02nd Dec2012

A Parte dos Anjos

by Pedro Henrique Gomes

Ken Loach conhece os atalhos. Porque fazer um filme político não é assumir um discurso, mas sê-lo, e ser assim não é ser diferente do outro, mas próximo a ele. Rir com ele. A política trata da convivência entre diferentes, nos dizeres de Hannah Arendt, pois justamente está ancorada na pluralidade dos homens. O mundo é outro, os personagens são outros, embora não menores que antes, não menos representativos de uma determinada condição social. Isto é, A Parte dos Anjos tem um tom sociológico. Pois está lá a crise econômica, a questão religiosa, a necessidade de emancipar-se, a perspectiva de viver não como lhe mandam, mas como você quer viver – sem ceder ao sentimentalismo bobinho e desproporcional em relação à própria espessura dramática da sociedade européia média. Estão lá ora através de sutilezas, ora com verborragia. Se a ideia era uma comédia de situações (não de costumes) acompanhada de um peso dramático inseparável do contexto real daqueles personagens e daquele mundo, eis que temos a fórmula da equação. Esse é o estatuto da imagem de Loach: realizar a dobra do corpo, enxugar a doença de si, abraçar o impossível sem curvar-se diante da sua própria ideia de impossibilidade.

Até porque A Parte dos Anjos é uma comédia sem piadas, onde a condição do riso escapa a sua própria caracterização humana: a piada está condicionada ao seu reflexo social. Com isso, no entanto, não há necessariamente uma politização do humor a ponto de podermos dizer que se trata de uma comédia política (uma rotulação bastante vaga), o que não pode haver é, ao contrário, a sua despolitização. O riso não é um gênero menor incapaz de articular um discurso político, mas ele o faz com a consciência de que isso deve permear a história, não moldá-la. É por isso que Loach e toda a envergadura de sua câmera radicalizam a imagem e o riso por dentro, com a possibilidade do real fazendo apenas pano de fundo à necessidade da ficção. A graça do filme está plenamente em sua falta de bom humor na medida exata em que temos o estopim de uma forma de riso: o riso dos loucos (o bom humor é aquilo que é socialmente aceitável, o que em Loach é mais um amor pela revolta do que uma ode às banalidades cômicas). Sem emprego, marginalizados e sem perspectiva alguma num futuro próximo, um grupo de jovens que escapa da prisão com a realização de serviços comunitários como meio de pagarem por suas infrações, conhece Harry (John Henshaw), supervisor dos serviços. Com Harry, eles viajam para destilarias escocesas e lá conhecem uma possibilidade de resistência.

Harry se oferece para ajudar Robbie (Paul Brannigan), que logo assume o protagonismo da ação, não consegue desvencilhar-se do seu passado, que é histórico/sociológico, pois precede sua própria existência – a rivalidade dele com uma gangue foi herdada do pai. Ao mesmo tempo em que sua esposa coloca seu herdeiro no mundo e se preocupa com a possibilidade do filho acabar dando continuidade à rixa que acompanha as gerações, ele é espancado pelos tios da menina, que exigem que ele se afaste dela. O impacto desse peso histórico prejudica sua vida, que definha diante da crueza das relações e não se perde diante da necessidade de inserir os antagonismos que compõem o tecido social britânico: A Parte dos Anjos é um filme sobre desajeitados, e os constroi um pouco desajeitadamente. Mas a potência reside claramente naquilo que ele abraça. Do rico ao pobre, todos flertam com a ilegalidade ou no mínimo aproveitam-se de suas consequências. Mesmo que os personagens resultem profundamente inacabados, pois são sintomas de sua intimidade mais comercial possível, não poderia haver outra forma de mostrar esse submundo sem roubar-lhes a sensibilidade – algo como um grupo de corpos (vivos) no necrotério que não existem para além de si mesmos. Não importa o que aconteça, o mundo é assim, resta driblá-lo. Os anjos que se fodam.

Mas Loach filma cada sequência com a gramatura que as imagens pedem. Quando o que explode na tela é uma agressão, a câmera toma corpo e vira personagem, aproxima-se da experiência real e do sangue, quando a tensão é latente, a mise en scène mostra sua força e corporifica a ação. Muito mais através da própria estética do que por qualquer presunção de um discurso político satisfeito com o mundo, logo fica claro que a tal parte da bebida que evapora, em verdade, não pertence aos anjos, mas aos demônios sociais, isto é, a Robbie e os demais delinquentes. Eis a grande estratégia de Loach, fazer com que a metáfora do uísque e toda a brincadeira que faz parte da viagem não seja mais que a consciência de condições sociais caras à Europa contemporânea.

Se o capitalismo (e sua crise) é também um tema no filme, o é especialmente porque faz parte do jogo estético-político enquadrado. Roubar o uísque mais caro do mundo para vendê-lo a um colecionador seria a síntese da mercantilização de nossa existência não fosse, antes, questão de sobrevivência. E se ainda podemos pensar em um cinema que, mesmo com algumas dificuldades, consegue se manter conectado com sua realidade externa sem confundir a política com sua caricatura, então estamos falando de coisas sérias.

(The Angel’a Share, Reino Unido) De Ken Loach. Com Paul Brannigan, John Henshaw, Gary Maitland, Jasmin Riggins, William Ruane, Roger Allam, Siobhan Reill, Chooye Bay, Paul Birchard, James Casey, Roderick Cowie, Paul Donnelly, Scott Dymond, Nick Farr, David Goodall, David Graham.

Publicado originalmente em Papo de Cinema.

27th Feb2012

A Invenção de Hugo Cabret

by Pedro Henrique Gomes

Intrinsecamente, todo filme é uma homenagem ao cinema. Ao mesmo tempo, poucos tomam isso como tema, conectando a isso uma história paralela. A Invenção de Hugo Cabret é antes a história de algumas paixões, que por acaso dedicam-se ao imaginário cinematográfico. O novo filme de Martin Scorsese criou para si essa dificuldade de representação no instante mesmo da concepção da ideia de filmar. Em parte, pois, “homenagear o cinema” é muitas vezes uma tarefa de reencenação, de reinterpretação dos signos e das coisas que os significam (os próprios filmes e o próprio meio), o que representa uma força motriz perigosa pelo peso que é mexer com o tal imaginário coletivo (embora Hugo Cabret verse antes sobre a História do cinema). Se o subúrbio nova-iorquino já foi tema incansável em seus filmes anteriores (tão autobiográfico quanto esse filme último), aqui o clima de brinquedo da Paris dos anos 1930 toma conta da estrutura. Sai de cena o sexo, as drogas, a violência, o submundo dos jogos e o sangue rasgando a tela de filmes como Caminhos Perigosos, Táxi Driver e Os Bons Companheiros para ceder espaço a alegoria de uma drama infantil pinçado através da perspectiva adolescente de aventura e desejo.

Acompanhamos a história de Hugo (Asa Butterfield), menino órfão que vive clandestinamente entre as paredes de uma estação de trem em Paris, consertando e dando pulsão aos relógios do local. Para sobreviver, realiza alguns furtos. Hugo perdeu o pai (Jude Law), um relojoeiro, tragicamente, num incêndio. Com ele aprendeu a consertar coisas. Uma dessas coisas foi um autômato que seu pai encontrou certa vez abandonado num museu, e o qual herdou. Sem saber, Hugo fez alguns roubos na loja de quinquilharias de um velho mágico para poder reconstruir o autômato, que, para funcionar, necessitava de alguns reparos. O solitário era Georges Meliès (Ben Kingsley), o que Hugo viria saber um pouco depois. Ao reconhecer o talento do jovem intrépido, Meliès o convida para trabalhar em sua loja consertando coisas defeituosas como forma de pagamento a tudo que ele lhe havia furtado sorrateiramente. Lá ele conhece Isabelle (Chloë Grace Moretz), neta de Meliès, com quem desenvolve uma amizade importante para se reconhecer naquele ambiente.

Se a aventura dos jovens é clandestina, assim também o é a narrativa. Não existe um conflito puramente dramático que se sobreponha as funções tácitas do roteiro, e é também verdade que o filme deixa-se impregnar pela profusão natural de alguns clichês, mas não há uma crise latente entre os personagens, que é o maior de todos os clichês – e se há alguma, ela é antes drama de cada personagem que um conflito narrativo dedicado a dramatizá-los como um corpo só. O próprio policial interpretado por Sacha Baron Cohen passa o filme inteiro em busca do sorriso perfeito, que é uma maneira de encenar, ao mesmo tempo em que convive com as agruras do passado talhadas no próprio corpo; Hugo quer terminar o trabalho de seu pai dando movimento às máquinas, mexendo com os brinquedos que contam o tempo; Isabelle quer viver uma aventura; Meliès precisa reaprender a ver o mundo, olhar para o passado; o livreiro Monsieur Labisse quer olhar para o futuro ao passar adiante seus livros; o crítico e pesquisador Rene Tabard quer conjugar essa paixão mágica do passado com a instância acalentadora da memória que se dá no presente. No início, os conflitos de cada um se estabelecem compactuando a priori apenas as diferenças, sendo aos poucos construída a teia de relações que coloca todos como parte da matéria causal da trama. A Invenção de Hugo Cabret é um filme adulto.

Scorsese revive a ancestralidade do cinema e da feitura dos filmes de Meliès perseverando com uma representação que não cede espaço a excessos senão aqueles inerentes a sua própria beleza – não há uma apreensão desmesurada por cena alguma, todas respeitam uma unidade temporal coerente com o próprio ritmo do filme, que de fato conjuga a aventura infantil com o olhar do mais velho. Voltar o olhar não é o mesmo que tentar revivê-lo matrimonial e copiosamente, como é o caso de O Artista, mas antes reencontrar nesse retorno nostálgico a potência para seguir adiante com um cinema contemporâneo, modelando novos espaços e vislumbrando outras maneiras de mostrar as coisas. A Invenção de Hugo Cabret inflige positivamente no cinema de agora contiguidades que ainda estaremos a ver florescer no futuro. Se a roupagem moderna do passado que é impregnada ao filme funciona como um alívio no teor dramático, não raro a fotografia se deixa transformar pegando pesado na ambiência: entre um passeio noturno e um dia ensolarado e vívido oscila as preambulações dos jovens aventureiros. Um filme maduro de um cineasta amadurecido, e por isso um filme que não é simplesmente apaixonado por seu romantismo, mas sim, em essência, verdadeiramente romântico.

(Hugo, EUA, 2011) De Martin Scorsese. Com Asa Butterfield, Ben Kingsley, Jude Law, Sacha Baron Cohen, Chloë Grace Moretz, Emily Mortimer, Christopher Lee, Ray Winstone, Michael Stuhlbarg.