15th Aug2013

Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes

by Pedro Henrique Gomes

seteondas

Há de se aventar que, entre a possibilidade de um registro e a aventura de sua captura, muitas sutilezas atravessam o dispositivo, da técnica a forma resultante do processo. Nesse sentido, é saudável recordar Bresson: “Estilo: tudo que não é a técnica”. Daí parece prudente observar que, nessa busca, o filme de Bruno Polidoro e Cacá Nazário sobre Caio Fernando Abreu não se limita a “construção do personagem”, mas prefere pontuar sua narrativa com todo um mosaico de subjetividades provenientes do fluxo da própria prosa do poeta, conjunto de dramas e potências “infernais”, marcadamente exprimidas através de uma narrativa da solitude – bem mais que da solidão. Isto é, praticamente inexistentes, os depoimentos em terceira pessoa (“Caio Fernando era isso”, “Caio Fernando fazia aquilo”, “Caio Fernando gostava daquele outro”) são preteridos em relação às leituras de textos do autor. Os entrevistados não falam (ou falam pouco), mas performatizam, estejam onde estiveram. Em alguns lugares pelos quais o escritor passou, é por aí que o filme vai acontecer.

Não é a questão, para os realizadores, explicar Caio Fernando Abreu, narrar o inenarrável, problematizar o irreconciliável. O lance é escapar da fruição bárbara da formalidade. Não que exista radicalismo na forma (não existe), mas, no limite, não há apreensão aos recursos de sempre. Ora, Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes não é, na verdade, sobre Caio Fernando Abreu, mas a partir dele, ou, ainda mais, a partir de algo dele. Colocar as coisas assim, se afastando para se aproximar, é pelo menos um tanto corajoso, pois não importa se hoje existe uma exploração capitalizante de toda e qualquer palavra do autor exposta em contextos quaisquer nas “novas mídias”, pois a poesia é sempre uma forma de resistência contra os poetas (capitalizante menos no sentido de um sistema de acumulação que tenta se apropriar da produção e mais no que diz respeito à própria reutilização dessa produção).

A equação é difícil de resolver, mas se por um lado a opção pela leitura in loco contribui para que possamos pensar o autor por dentro, na iminência do discurso, na ética (opa!) das palavras, todavia ela desmistifica a necessidade de inúmeras sequências de textos que permeiam a narrativa e que reforçam o dito, estendendo a palavra até o limite de suas significações sob o risco de perdê-las em função da mesma adesão apressada que a Internet, muitas vezes, se dá o luxo de abraçar. Não é, por isso, o mesmo que dizer que as coisas foram vulgarizadas, pois isso seria aderir ao pensamento conservador que visa defender a manutenção do poder de certa “elite cultural” através da captura das subjetivadas partilhadas pela massa. Mas, de antemão notamos, não existem curvas sem espinhos.

Não raro, as leituras feitas por personagens diversos, entre os quais Luciano Alabarse, Adriana Calcanhoto e Maria Adelaide Amaral, além de outras pessoas que foram próximas ao escritor ou mesmo que apenas o conhecem de seus escritos, são sintomáticas na explicitação do quanto as próprias palavras faladas potencializam o discurso poético do filme. O quanto há de organicidade e vigor na obra de Polidoro e Nazário nasce destes momentos, de leituras que sugerem, nestes espaços, um peso na construção dessa poesia, peso imanente ao conteúdo de Caio, sendo inescapável, portanto, essa sensação de “alegre fim de mundo”. Os realizadores evidentemente fazem uso desse ritmo, em suas pausas e em suas passagens mais correntes, jogam com ele, permitem que a voz engasgue. Manipulam. Mas sabemos desde sempre que a manipulação é intrínseca ao cinema e a produção de imagens e, se nos lembrarmos de Jacques Aumont, partiremos não mais de limites dogmáticos e princípios soltos: todo filme é um filme de ficção.

(Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, Brasil, 2013) De Bruno Polidoro e Cacá Nazário. Com Adriana Calcanhoto, Caio Fernando Abreu (arquivo), Luciano Alabarse, Marcos Breda, Maria Adelaide Amaral, Sandra La Porta.

Publicado originalmente em Papo de Cinema.

28th Jul2013

O Fantasma

by Pedro Henrique Gomes

89CDzO38md90uUZRxKZ3D5bDsYV

Sergio (Ricardo Meneses) trabalha como gari noturno em Lisboa. Entre uma e outra noite de trabalho, se aventura pelas ruas da capital portuguesa na tentativa de saciar seus desejos sexuais. São vários seus encontros furtivos na penumbra, nos escombros. Um policial, um outro qualquer, um sonho, um homem que encontra na piscina, a relação de certo estranhamento que mantém com Fátima (Beatriz Torcato), pois ela o quer, mas ele logo a afasta. Sergio opera sempre nos extremos do desejo, deixa seu corpo dar vazão a uma criatura lancinante, insistente, movido pela coisa do impulso, instinto animal. Quer, chegando mais longe, aquilo que o repele (um homem heterossexual). De certa forma, ao fim e ao cabo ele consegue, embora não o tenha conquistado, mas sim vencido à força a resistência do corpo estranho que tanto procura para poder tocar e ter para si. É em torno de uma possessão que O Fantasma, primeiro longa-metragem de João Pedro Rodrigues, apresenta esse personagem peculiar.

Percorrendo errante as ruelas de Lisboa, Sergio é um personagem típico do olhar contemporâneo sobre a subjetividade dos desejos que circulam a biologia da espécie. Há um descontrole na pulsão, instinto animalesco contra o qual se pode resistir ou se deixar levar. Sergio faz parte de certa juventude irreconciliável com a razão (ou seja, explora os limites do cognoscível sabendo, de antemão, que vai além dele, em algum momento irá romper o cordão de segurança), destruidora das consequências, do “instante imediato”. É neste sentido que ele se aventura pela noite da cidade, escondido e disfarçado tal qual um fantasma, neutro em meio à multidão de ruídos e de pessoas estranhas. As ruas lhe parecem labirintos perigosos, mesmo diante da presença de apenas alguns populares.

Embora tenha notadamente plena consciência da força que emana de suas ideias relativas à fruição do corpo e do desejo, O Fantasma não permite a insurgência de uma complexidade do próprio personagem enquanto transpiração de angústias e cóleras do humano. Parece que todo o drama possível (e passível) é algo que precisa ser arrancado no músculo, sem qualquer mediação mais sutil da câmera (e seus movimentos) e das imagens que ela capta e constroi plano a plano. O que há, ao contrário, é a ficção de algo que escapa à urgência da narrativa em sua ânsia por uma explicitação de tensões psicológicas que não estão lá.

Os momentos mais interessantes do filme são justamente aqueles nos quais Sergio não está correndo atrás das coisas. Ora, a relação que mantém com Fátima é, no limite, bruta e singela – é ela, afinal, que vai até ele. Entre uma brincadeira e outra, João Pedro Rodrigues sugere o encontro sexual entre os dois, até que, como se nada mais interessasse, vemos apenas os dois na manhã seguinte, se vestindo, mal se olhando. Enquanto ela quer o sexo, ele a intimida ora com certa violência, ora com alguma esperança que aflora espontaneamente de seu olhar, como se fosse de fato beijar e consumar a transa. O enigma de Sergio, no entanto, que é um enigma a ele próprio (pois ele se conhece tanto quanto nós o conhecemos), vai continuar existindo em seu semblante.

O fantasma, após muito percorrer alguns caminhos espinhosos em sua busca incurável por uma pulsão sexual vibrante e violenta, passa a viver lá onde dormem as coisas que fazem parte do seu trabalho, no depósito de lixo. Se a impossibilidade de alimentar um desejo é ela mesma o impulso para tentar saciá-lo, a Sergio resta seguir buscando, não sem certo exagero, esse corpo que é seu objetivo. Em sintonia com o que sempre lhe garantiu força para resistir, ali talvez ele seja de fato dono de si mesmo.

(O Fantasma, Portugal, 2000) De João Pedro Rodrigues. Com Ricardo Meneses, Beatriz Torcato, Andre Barbosa, Eurico Vieira, Jorge Almeida, Salomão, Joaquim Oliveira, Florindo Lourenço, Rodrigo Garin, Luis Zorro, Maria Paola Porru, João Rui Guerra da Mata.

22nd Jul2013

Aquele Querido Mês de Agosto

by Pedro Henrique Gomes

aquelequeridomes

Aquele Querido Mês de Agosto é a síntese de uma comunhão. Cinema que nasce de uma partilha de experiências e de intenso envolvimento estético e emocional com os objetos, com a natureza, com os viajantes, com a câmera, com o texto, com a música, mas que é sobretudo contaminado por uma alegria de filmar. Não há mais a ideia de fronteira entre o real e sua representação, entre o francamente encenado (a “ficção”) e aquilo que é capturado na sua “essência pura”. Toda trama do filme se configura através de sua verdade, sem oposições formais lá onde elas não existem, mas que tem uma artificialidade assumida e potente. Tudo corresponde à lógica interna da ação e da reflexão que os próprios envolvidos no filme realizam durante a produção. A feitura do filme aparece no mesmo instante em que ele já é filme, já está na tela, quando passa a existir no mundo das subjetividades, conectando o desejo de filmar com a discussão em torno de como filmar, quem filmar; quais personagens, quais imagens e quais sons.

Pois neste que é o segundo longa de Miguel Gomes há sempre a chance de tentar de novo, de olhar de novo. É menos interessante meramente registrar o mundo a partir de uma busca por sua pureza do que fazer matilha com ele, confundir-se com ele, namorar e brigar, cantar e cantar. A questão é jogar com a dança dos corpos, o livre trânsito dos personagens, participar da disputa entre o “espírito sonoro ideal” e a construção de uma história que brinca francamente com os códigos narrativos convencionais. São tantas as manifestações “filmadas”, signos de ideias de transitoriedade, fluxos correntes das mais diversas “gentes”, dos populares festejando a união política da vida.

Fazer um filme é sempre um ato político enquanto união de ideias e formas, e entre a participação da própria equipe do filme, que aparece várias vezes discutindo questões relacionadas à produção, a técnica ou mesmo em momentos de descontração (não há cena mais política que aquela em que a equipe do filme aparece jogando malho e ignora completamente as investidas de duas meninas que querem atuar no filme – não vemos, mas eles vencem o jogo), um cinema vibrante joga junto de uma simplicidade técnica pensada justamente para não ser mais que um contorno de uma fruição narrativa maior, e nisso seu cinema tem ecos de Straub e Huillet, por exemplo. Ao longo do filme, das descobertas entre os personagens, uma história mais encenada toma corpo. Tânia (Sónia Bandeira) e Hélder (Fábio Oliveira), primos que tocam juntos com pai dela numa banda chamada Estrelas do Alva, mantêm uma relação entre fronteiras: a da amizade e da paixão carnal. Essa história que surge meio de susto é bem como as coisas são: casuais, quase anti-cinematográficas.

Tânia e Hélder são personagens sintomáticos da possibilidade de narrar o cotidiano das pessoas comuns, das histórias que guardam o calor das miudezas, do banho de rio, da música que, aqui mais do que nunca, preenche o filme. Lá mesmo onde dorme a ingenuidade e a inocência tão caras a cada momento da vida em sua isonomia, a juventude emana desse “delírio consciente” de desejar, esse ato constante que a gente não controla, da força da brincadeira com o possível e de muitas vezes não saber bem o que se quer – mas só se quer. Ora, o tumulto faz parte da alegoria dos corpos.

Mas Aquele Querido Mês de Agosto opera não mais na “dialética dos sonhos e das ficções” de A Cara que Mereces, filme anterior de Miguel Gomes cuja fruição tem um diálogo aberto com o sonho que é o cinema e de como histórias contam outras histórias a partir da mesma estrutura. No entanto, tanto em A Cara que Mereces quanto em Tabu, fica clara a importância do papel do narrador (precisamente através da voz em off) na obra do cineasta, o que, aqui, ocorre com o próprio Miguel, na frente da câmera, contando como pretende usar os personagens, quem serão eles, discutindo suas intenções. Mas em Aquele Querido Mês de Agosto o narrador é sempre parte do “mundo real” e da representação, como um curinga, como um nômade que transita entre os níveis, tal qual o dualismo platônico desliza entre o mundo das ideias e o dos sentidos. É radicalização, negação de qualquer dificuldade imposta ao espectador, pela clareza narrativa, pela liberdade dos personagens gritarem de improviso, se moverem entre aquilo que importa: a dança, a conversa, o sexo, o barulho, a confusão, o vazio que fica na partida. Mas não estamos falando de um filme de luto, ao contrário, trata-se de um sopro de vida.

No plano final de Tânia, entre o sorriso que logo se enreda com o choro persiste a dor irreparável da partida, mas o gozo destruidor “daquilo que não foi” é superado pelo sentido dos acontecimentos mais simples, pela importância de um ritmo qualquer, de uma dança qualquer, daquele sexo apressado, de uma vida que vai e que volta incansável e intensamente. O mesmo acontece na discussão entre o diretor e o responsável pelo som do filme. Miguel diz que estavam aparecendo coisas que não estavam lá, ruídos sonoros que não existem (na natureza das coisas), apenas nos ouvidos do responsável por sua captação, Vasco Pimentel. O engraçado é que, enquanto o diretor tenta argumentar com Vasco, ouvimos a música ao fundo. Esses vazios que preenchem as coisas, mas são eles mesmos vultos subjetivos delas, estão na assimilação que cada um faz a partir do contato com o mundo dos sentidos e das formas. Ao fim e ao cabo, aquele sorriso dramático de Tânia não quer ser uma declaração definidora de coisa alguma. Ele apenas é a resposta de uma força ingovernável criada nas trevas das histórias.

(Aquele Querido Mês de Agosto, Portugal, 2008) De Miguel Gomes. Com Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Manuel Soares.

Publicado originalmente em Zinematógrafo.

15th Apr2013

Vocês Ainda Não Viram Nada!

by Pedro Henrique Gomes

Nem o céu, nem o inferno. As imagens que abrem e que encerram Vocês Ainda não Viram Nada! são frutos de uma visão filosófica e artisticamente madura. Reflexo de uma compreensão não esquemática da relação entre a espécie e seu corpo, suas funções, desejos e necessidades animais. Coisa de quem sabe ver e explorar a potencialidade carnívora das transpirações estéticas e imaginárias da arte e da vida. Longe, também, das ideias meramente comoventes sobre a escalada dessa vida e a aproximação do fim do mundo, pois quando o filme deixa no ar a ideia de que toda morte é sempre um fim dos tempos e o nascimento de outro, está conectando a isso toda uma afirmação da consciência, de entendimento e aceitação da morte emocionalmente, acima da razão – mas com ela junto.

Não há a necessidade de infiltrar os anjos entre nós, basta-nos a consciência de uma coletividade que supere as materialidades e avance no destino dos espíritos: nós mesmos que podemos fazer história, deixar um rastro, seguir vivendo. Nós que transitamos meio perdidos e atordoados nos asfaltos e nas marés de nossa própria condição espiritual. E se aqui é possível falar em espírito, é melhor que nos entendamos logo de partida: nenhum espírito existe por si mesmo. Resnais explica assim: todo primeiro plano de um rosto é, aqui, a abertura do outro mundo; mundo de sonhos, de fábulas, de sexos e de mistérios.

No novo filme de Alain Resnais, estão à disposição do espectador todos os elementos necessários para que se compreenda o espetáculo dramático montado, seja no teatro ou no cinema: a encenação (mise en scène), o jogo duplo (o eu é um outro) do corpo, a importância do texto, a possibilidade do falso e a iminência do verdadeiro (a ilusão do teatro e a ilusão do cinema; cada um no seu imaginário e na sua condição fundacional). A questão que cerca a razão de ser daqueles personagens (no filme e no mundo; mundo de aparências, signos e representações que nos confundem e nos envolvem), isto é, o porquê deles estarem ali na casa do amigo em comum, o dramaturgo Antoine d’Anthac (Denis Podalydès), se revelará uma ilusão. Antoine deixou, em seu testamento, uma mensagem: queria que eles avaliassem o pedido de um grupo de jovens intérpretes que queria encenar sua peça Eurídice. Os convidados, atores e atrizes que trabalharam na peça no passado, precisam agora decidir se aprovam ou não sua nova versão pelos corpos de outros intérpretes. Para isso, eles assistem a gravação de um dos ensaios do grupo.

Partimos, pois, da janela. Sentados no meio de uma grande sala em sofás confortáveis, os convidados observam os quatros atos da peça enquanto se veem a reencenando ali mesmo. A tela que eles assistem é a mesma que nós assistimos (como espectadores que, ali, somos; nós e eles), pois as imagens do ensaio estão dentro da parede, da janela (como as dimensões de um palco e suas cortinas). Resnais filma o teatro (o ensaio que os convidados assistem) como ele é: condicionado ao espaço. Também o cinema está submetido a uma certa limitação espacial, mas seu limite é o limite do mundo. Não se deve entender disso uma divisão material das formas de encenar, mas partir para além da representatividade que cada mise en scène demanda do corpo. A coletividade, o contato afetivo, a memória possível e a morte iminente são todas coisas que só fazem sentido na relação com o outro, na presença do outro. Michel Piccoli, Mathieu Almaric, Lambert Wilson, Sabine Azéma e todos os personagens do cinema que interpretam a si mesmos como se fossem outros são símbolos não de uma disputa entre o real e a ficção, o falso e o verdadeiro, mas precisamente no lugar e no espaço em que eles compõem o mesmo imaginário. Estão amalgamados. Eles encenam a peça na memória enquanto a veem na tela.

Claro que a morte é uma questão que atravessa o filme, pois resiste no drama encenado triplamente, no filme, na peça e na própria morte do hóspede – que vive através do registro em vídeo; presença-ausência, relação imaterial, memória, tempo. O tempo que se esvai incontrolável e irremediavelmente, nos retira daqui para nos colocar lá, movimenta os objetos e altera a disposição dos personagens. Mas os personagens vão compreendendo as coisas, vão pensando na beleza da morte, no encontro que ela proporciona (morrer afogado, por exemplo, diz Mathieu Almaric, nos dá alguns segundos de memórias boas e prazerosas, não há sofrimento). Da compreensão intelectual da morte surge o desejo conceptual da vida. Alain Resnais, junto dos homens e das mulheres do cinema que encenam seu filme cheio de ironias, pensa na morte para olhar para a vida – e o contrário também. Observa ainda que estamos todos no mesmo barco, passagem corrente, inflexível. Precisamos saber ver e sentir a fruição daquilo que se apresenta diante do olho, logo ele que algumas vezes parece morrer. E se em Holy Motors o espectador abandonou a sala de cinema (ou está lá dormindo ou morto), aqui ele pode reivindicar o exercício de ver. Também o processo de criação é alcançado sem a figura do dom divino: o espectador e o artista são a mesma coisa.

(Vous n’avez encore rien vu, França, 2012) De Alain Resnais. Com Mathieu Amalric, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Jean-Noël Brouté, Anne Consigny, Anny Duperey, Hippolyte Girardot, Gérard Lartigau, Michel Piccoli, Denis Podalydès, Michel Robin, Andrzej Seweryn, Jean-Chrétien Sibertin-lanc, Michel Vuillermoz, Lambert Wilson.

09th Sep2012

Pierre Perrault: realidade e aparência

by Pedro Henrique Gomes

“Em suma, eu reivindico uma diferença de natureza. Uma espécie de incompatibilidade. E se o documentário não chega a interessar o público, não é justamente porque ele solicita um olhar que o espectador não cultiva? Não pratica? Sendo constantemente agredido por uma outra imaginária. Aquele que se alimenta de imagens fictícias não aprende a ler a realidade de uma imagem. E eu imagino que o caçador da pré-história sabia ver nos muros das cavernas o que a maior parte dos visitantes de hoje nem mesmo suspeitam. A leitura de uma imagem é consequência direta do que o leitor carrega em sua bagagem, em seus usos. Cada um cultiva seu olhar como bem entende.”*

Pouco interessa o que é documentário ou o que é ficção. Talvez mais apropriado seja trazer ao jogo a ontologia da metafísica e perguntar quando há documentário e quando há ficção? Se André Bazin criou todo um sistema teórico para satisfazer seu ideal de cinema (filtragem do real, tarefa a cargo da ficção), abrindo mão do documentário e do cinema mudo (“cinema primitivo”, pois as ideias sobre cinema bazinianas eram sobretudo progressistas rumo a uma realidade cada mais acessível) para abraçar a fruição total das narrativas ficcionais, Pierre Perrault, documentarista canadense, que foi também poeta e escritor e teórico de bagagem reflexiva de fôlego (escreveu e filmou incansavelmente, quase sempre no calor dos acontecimentos), inverteu a proposição. Só é capaz de lealdade possível a câmera que não se permite fabulosa. A essência da realidade de que falava Bazin é pretendida por Perrault como estrutura da mesma equação, só que jogando para outro lado. Em seus filmes, Perrault construiu quase uma taxonomia estética, desenvolvendo, é importante salientar, a simplicidade como ethos fundador de uma lógica centrada na frontalidade: são pessoas falando, gesticulando, brigando, amando, resistindo, combatendo, cantando, escrevendo, pescando, chorando. Só o documentário pode, segundo Perrault, apresentar a realidade tal como ela é.

Se deixarmos de lado as questões epistemológicas que certamente residem na gênese destes pensamentos essencialistas sobre os gêneros narrativos, ambos são projetos de implicações que transcendem (no sentido de alcançar o limiar, a potência dos desdobramentos factuais até que se rasguem e gritem por sua autonomia) o registro de estúdio: Perrault olhou para o mundo para além da dialética e da industrialização (mecanização, tecnicismo), enquanto Bazin fez a crítica aos sistemas teóricos de montagem, exigindo do cinema que ele seja manipulado o menos possível, ou seja, a montagem fica proibida e reservada aos momentos onde ela é estritamente necessária. Perrault, exatamente através do estiramento da ação dramática, prolongando as sequências de seus filmes até quando os personagens abandonem o ato – ou até mesmo quando não há nada ativamente acontecendo. Ora, Perrault, para além da poética explícita em suas imagens e da poesia implícita na linguagem (ou mesmo em off, como é o caso da série de filmes em que os personagens não são humanos e, portanto, não falam), friccionou e tencionou os movimentos artísticos e políticos (L’Acadie, L’Acadie) costurando a constituição desses grupos e suas ideias com a interferência de uma sombra.

Todavia, se a questão da linguagem reside na ponta do lápis do poeta e na reprodução das lentes, não é menor seu desejo em descobrir que ela reside lá onde os devoradores da imagem (nós, os canibais) se pretendem conhecedores do mundo: retirados de um estado de encantamento pleno, precisamos aprender a pensar as imagens e a palavras. A questão dissemina-se nos fluxos da linguagem: o cinema, mais especificamente o documentário enquanto formato, deve exprimir aquilo que de mais íntimo for capaz – os limites atravessam os filmes intensamente, configurando um turbilhão de pulsações, de signos e do subjetivo das experiências humanas (a arte, a política, a filosofia, a carne). O humano é, essencialmente, um corpo a ser descoberto pela câmera, mas não simplesmente como um ente moral, mas sobretudo como um sobrevivente. Perrault destrincha o estado funcional (sem ser funcionalista) do cinema, pois ao invés de prestar contas ao espectador através da descrição dos personagens, ele apenas os filma, rasgando a cortina que separa a existência (real) da representação, a realidade da aparência. A palavra, a linguagem, o corpo. Eis os objetos da práxis de Perrault.

Por outro lado, a lógica do clichê político no registro das relações, em Perrault, não é assim tão evidente, embora não deixe de ser provocada. A câmera esquadrinha os espaços não simplesmente para mostrar como eles são, mas para deixar que se mostrem. Há uma diferença e ela não reside puramente na ordem das palavras. Na iminência da possibilidade de investigar uma relação, a câmera supera sua função de dispositivo e se coloca tal qual um espaço confessional, onde é a vez dos personagens (ou das pessoas?) representarem a si mesmos, com a fraca intervenção da máquina. Em A Besta Luminosa, Perrault não faz mais do que filmar uma temporada de caça, mas que contém implicações sucessivamente delicadas que vão permeando a narrativa – e a narratividade. Os caçadores são partes de suas próprias filosofias, no sentido de que são livres para narrar, para fruir.

Todavia, neste filme exemplar de Perrault, como percebe o espectador, existem momentos que ou são francamente orquestrados (porque não haveriam de ser?) ou atingem tal efeito de representação dramática com força. Esse é o caso da sequência de caça em que alguns homens esperam nervosamente por um animal que está escondido atrás da imensidão da natureza, num estiramento do tempo em que o cineasta não interrompe a durabilidade da ação (todo o acontecimento é capturado pelos aparelhos do cinema). No entanto, quem surge é outro animal, o humano, o amigo. As imagens configuram a torpeza de todo registro de tal modo que torna difícil a separação entre o que é ficção e o que é documentário. Essa é, aliás, uma questão menor em Perrault, uma vez que ele abre mão das narrativas ficcionais. Compreendendo isso, poderemos absorver melhor inclusive as implicações políticas de seus filmes, como veremos mais profundamente nas próximas linhas.

*Pierre Perrault: o real e a palavra (Org. Michel Marie e Juliana Araújo). Balafon.

Este fragmento de texto sobre Pierre Perrault é a primeira parte de uma série de 3 (ou 4).


20th Jan2012

Algumas perguntas para os cinéfilos

by Pedro Henrique Gomes

Por que gostamos de filmes ruins? Por que não gostamos de filmes bons? O que é um filme ruim? O que é um filme bom? O que é um bom filme? O que é um mau filme? Um filme é extrinsecamente ruim? Um filme é intrinsecamente bom? Filmes ruins são aqueles de que não gostamos? Por que gostamos de um filme mesmo dizendo saber que esse filme é ruim? Gostar por empatia é realmente gostar? Quando deixamos de gostar de um filme, isso diz mais sobre nós mesmos do que sobre o filme em si? Quando passamos a gostar de um filme de que não gostávamos é isso um sinal de que amadurecemos ou simplesmente deixamos de ser chatos? Cinema é diversão? Cinema é política? Cinema é lazer? Cinema é arte? O que é arte? Quando um filme se torna uma obra de arte? Quem define o que é arte no cinema? O que é um filme político? Que querem dizer vocês com subestimado? Que é superestimado? Pode um filme ser subestimado pra mim e superestimado pra você? Como qualificar esse embuste? Um filme é bom por ser muito visto? Ou um filme é bom por nunca ser visto? O que é o sucesso? O que é o fracasso? Filmes devem ser proibidos? Cineastas devem ser presos por seus filmes? Filmes são sobre a realidade? Ou são ficções da realidade – ou realidades da ficção -? Um filme deve ser realista? Um filme mente? A verdade é importante? A mentira é boa? Por que os melhores personagens são pessoas horríveis? Gostamos da violência no cinema? Por que gostamos da violência no cinema?

O que é um filme? O que é o cinema?

12th Sep2011

Super 8

by Pedro Henrique Gomes

 

Se muito do esforço de Hollywood para tentar revitalizar a indústria (não no sentido de formar espectadores, pois não é esta a preocupação dos empresários, mas no de vender ingressos; que são coisas absolutamente distintas) está em resgatar histórias clássicas através de refilmagens ou releituras, então Super 8, filme que J. J. Abrams dirige e Steven Spielberg produz, se enquadra em algum espaço aí no meio. Nenhum, nem outro, mas um pouco de cada. Primeiro porque Super 8 não é uma refilmagem em si, mas um pastiche. Ou seja, se utiliza de referências para se movimentar e articular, inserindo-se num espaço não totalmente novo, mas nem por isso necessariamente velho. Segundo, pois, basicamente, reduz a releitura a imagens semelhantes às de certos filmes e se constroi a partir daí, dessa experiência da cinefilia da louvação – que não é pouca. No entanto, Abrams, cinéfilo dedicado, tem dificuldade ao transformar essa atmosfera em uma produção original e autêntica, com potencial que se desenhe e se faça crer relevante dentro uma aventura possível. Ocultado pela falta de frontalidade da narrativa, o dispositivo central da história, que é o mistério do trem que descarrilha e dos acontecimentos incomuns que passam a assustar os habitantes de uma pequena cidade no interior de Ohio, nos EUA, torna-se um assunto de desinteresse, já que o mais importante passa a ser o romance entre dois jovens que presenciam o acidente, a birra que o pai da menina tem com pai do garoto, sendo que isso não produz a emoção genuína presente até mesmo dos piores filmes de Spielberg. Minimizar as situações (porque Abrams prefere espraiar nos movimentos soluções conhecidas do espectador) reduz o impacto do suspense e amplifica a jocosidade dos bons sentimentos.

Jogar para cima das crianças a responsabilidade de salvar e proteger o mundo (os EUA) revela o peso da aventura. Super 8 é claramente um filme para reverenciar suas influências, dialogar com os filmes que “marcaram época” e travar essa relação entre a homenagem e o moderno. Abrams lida bem com a perspectiva do público. Esconde o monstro até quando se torna impossível deixar de mostrar suas feições, entrelaça personagens adultos de maneira a confrontá-los, colocando-os como ameaças aos planos das crianças, filma bem a ação mecânica (a câmera não treme desnecessariamente, exceto quando precisa engendrar um efeito) e não extrapola na música, a exemplo de um filme de Steven Spielberg ou George Lucas. Tal consciência fílmica, não obstante parece sufocar o outro lado da coisa. Pois, quando é assim, o pastiche pelo pastiche, o original será sempre melhor. E é assim porque Super 8 não quer ser mais que isso (mais que um pastiche), quer ser o “filme para toda a família”, quer ser o filme do momento para aliviar o stress, o filme que comprova a permissiva questão base que guia a indústria hollywoodiana: cinema é lazer e só. É ver e pronto, a aventura acabou. Nesse contexto, é difícil pensar nele como algo maior do que um clipe de filmes antigos. Super 8 está aí para lembrar outros filmes, essa nostalgia barata, esse egocentrismo vazio.

E se Super 8 é um sintoma desse cinema explicitamente revogador de mitos antigos, porque não pensá-lo como tal? Aí, também, há esquemas facilmente desmembráveis. Se falamos de um filme-pastiche-homenagem, qual a força criativa verdadeira que esse filme pode ter se o grande foco desse olhar (Spielberg) está também pensando no filme? Não há, assim, ideias, só escolhas de cenas. Homenagem a si mesmo não é cinema de fato. O distanciamento passa a ser contraposto pela aproximação, pela parceria, mas Super 8 não tem mesmo o espírito cativante dos filmes que reverencia (E.T., Os Goonies, Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau), resgatando deles somente as temáticas. Pois tem o extraterrestre, tem a relação pai e filho calcada na obra de Spielberg, tem o olhar distópico sobre crianças e adultos, tem a paixão juvenil. Todavia, há muitos outros cineastas compilando pastiches e transbordando esse cinema de homenagens com muito mais força e sentimento, como Tarantino, Honoré (embora cada um com escolhas também questionáveis) e alguns outros – poucos. No caso de Super 8, a aventura não tem adrenalina, o drama não tem profundidade, o humor rasteja para suplantar-se pela gag da homenagem mais próxima, a moral (do filme e do diretor) é diluída assumidamente dentro de um “Spielberg, eu te amo” estridente.

A desenvoltura já é marcada, só morrerão adultos e desconhecidos, os inimigos farão as pazes, os homens se sensibilizarão com a atitude do vizinho interplanetário, somente a criança (a mente pura e distante dos males da vida) será capaz de se envolver didaticamente com o extraterrestre, compreendê-lo, mostrar o lado branco da força. Diante disso, a expectativa consiste em ver o monstro, não importa o que vai acontecer depois com ele. Após isso, não há mais nada para ser visto em Super 8 (à exceção dos créditos, que trazem as melhores cenas do filme). E o problema não é previsibilidade da trama (se é que podemos falar em trama), tampouco a secura das cenas. O mais funesto de Super 8 é que não importa se ele foi feito hoje ou se tivesse sido lançado há trinta anos, a monotonia das imagens é a única coisa que de fato prospera. Não tem mistério algum, o monstro será humanizado, estará nos seus olhos quando do contato com a criança iluminada. Ele, o extraterrestre, reconhece, como em E.T., que o homem não é de todo ruim, e só reage com violência quando é agredido violentamente. Eis a grande lógica.

(Super 8, EUA, 2011) De J. J. Abrams. Com Elle Fanning, Joel Courtney, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Ryan Lee, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Glynn Turman, David Gallagher, Ron Eldard.