13th May2012

Os Vingadores

by Pedro Henrique Gomes

 

Os Vingadores sempre pareceu ser um filme verdadeiramente bom. Até ser feito. Com os personagens realizados e corporificados pelos melhores rostos hollywoodianos, símbolos do métier, os escudos de aço do mainstream fortalecem sua criatividade. Os Vingadores, filme tão aguardado pelos mais diversos públicos, é o produto. Como um filme de efeitos e consagrador de poses que é, pois logo fica claro que é de grande interesse dos produtores fixarem uma marca (a publicidade realmente venceu), Os Vingadores transita entre o universo representável dinamicamente, que é seu componente histórico, sua base, qual seja, as HQ’s, e a glorificação de suas imagens. Imagens sem retorno, pois chegar a elas é algo como atingir o limiar entre o possível (metafisicamente) e incontornável (uma vez lá, não há caminho de volta; o mundo é aquele, os personagens são aqueles já conhecidos, basta então ressignificá-los imageticamente).

Num repente, o fascínio é permitido no nível apenas da empatia (e empatia não é um bom critério crítico, quando muito é uma teoria do gosto), o drama não tem a dubiedade, Whedon prefere a disputa de egos, de belezas, de fantasias e de poderes. O jogo é estabelecido na leitura de textos (mas sabemos que transbordar-se em referências não é cinema) e na textura própria do cinema de ação hollywoodiano contemporâneo. Aqui, o princípio é rebocar a potência com pingentes de ouro, pois há uma interação para além dos rodeios entre Stark e Hulk e entre Hulk e o resto, mas que quase sempre é levada ao fim e ao cabo pelo roteiro no intuito de solapar sua força, pois muito drama não faz bem ao blockbuster do ano – aliás, o Hulk de Mark Ruffalo é francamente o único herói em Os Vingadores.

Os heróis outros são quase todos corrompidos pelo amor, não lhes resta o ódio, a malícia. Stark e Hulk são exceções, personagens dúbios, icônicos, interessantes. O resto do time é quadrado, Mcdonald’s demais. O exemplo certeiro é o Capitão América, herói cristão-modelo (“Só existe um Deus”, diz), destruidor de nazistas, combatente, guerrilheiro, espada. Não tem medo de ninguém. O contraponto é Thor (politeísta, ou henoteísta), semideus irritadiço, cujo poder é ser do bem. Thor, poço de dislexia, sustenta pouco do peso de sua função na história: é só uma ponte entre o mal (seu irmão) e o bem (os vingadores). O verdadeiro canastrão é Stark, e não Hulk – “canastrice” não é um adjetivo facilmente atribuído a atores; personagens o são, atores não são canastrões, são apenas bons ou ruins. Mas o espetáculo mesmo é Nick Fury quem dá, ora com sua aflição heróica (suas falas são incrivelmente imbecis), ora com sua presença abstrata (no sentido de que parece não existir no espaço e no tempo). É só poeira que está de passagem, peão para balizar e coordenar a interação entre as estrelas de verdade.

A síntese da história é de conhecimento geral. Na junção do Homem de Ferro, Thor, Hulk, Capitão América, Gavião Arqueiro e a Viúva Negra, e sob comando de Nick Fury, são alguns dos heróis da Marvel que se reúnem na agência de espionagem internacional S.H.I.E.L.D. para defender a humanidade em uma guerra que envolve uma civilização extraterrestre. A trama é muito e simples: mostrar como cada um deles age, exibir a força do coletivo, saturar a imagem de cada um, desdramatizá-los e humanizá-los somente. A tática funciona (todo mundo entende como Os Vingadores acabará antes dos dez primeiros minutos, mas a antecipação dos fatos não é em si um problema), afinal, eles vencem.

O olhar quase sempre prioriza a lógica interna das relações, não resta exterioridade, não salta da tela a força comum aos piores cinemas (geograficamente falando) dos anos 1980. Aquela ideia de cinema, em toda sua cafajestice, não era tal como se apresentam estas bonecas de pano que dormem em seus castelos de areia disfarçados de fortalezas. Nossos heróis não são mais os mesmos. No cinema de heróis contemporâneo as palavras estão morrendo, estão ficando os diálogos robotizados, as estruturas dramáticas às avessas, os momentos eletrificados de ação, a convulsão esquecida pelos espaços inabitáveis. Se revoluções perdem sentido quando despolitizadas, filmes agonizam quando banalizados por suas próprias lógicas narrativas. Neste caso, Os Vingadores é grosseiramente destituído de qualquer essência corpórea, é tudo vapor, medida de digestão para agradar e amortizar um dia inteiro de trabalho – no calor e na paixão que só o cinema proporciona. O problema, então, não é precisamente semântico, mas identitário (talvez seja necessário reforçar este ponto). Os gênios não são mais gênios. Embora seja muito cedo para uma declaração de falência, ser nerd perdeu aquilo que lhe era tão caro e charmoso: a crueldade.

(The Avengers, EUA, 2012) De Joss Whedon. Com Chris Evans, Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jeremy Renner, Stellan Skarsgård, Cobie Smulders, Gwyneth Paltrow, Tom Hiddleston.

05th Aug2011

Capitão América: O Primeiro Vingador

by Pedro Henrique Gomes

Porque depois da  fragilidade vem a força

O que será que faz de Capitão América – o último filme de Joe Johnston e o último herói da Marvel a ganhar um filme solo antes de Os Vingadores – um calabouço de misérias criativas, que abarca uma construção narrativa constantemente vacilante, calcada em amuletos que, para toda sorte e efeito, vangloriam a si próprios antes mesmo de reconhecer em si uma legitimidade possível. Eis o enigma, facilmente decifrado. Porque, a bem dizer, não existem personagens dispostos ao equívoco, ao tropeço (é tudo joguete, tudo função-fim), eles somente resvalam diante de certas adversidades, mas na próxima sequência já fazem as pazes com seus amigos e amores. Basicamente, os atores só leem textos em frente às câmeras, não há comprometimento algum com a fala, sentimento algum se deixa transparecer. O universo de Capitão América, anêmico como o personagem-título e inteligente como ele, se permite ser consumido por seus próprios caprichos relaxados, se esgotando já na concepção. Aliás, não pode existir um filme livre que realmente faça valer sua voz quando ele é carregado de interconexões com outros filmes e de obrigações para com um determinado público. Não há nem a expectativa pelo golpe final, nem o estado de suspensão proporcionado pelo prazer fílmico, tampouco uma agilidade rítmica mais consistente. Filme sem sentimento ou sensação difundida, afunda-se no ócio.

Velha história, essa nossa conhecida: uma cena é desculpa para a outra, erigidas apenas para demonstrar sua função de engenho, na esperança de que o espectador se curve diante de sua comiseração barata e irrelevante; diálogos talhados a frases-efeito; cortes dilacerantes dão o ritmo da aventura. Essa é proposta. Essa é a maquinaria necessária para implantar a tão exigida atmosfera. No fim, trata-se de um cinema que não invoca nada, não polui, não retrabalha, não interfere na ação, não questiona (só glamouriza) – prefere a beleza pura do pós-modernismo de um Christopher Nolan (o Nolan esteta de A Origem, não o vigoroso estreante de Following) a devassidão irreverente de um Sam Raimi (aquele da trilogia Evil Dead). Aqui, tudo gira em função de caricaturar, de tornar as imagens mais publicitárias possíveis, como a própria história que originou o filme, escrita com propósitos de propaganda, para estimular a vontade do exército, dar-lhes tesão, exatamente como o efeito de um Viagra no contemporâneo. Nesse contexto, verificamos o desleixo. O drama romântico é bobo, e Johnston não filma nada que possa fortalecer essa relação, ele deixa a câmera filmar sozinha – é abrir e pronto, o que está aí já basta.

A história é a do herói franzino, sedento pela guerra, mas que, por debilidades físicas, não consegue ser convocado para combater os alemães durante a Segunda Guerra Mundial após uma série de tentativas (com diversas identidades falsas). Steve Rogers é típico jovem que almeja conquistar uma posição de destaque na sociedade, perder a virgindade com a garota especial. As chances do menino dotado de grande bondade de realizar seu sonho se concretizam quando ele conhece o Dr. Abraham Erskine, que o convida para ser a cobaia de um projeto científico meticuloso que promete mudar sua condição física. De fato, após a transformação, o esquelético e fraco Rogers logo potencializa seu corpo, tornando-se, enfim, o Capitão América. Agora, quase indestrutível, corporificado em músculos, Steve vai enfrentar os nazistas coordenados por Hitler e, mais diretamente, o exército liderado pelo Caveira Vermelha (seu único semelhante), agora seu inimigo mortal. Além de tudo, o novo “herói do mundo” agora poderá sair com Peggy Carter, a mulher “certa”.

Mas como reconhecer e dar fé a um cinema que só distribui devoção, seja face a imagem da bandeira dos Estados Unidos (o escudo metaforiza o brio dos americanos de lá; eles têm a força, são indestrutíveis) ou ao culto ao herói, tão caro é o sonho americano para o próprio cinema estadunidense, e que jamais aplica a audácia das grandes aventuras em suas imagens? Literalmente, o Capitão América não empolga. Como validar as artimanhas desse procedimento (não se pode falar em método, pois este pede um esforço criativo do qual Joe Johnston não parece disposto a realizar) que renuncia os melhores prazeres dos filmes de aventura, aqueles sentidos na quadrilogia Indiana Jones, e, para não ficar numa evocação injusta e trazer a um período mais recente, em Hellboy, para abraçar as fórmulas etéreas do mainstream sem distorcê-las um bocado, sem deixar de venerar seus rituais e fundamentos mais básicos. Mas falamos de um filme viciado em sua própria imagem, cego de sua condição, dotado de uma encenação saturada, brochante. Sutilmente, pode-se dizer que, se os filmes de heróis tornaram-se meros rascunhos de um conjunto estético específico, então que se resolvam, sobretudo, seus problemas de estrutura, de dramaturgia e de sinergia. Irredutivelmente, nos resta contestar esta forma de arte tão improdutiva.

Pois o que norteia esses filmes anteriormente citados, igualmente criados e projetados para um grande público, é justa e especialmente um espírito desregrado, incoerente, teimoso. Capitão América (o filme e o personagem), é disposto de uma veleidade (em relação ao fazer, é submisso, padrão) permeada por um anacronismo-fantasia (na ação do filme, o passado é futurista) pouco útil à fluência narrativa, porque não encontra uma ação verdadeiramente impactante que permita o envolvimento do público para além daquele contentamento com qualquer coisa que aconteça na tela, desde que com efeitos de “encher os olhos”. Ou seja, as coisas simplesmente acontecem sem que percebamos sua graciosidade e tensão. Nem mesmo entre aqueles que defendem o “entretenimento” (uma palavra muito banalizada, aliás) como função primordial do cinema, é preciso, antes de tudo, ter consciência de que, mesmo para entreter, é preciso inteligência – nestes tempos tão castigados por imagens boçais e maturadas, um tanto mais. Mas o filme de Joe Johnston é aquela velha crônica da pós-fragilidade quando do conhecimento da força própria.

(Captain America – The First Avenger, EUA, 2011) De Joe Johnston. Com Chris Evans, Hugo Weaving, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Dominic Cooper, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Richard Armitage, Toby Jones.