25th Nov2011

Les amours d’Astrée et de Céladon

by Pedro Henrique Gomes

Eric Rohmer veio falando de palavras mal interpretadas e imagens mal vistas ao longo de mais de 50 anos de sua carreira atrás das câmeras (e também quando ainda escrevia sobre cinema nos Cahiers), chegando ao final dela tendo abordado diversos níveis e desníveis do amor, da morte, da burguesia francesa etc. Neste seu último filme, Rohmer potencializa essas duas questões latentes em sua obra (palavra e imagem), contrapondo-as. Os Amores de Astrée e Céladon é todo assim, cheio de ações vocais e visuais, onde o dito e o dito são levados sempre ao pé da letra, como se fossem a única verdade absoluta para todas as questões. No texto de Honoré d’Urfé que Rohmer (cineasta refinado e afeiçoado a questões de dramaturgia) adaptou para as telas (contagiado pelo entusiasmo de uma representação em teatro que acabara de assistir), sobram influências teatrais (de Shakespeare à Flaubert), refletidas na condução extremamente polida da câmera (da movimentação dela e dos planos, em sua maioria fechados), da mise en scène.

Os Amores de Astrée e Céladon possui uma teatralidade viva. Até mesmo nas cenas externas, banhadas pelo verde das planícies e dos planaltos, os personagens que transitam nos quadros parecem flutuar em marcações de espaço e, tal qual nos palcos, estão presos a esse mundo-espaço de onde dificilmente poderão sair – e se saírem provavelmente para ele retornarão. Há uma necessidade constante de ir e vir, de falar e de mostrar, de olhar e de se virar. Falamos de um filme que se utiliza de uma imagem para depois remontá-la sob novos olhos, portanto sob novas perspectivas. Uma imagem, seja das pernas levemente descobertas de Astrée ou do peito destapado de Céladon, não pode ser sentida, tocada. Não é, portanto, palpável. Mas de que adianta ver se não se pode tocar? De que adianta ter um amor ao lado se não se pode revelar-se a ele? De que adianta o amor, afinal? Os tais amores do título se revelarão tão distantes quanto iconográficos. Culpa de quem? Da palavra. Tanto Astrée como Céladon condenaram o outro a um autoexílio. Ela por falar e ele por não falar. Astrée, ao ver o amado com outra menina, numa cena que não foi compreendida por ela, acaba dizendo que não quer mais vê-lo, pois não pode aceitar o peso da traição. Céladon, logo depois, acaba dado como morto após se jogar num rio traiçoeiro, mas acaba salvo por três ninfas que o levam a um castelo distante, onde o alimentam. Após breve melhora, Céladon vai se refugiar no campo, numa espécie de adoração a deusa Astrée, de onde pretende não sair, pois não consegue voltar para os braços da amada após as duras palavras que dela ouviu.

No campo onde está dormindo, Céladon recebe visitas e ouve conselhos de um experiente druída, que é o dono do castelo onde se recuperou de seu devaneio. Numa de suas discussões com o druída, que o aconselha a regressar para perto da amada, Céladon diz que prefere ser conhecido por Astrée pela falta de sua coragem, mas não pela dúvida de seu amor. O druída, dizendo que a bela menina que o tinha perdoado, insiste para o garoto voltar. Ele hesita. Mas como poderá saber se nunca tentar? Culpa da escolha de palavras, que tomou conta da ética e da moral de Céladon, que jura amor eterno a uma mulher que nunca irá possuir, pois parece negá-la. Não basta para ele ver as pernas descobertas ou o seio de Astrée ao vento. Resta então ser outra pessoa no mesmo corpo.

Neste que é o último filme de Eric Rohmer, cineasta então já convencido (aos 86 anos) de que uma imagem pode contrapor outra imagem, está então novamente centrado numa história de amor – Agente Triplo, seu filme anterior, não era, pelo menos num primeiro plano, um romance. A primeira imagem ou a primeira cena em evidência é aquela onde Céladon é visto com outra mulher por Astrée. A segunda já nos leva ao momento em que Céladon está “disfarçado” de uma ninfa (reforçado pelos traços angelicais de seu rosto) para se aproximar de Astrée, que não o reconhece. Se na primeira imagem Astrée o abomina, na segunda ela se encanta por ele, mesmo sem saber que ela na verdade é “Ele”. Num determinado momento, os dois trocam carícias um pouco devassas demais para duas mulheres, numa das cenas mais belas do filme. Ele sentindo todo o desejo de tê-la em seus braços e ela vendo naquela ninfa a própria imagem e semelhança de Céladon. O desejo de ter o outro está impregnado em ambos. Astrée, aquela altura, já sabia que Céladon não o tinha traído, pois leu inscrições por ele deixadas numa árvore onde declarava puramente sua inocência, fidelidade e amor. Fade out.

(Les amours d’Astrée et de Céladon, França, 2007) De Eric Rohmer. Com Andy Gillet, Stéphanie de Crayencour, Cécile Cassel, Véronique Reymond, Rosette, Jocelyn Quivrin, Mathilde Mosnier, Rodolphe Pauly, Serge Renko, Arthur Dupont, Priscilla Galland, Olivier Blond, Alexandre Everest, Fanny Vambacas, Caroline Blotière.

12th Sep2011

Super 8

by Pedro Henrique Gomes

 

Se muito do esforço de Hollywood para tentar revitalizar a indústria (não no sentido de formar espectadores, pois não é esta a preocupação dos empresários, mas no de vender ingressos; que são coisas absolutamente distintas) está em resgatar histórias clássicas através de refilmagens ou releituras, então Super 8, filme que J. J. Abrams dirige e Steven Spielberg produz, se enquadra em algum espaço aí no meio. Nenhum, nem outro, mas um pouco de cada. Primeiro porque Super 8 não é uma refilmagem em si, mas um pastiche. Ou seja, se utiliza de referências para se movimentar e articular, inserindo-se num espaço não totalmente novo, mas nem por isso necessariamente velho. Segundo, pois, basicamente, reduz a releitura a imagens semelhantes às de certos filmes e se constroi a partir daí, dessa experiência da cinefilia da louvação – que não é pouca. No entanto, Abrams, cinéfilo dedicado, tem dificuldade ao transformar essa atmosfera em uma produção original e autêntica, com potencial que se desenhe e se faça crer relevante dentro uma aventura possível. Ocultado pela falta de frontalidade da narrativa, o dispositivo central da história, que é o mistério do trem que descarrilha e dos acontecimentos incomuns que passam a assustar os habitantes de uma pequena cidade no interior de Ohio, nos EUA, torna-se um assunto de desinteresse, já que o mais importante passa a ser o romance entre dois jovens que presenciam o acidente, a birra que o pai da menina tem com pai do garoto, sendo que isso não produz a emoção genuína presente até mesmo dos piores filmes de Spielberg. Minimizar as situações (porque Abrams prefere espraiar nos movimentos soluções conhecidas do espectador) reduz o impacto do suspense e amplifica a jocosidade dos bons sentimentos.

Jogar para cima das crianças a responsabilidade de salvar e proteger o mundo (os EUA) revela o peso da aventura. Super 8 é claramente um filme para reverenciar suas influências, dialogar com os filmes que “marcaram época” e travar essa relação entre a homenagem e o moderno. Abrams lida bem com a perspectiva do público. Esconde o monstro até quando se torna impossível deixar de mostrar suas feições, entrelaça personagens adultos de maneira a confrontá-los, colocando-os como ameaças aos planos das crianças, filma bem a ação mecânica (a câmera não treme desnecessariamente, exceto quando precisa engendrar um efeito) e não extrapola na música, a exemplo de um filme de Steven Spielberg ou George Lucas. Tal consciência fílmica, não obstante parece sufocar o outro lado da coisa. Pois, quando é assim, o pastiche pelo pastiche, o original será sempre melhor. E é assim porque Super 8 não quer ser mais que isso (mais que um pastiche), quer ser o “filme para toda a família”, quer ser o filme do momento para aliviar o stress, o filme que comprova a permissiva questão base que guia a indústria hollywoodiana: cinema é lazer e só. É ver e pronto, a aventura acabou. Nesse contexto, é difícil pensar nele como algo maior do que um clipe de filmes antigos. Super 8 está aí para lembrar outros filmes, essa nostalgia barata, esse egocentrismo vazio.

E se Super 8 é um sintoma desse cinema explicitamente revogador de mitos antigos, porque não pensá-lo como tal? Aí, também, há esquemas facilmente desmembráveis. Se falamos de um filme-pastiche-homenagem, qual a força criativa verdadeira que esse filme pode ter se o grande foco desse olhar (Spielberg) está também pensando no filme? Não há, assim, ideias, só escolhas de cenas. Homenagem a si mesmo não é cinema de fato. O distanciamento passa a ser contraposto pela aproximação, pela parceria, mas Super 8 não tem mesmo o espírito cativante dos filmes que reverencia (E.T., Os Goonies, Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau), resgatando deles somente as temáticas. Pois tem o extraterrestre, tem a relação pai e filho calcada na obra de Spielberg, tem o olhar distópico sobre crianças e adultos, tem a paixão juvenil. Todavia, há muitos outros cineastas compilando pastiches e transbordando esse cinema de homenagens com muito mais força e sentimento, como Tarantino, Honoré (embora cada um com escolhas também questionáveis) e alguns outros – poucos. No caso de Super 8, a aventura não tem adrenalina, o drama não tem profundidade, o humor rasteja para suplantar-se pela gag da homenagem mais próxima, a moral (do filme e do diretor) é diluída assumidamente dentro de um “Spielberg, eu te amo” estridente.

A desenvoltura já é marcada, só morrerão adultos e desconhecidos, os inimigos farão as pazes, os homens se sensibilizarão com a atitude do vizinho interplanetário, somente a criança (a mente pura e distante dos males da vida) será capaz de se envolver didaticamente com o extraterrestre, compreendê-lo, mostrar o lado branco da força. Diante disso, a expectativa consiste em ver o monstro, não importa o que vai acontecer depois com ele. Após isso, não há mais nada para ser visto em Super 8 (à exceção dos créditos, que trazem as melhores cenas do filme). E o problema não é previsibilidade da trama (se é que podemos falar em trama), tampouco a secura das cenas. O mais funesto de Super 8 é que não importa se ele foi feito hoje ou se tivesse sido lançado há trinta anos, a monotonia das imagens é a única coisa que de fato prospera. Não tem mistério algum, o monstro será humanizado, estará nos seus olhos quando do contato com a criança iluminada. Ele, o extraterrestre, reconhece, como em E.T., que o homem não é de todo ruim, e só reage com violência quando é agredido violentamente. Eis a grande lógica.

(Super 8, EUA, 2011) De J. J. Abrams. Com Elle Fanning, Joel Courtney, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Ryan Lee, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Glynn Turman, David Gallagher, Ron Eldard.