14th Oct2011

Ganhar ou Ganhar – A Vida é um Jogo

by Pedro Henrique Gomes

“A gente” consegue

O primeiro contato do espectador com o protagonista de Ganhar ou Ganhar não é nem um pouco cerimonial. Ao contrário, é elucidativo. Temos um personagem correndo (correndo de quê?) em ritmo consideravelmente letárgico, quando subitamente surgem dois outros corpos e lhe ultrapassam, cada um de um lado, o espremendo. Logo depois, após apenas mais uns metros, ele pára (a câmera grudada em suas costas). Semioticamente, fica claro que a cena significa a tensão constante que o domina e consome e, além da exasperação de sua energia, há a explicitação das forças do mundo que o superam. Ele perde para todos, é um legítimo loser, pois quando ganha é na trapaça. Sua vida não vai nada bem, percebe-se. Drama que segue. O problema de Ganhar ou Ganhar é que tudo se articula com certo desleixo, despotencializando qualquer resquício de dramaticidade (filme de poucas saídas, portanto de uma narrativa com poucas resoluções e embates), deixando deslizar qualquer traço de cordialidade técnica (decupagem primária, planos mal desenvolvidos e, quando melhores, repetem-se à exaustão, para saciar o desejo pela polidez da imagem) ou narrativa (o filme começa e termina o mesmo: sem mistério algum).

Um problema. Só se pode chegar ao drama (representá-lo), alcançar a dor, quando se vive, se sente, se experimenta. Parece ser essa a lição que Ganhar ou Ganhar consegue exprimir de si mesmo e do mundo que tão plasticamente constroi. E constroi não para retesar nem para destruir os alicerces do cinema bonitinho médio estadunidense, mas para enfeitá-lo. Um filme que, ao contrário da previsão, só quer ver o espectador relaxar. Mas cinema não é um parque de diversões. A investigação da moral, tal qual é engendrada, não pensa em contrapor a premissa, só cede as facilidades do mainstream. Fora isso, Paul Giamatti não tem vitalidade (situação criada pela fragilidade do personagem, que não está muito bem por coisas poucas, coisas antidramáticas, esquemáticas).

A história é a de Mike (Giamatti), advogado de poucos clientes, vive de tramas para colocar o pão na mesa de casa, onde vive com a mulher e a filha. Mike é também treinador da equipe de wrestiling de uma escola. Quando recebe um novo cliente, Leo Poplar, Mike agiliza um esquema para incrementar as finanças do cliente. Aparentemente, apenas mais um serviço do malandro. Mas Mike logo percebe o potencial de Leo, e resolve explorar isso para além da conta, colocando a ética da profissão pelo ralo (mas, como já dissemos, ele está correndo de algo, não correndo para algo). Para melhorar as coisas, de repente surge na porta da casa de Leo seu neto, Kyle, jovem de poucas palavras que se mostra um wrestler de alto nível, o que embeleza ainda mais as coisas para o lado de Mike, que tem agora um jovem talento em suas mãos. Mas as coisas se complicam quando surge a mãe de Kyle, de quem ele nutre boa dose de desgosto incontido. Mike então precisa lidar com essa crise que se instaura em sua mais nova família, criada na base do interesse.

O interesse de Mike em Leo é nos mil e quinhentos dólares que ele recebe por ser o guardião do cliente (que é tido como mentalmente perigoso); por Kyle não é uma questão de ter o filho que sempre quis ter (lutador, vencedor), é o lance do futuro brilhante que ele pode lhe reservar. Mike é isso: poço de desejos provisoriamente satisfeitos, que lhe dão velocidade, o impulsionam na corrida diária de sua vida medíocre. A contradição de seu trabalho ele tão logo percebe (justamente com o menino prodígio, na arcaica solução do mestre e aprendiz que decerto infantiliza um tanto mais a já arquetípica narrativa do filme de Tom McCarthy). Capturar as ironias se resume ao mesmo personagem clichê de sempre, engraçadinho e de personalidade dúbia, mas grande amigo do protagonista. Joguete barato e insolúvel, McCarthy perde controle até mesmo de seus artifícios, que não se resolvem nem mesmo enquanto soluções metafísicas de inserção de drama. E se um filme já se assume como jogo, não custa muito reconhecer que ele de fato age como tal. Por isso mesmo é que Ganhar ou Ganhar é um filme prematuro.

(Win Win, EUA, 2011) Direção de Tom McCarthy. Com Paul Giamatti, Amy Ryan, Bobby Cannavale, Jeffrey Tambor.

11th Oct2011

O Americano

by Pedro Henrique Gomes

Um filme sobre filmar nada

A premissa é tudo aquilo que O Americano tem para oferecer. Em essência, não mais do que isso. A tela se preenche de falsos dramas, entope-se de conflitos banais, que, quando filmados, só desejam engendrar a tal humanização dos personagens (por isso tornam-se desumanos). Em sua estreia na direção de longas, Mathieu Demy não quer vencer o espectador com dialogismos intelectualóides, muito caros ao cinema francês contemporâneo. Ao contrário disso, investe na estrutura mais minimalista possível, tal qual demanda sua fruição. Não raro, o filme vai se costurando perecível e acaba por se desmembrar em uma atmosfera qualquer, para quem a vida é só um drama a mais que precisa ser vencido. Seja qual for sua intenção, o filme de Demy só consegue se repetir, objetar sua história a partir de uma premissa cansada (homem perde a mãe com quem não falava e volta as suas origens para acertar as contas com o passado) e se articular em virtude de caprichos estético-visuais (filmar repetidas vezes o corpo semi-nu de Salma Hayek, flashbacks indispensáveis que mostram algumas situações da infância do protagonista enquanto as recorda) que não são nunca suficientes para sanar sua esquematização. O esqueleto do roteiro já é entregue ao espectador de antemão, o que retira a possibilidade dramática da história.

O filme conta a história de Martin (Mathieu Demy, que atua, escreve, dirige e produz), homem que, na primeira cena, após o sexo com a namorada, recebe a notícia de que sua mãe acabara de morrer. Após o choque, Martin parte então em busca de Lola, a mulher que cuidou de sua mãe durante boa parte de sua vida. De Paris, ele parte rumo a Los Angeles, nos Estados Unidos, onde sua mãe morava, e onde fora criado. Lá, tratará das pendências em relação a herança. Mas ao encontrar uma foto de sua mãe com Lola, amiga de infância, decide ir atrás da menina da foto. Ao descobrir que Lola vive agora em Tijuana, no México, e trabalha como stripper em uma boate, Martin não hesita em tentar falar com ela. Agora ciente da mulher que a velha amiga se tornou, ele vai em busca de algo que não sabe muito bem precisar o que é.

Dito isso, já é possível sentir o peso da proposta. Percebe-se um filme minimamente interessado em construir um personagem para além da própria estetização que o cinema francês contemporâneo vem criando para si, e, todavia, largamente amparado no equilíbrio de suas aflições, no desdobramento de sua história, nunca no que move suas ações, suas perguntas. O problema fílmico de O Americano é que ele não tem um problema dramático. É tudo fácil demais (simples resolução), é aqui onde o momento mais perigoso que o protagonista enfrenta é ter de pagar 100 dólares o tempo inteiro para poder ter uns minutos de conversa com Lola. O medo dele é esse, não ter dinheiro – e ele de fato perde grana quando seu carro é roubado com todos seus pertences no porta-malas.

Demy recorre as mais primárias formas de externalizar os sentimentos de seus personagens, seja através de diálogos (sempre redundantes, quase sempre inadequados) ou através de composições imagéticas (filmar o rosto de Martin refletido num espelho que desfigura seu rosto é exemplo forte do desleixo para com o espectador). Para Demy, toda ação dramática (que drama mesmo?) deve vir acompanhada de uma maneira simples de demonstrá-la, de explicá-la. Nesse processo, se perde autenticidade, desaparece qualquer traço autoral possível, mumifica-se a arquitetura narrativa talhando-a a resultados dos mais comuns – uma pequena reviravolta facilmente identificável anuncia-se com antecedência, apesar de se julgar séria. E talvez seja isso que faça de O Americano um filme tão fortemente detestável.

(Americano, França, 2011) De Mathieu Demy. Com Mathieu Demy, Salma Hayek, Geraldine Chaplin, Carlos Bardem, Chiara Mastroianni.