02nd Mar2012

A Dama de Ferro

by Pedro Henrique Gomes

A Dama de Ferro é uma inversão da ordem das coisas. É a história abreviada da vida e da carreira política de Margaret Thatcher, a primeira e única mulher até hoje a ser eleita primeira ministra da Grã-Bretanha. Entre a presente reclusão (Thatcher foi ”recomendada” a não deixar sua casa) devido a problemas relativos à sua consciência mental, que por anos castigou aqueles que pensavam diferente de seu ultraconservadorismo. Vive isolada, delirando com o marido falecido e pensando no preço do leite que inflacionou. Como uma narrativa a um só tempo apressada e medida (há algumas cenas boas no filme) a propensão do drama tende a arrefecer, a se desmembrar diante de uma câmera (e notavelmente um texto) preocupado antes em devolver uma imagem (a própria Margaret Thatcher) ao público, ao “retratar” a persona, humanizá-la, através de uma paixão desmesurada pela interprete.

Pois notem que a figura mais notável no filme se perde no limiar que deveria separar a dilatação da biografada e do corpo que a preenche na tela. É Meryl Streep que vemos, não Thatcher. A tensão que emana dos diálogos não dá pulsão a uma trama e a um registro muito além do falso. A diferença entre aquilo que é filmado para com aquilo que se espera retirar em matéria bruta é desigual: a grande calamidade que A Dama de Ferro poderia mostrar é escamoteada, substituída por uma espécie de prosa do desencanto, em que a armadura da protagonista é ser satisfeita com uma corporificação perfeita, que é sempre um artifício prosaico, esse mito da perfeição. O cinema não é um meio de dignificar pessoas que fizeram coisas ruins, mas de mostrá-las ao mundo tais como são, com a menor quantidade de filtros possíveis.

Esse corpo dolorido que se afasta da câmera entrega seus pontos quando a senilidade vence. A maior meritocracia (difícil falar em mérito) de A Dama de Ferro consiste na possibilidade de ele ser um filme francamente alienado. O filme que se pretende político, ou mesmo que pretende biografar uma personagem da história política mundial tão arraigada no poder (foram, afinal, 11 anos), não poderia esquecer-se de falar de política com uma voz efetiva, mais coerente do que aquilo que se espera de um anúncio de shampoo. Ora, não foram tão somente cortes, privatizações e desemprego que o governo Thatcher trouxe para a Grã-Bretanha, e não é caso, por outro lado, de exigir do filme uma demonstração abastada dos fatos, mas sim é obrigação da cineasta complexificar aquilo que mostra e pretende sugerir com tamanha seriedade. O timbre de Phyllida Loyd não cola mais. O desmanche da imagem que projetamos, seja a da personalidade que fora Thatcher e da personagem que lhe deu vida na tela, não sobrevive a dramaturgia de uma encenação nem do teatro filmado que é.

O que importava na política de Thatcher (sempre os de cima, os que têm poder) não era nunca o pequeno produtor, a mão de obra, e o que importa ao filme jamais se distancia também dessa crença torta de que uma imagem (e uma imagem apenas) pode dar conta de remediar um conjunto de problemas. Uma atriz não salva um filme e um filme não é um dado do mundo, mas antes uma percepção que se faz dele. Todavia, um pedaço de resistência que parece sobreviver em meio aos escombros de A Dama de Ferro é justamente aquilo que não é o filme, que não é encenado, não é a ficção em si, mas foi incorporado ao discurso. São as cenas das revoltas civis, os ataques repressivos da polícia às manifestações dos sindicatos (a gosto da então Ministra). As imagens de arquivo que entremeiam as cenas bem demonstram quem foi Margaret Thatcher – o que não serve como elogio, mas como ressalva: a força do filme é a memória fatídica. Incorporar tais imagens ao discurso de fato enriquece a percepção, mas também desloca a retórica do texto: entender Thatcher como um ser humano (falível como todos os outros) não significa mais que assumir uma inocência assustadora em relação aos fatos políticos perpetrados no tecido social. O que fica é a superfície e o artifício.

Personagens carregam traços que são delineados conscientemente, ao contrário da pessoa pública real, que simplesmente o é. Não há dúvida de que a verdadeira ex-primeira ministra possuía crenças baseadas em sentimentos e proposições verdadeiras em relação aquilo em que acreditava, mesmo que, a rigor, quase tudo se mostrasse infundado mesmo a curto prazo (ela mesma viu seu governo ruir). A grande dificuldade em articular e sustentar essa dialética entre o que é passível de ser mostrado em um filme e o que provavelmente deveria ser descartado foi o que faltou em A Dama de Ferro, um filme que fala demais e se esquece de falar ao mesmo tempo. O leite que inflaciona, para espanto da ex-primeira ministra (num momento em que foge as regras e sai de casa para ir ao mercado), é sintomático ao definir a construção da personagem, pois procura elucidar toda a ideia política e a teoria ficcional do filme. Em uma concepção menos apolítica, e, portanto, mais politizada, A Dama de Ferro bem que poderia abrir mão de algumas ideias (a velha narrativa de ascensão e queda de uma personagem filmada no estilo “louvado seja”) e implantar outras (a bem dizer, a robustez que a própria biografada exige, bem como o tema em si). Por isso é que A Dama de Ferro é apenas um castelo de areia.

(Iron Lady, UK, 2011) De Phyllida Lloyd. Com Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Susan Brown.