reconhecível em relação ao psicológico de suas personagens. A força maior de Melancolia não vem, então, dos personagens, pois Von Trier não parece um cineasta que se entrega a eles mais profundamente. Todos sofrem, agonizam, afundam-se numa solidão pós-depressiva, mas jamais são vistos de perto, para além do zoom, além das lágrimas e do step printing. Eles são complexos por não terem sido descobertos. A potência reveladora que impulsiona a experiência é a intensidade de como as coisas se dão, a própria fantasia, o universo onírico, a tal experiência do cinema. A imagem final trata de trazer o espectador para dentro do filme, inseri-lo na proposta.  Afora qualquer deslize, Lars consegue o efeito. O Melancholia vem até nós, sua voz nos ensurdece, sua luz nos cega e sua superfície quase nos toca.

(Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011) De Lars Von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgaard, John Hurt, Stellan Skarsgaard, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling.