09th Jun2012

Xingu

by Pedro Henrique Gomes

Xingu carrega todo o bom do cinema umbilicado à sua produção. Filme grande, custoso, mesmo metafísico. A decupagem não nos é estranha, a cor reconhecemos a distância, a musicalidade já chega atravessando todos os traços de preconcepções possíveis. Com dez minutos de filme, já estamos jogados na correnteza dos rios e do verde imponente que faz a paisagem, substituídos que somos pela estetização da câmera e da luz. A imagem de Xingu (e do Xingu) não é exótica (o que é um mérito), mas também não é muito diferente da televisiva (o que é um problema). Se a realidade é uma questão de/do olhar, de ponto de vista, então Xingu satisfaz as instâncias mais íntimas, quais sejam, contar a história dos Villas-Bôas. Mas poderia ser qualquer história, já que só há uma vontade pela história dos livros médios, sem a dialética despojada que a exploração temática exigia.

Ora, somos nós que criamos nossos ídolos, não o contrário – à semelhança daqueles discursos colonialistas. O branco pode querer ser índio, mas o índio não precisa querer ser branco ou mesmo ideologizado como tal. A indianização é um decalque do branco, o embranquecimento não é um desejo do índio. As lágrimas indígenas vertem sangue, assim como a dos irmãos Villas-Bôas, que são quem nos contam a história. Eles foram pro Xingu, viveram com os povos indígenas e lutaram por e com eles, ajudando a garantir o espaço (a terra) naturalmente conquistado. Aqui, o Xingu de Cao Hamburguer é um anjo desejante e malvado, como tem de ser.

Ok. O tema tem atualidade (pois falar do Parque do Indígena do Xingu, desde a Marcha Para o Oeste de Getúlio, até os Villas-Bôas assumirem a coordenação da expedição, passando pelo projeto de Darcy Ribeiro, em época conturbada como essa já é algo; os problemas são outros) e carrega sua potência intrínseca as imagens políticas e antropológicas que registra, mas, como quase toda comunicação e os instrumentos que são seus meios, o ponto crítico está mais naquilo que é omitido do que naquilo que é mostrado. As sequências que mais resistem ao corte são as que se pretendem amplificadoras das tensões e das disputas políticas; o olhar humano, ou seja, o olhar do índio, não fixa sua imagem quando era necessário suspender o tempo e perder-se nela – algo como em Serras da Desordem, ainda o filme-síntese; ou como no rugido poético de Febre do Rato, último do Claudio Assis; ou mesmo na rica simplicidade (sic) de Girimunho. Ao Xingu, faltou aquilo que ele não quis ser: o peso ontológico daquilo que representou apenas superficialmente, pois é um filme sobre o homem branco – o que não é um mal em si. Ora, os Villas-Bôas, afinal, foram responsáveis pela criação do Parque, mas não só, agindo também na preservação da diversidade indígena presente no Xingu. Percebe-se, portanto, que não estamos falando de um problema de concepção, até porque nesse ponto o filme não é nada inocente.

Por outro lado, é na força interpretativa de João Miguel que Xingu dá gosto – mesmo que o roteiro de cada um dos irmãos crie caricaturas para comportá-los dentro de uma narrativa estetizada, tem esse cara que rasga as telas de ouro da grife novelística para se construir grande. Suprimindo as alegorias hollywoodianas que afloram aqui e ali, retirando do drama aquele peso da História e da necessidade de respeitá-la, o filme de Cao Hamburguer trabalha os monstros (que são os outros) sem o apetite que aquela terra parece emanar pelos homens que lá vivem e resistem. Ora, conflitos dramáticos não correspondem ao drama em si (aliás, não existe drama quando ele não é filmado; à exceção quando raramente existe, mas é bem filmado, como em Straub e Huillet) simplesmente porque não potencializam o discurso por coerção. O Xingu é mais e é melhor. Se por um lado o filme assalta com vigor a História ao roubar seus personagens, todavia a existência de uma experiência mitológica parece servir como fonte suficiente para fornecer tudo àquilo que lhe falta: o índio enquanto cultura de resistência. Isso tudo não por falta de equilíbrio, mas alimentado por um desejo insano pelo épico.

Se o brasileiro urbano não gosta do índio porque não o conhece, não será com Xingu que passará a conhecê-lo. Se a estética precisa sempre dizer mais do mundo do que o mundo precisa dizer da estética (e da política), então o cinema passa, sem perceber a ironia (mas perdendo-a), a ser uma questão de enquadramento e de travelling onde agentes da história, da ficção e do real, discutem seus dilemas. É verdade que essa história se oferecia para o cinema, mas o cinema precisava também se oferecer mais à ela. Mesmo com toda qualidade em jogo, sem paradoxos, a trajetória mundana dos diálogos entre o homem branco (herói sim, porque não?) e o índio (herói não, resistente sim!) reduz sua potência à temporalidade e à lógica dos discursos. Do ponto de vista narrativo, é a morte da palavra. O mundo é um thriller.

(Xingu, 2011, Brasil) De Cão Hamburguer. Com Caio Blat, João Miguel, Felipe Camargo, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Adana Kambeba, Tapaié Waurá, Totomai Yawalapiti.

30th Jun2011

Ex-Isto

by Pedro Henrique Gomes

Penso, logo Ex Isto

E se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau? Livremente baseado em Catatau, prosa experimental de Paulo Leminski, o filme Ex Isto, de Cao Guimarães, tenta dar imagens às palavras do poeta curitibano a partir dessa ideia. Mas o que poderia ser entendido como uma adaptação ponta a ponta da obra de Leminski, mais convencional, com um esqueleto dramático-narrativo mastigado, aos olhos de Cao, transcende a própria criação-base, metamorfoseia-se em uma atmosfera diletante, onde resplandece a sede da descoberta, do saber, do conhecer, do experimentar; do medo, da dúvida, da apreensão, da razão, da moral, da ética, da criação, da insanidade. Nada é pura imersão ao sublime, ao fantástico. Não se trata de exprimir, mas de explorar. Estamos falando de um filme certamente consciente de que o limite criativo não existe. Mas para além do filme de belas imagens e de lindos planos, acima desse jogo visual melindroso que aos olhos de um cineasta menos habilidoso pode soar presunçoso, Ex Isto assume logo cedo que mergulhar nessa viagem é estar ciente de quão distante é o infinito de possibilidades ao qual a atividade gravitacional de seu eixo imaginativo poderá nos conduzir. Resta-nos embarcar.

Ao longo do filme vemos um homem ao mesmo tempo intrépido e assustado com as imagens que vê, com a civilidade que confere com seus próprios olhos, mas também com seu corpo, pois Descartes embrenha-se junto às pessoas, caminha com elas, dança com elas, tropeça nelas. Ele literalmente abraça esse mundo para descobri-lo. As imagens estão impregnadas por essa noção de busca, de procura e de descoberta (de nossa própria História), mas também de perda. O plano-sequência na estação dá uma ideia: a câmera, também um personagem, persegue os passos de Descartes, num vai e vem constante. Em certo momento, ela o perde em meio à multidão de corpos que os separam. Logo depois estamos na praia, onde Descartes, nu, transita e refestela seu corpo na areia, enquanto mantém conversas alucinógenas consigo. Em seguida temos Descartes deitado, com seu corpo nu inerte à margem do mar. Eis que surge uma personagem aparentemente desconexa àquele momento e o toma em seus braços. Para Cao, colocar Pietà naquele momento faz todo sentido. Logo essa imagem, símbolo de todo um misticismo cristão, que empresta sua significação a piedade, ao renascimento.

E o que se descobre dessa relação câmera-personagem também enriquece a narrativa, potencializando as imagens. Toda beleza imagética que surge dali, desse encontro de Descartes com a civilização dos trópicos, vem apoiado na inquietação do próprio João Miguel, que interpreta Descartes, e também (e principalmente) de Cao. O filme vai se construindo assim, delineando espaços e os preenchendo senão com o corpo, com a alma. E se falamos de um filme de puro poder de criação, onde sua grande força estética e narrativa está na imagem, no olhar, no gesto, no movimento, na expressão, então temos que lidar com uma presença nem sempre física. O olhar de João Miguel quase sempre direciona o olhar do espectador para o extracampo, pois muita coisa acontece fora de quadro em Ex Isto; a bem dizer, todo o movimento das pessoas e do mundo se passa por aí, à volta do personagem, cerceando suas sensações. A semântica da relação é o corpo crivado a esperança e semelhante melancolia.

(Ex Isto, Brasil, 2010)
De Cao Guimarães
Com João Miguel