01st Aug2013

Cinema e feminismo

by Pedro Henrique Gomes

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Descobri recentemente, através da Tainah Negreiros, duas revistas das mais interessantes: Joan’s Digest e Cléo (tudo a ver com o filme de Agnès Varda). Crítica de cinema com base feminista. Feminismo e cinema, o feminino no cinema, o corpo e a resistência. Revistas de cultura e política, portanto.

No editorial da revista que toma o nome do filme da Varda, já um salto de lucidez importante marca território:

For the first time, cléo features writing by men. Excluding male voices from the journal was never an intention, as we share the space of film writing—our home—with them. That said, we will always endeavour to ensure self-identifying female writers take prominence in order to establish a place where such voices can grow. Like Vienna, we didn’t find this place, but we’re trying to build it.

Ainda estou lendo as páginas das revistas, mas já é possível deixar a recomendação. O que pude perceber é que, como toda análise de imagem digna de atenção, há um olhar especial sobre o corpo e sua representação. Me parece fundamental essa inclinação analítica, isto é, aquela que busca destruir os mitos desparafusando os critérios básicos pelos quais eles se reproduzem socialmente. Aliás, se já ouso apontar um destaque, na Joan’s Digest tem um texto sobre Adeus, Primeiro Amor que deve logo ser lido.

Volto a falar sobre isso em breve.

29th Dec2012

A Confissão da Leoa

by Pedro Henrique Gomes

Vou dizer-lhe uma coisa, escute bem — declarou, zangado, nosso pai. — Não olhe para mim enquanto falo. Ou já perdeu o respeito?

Nem precisamos de inimigos. Sempre nos bastámos a nós mesmos para nos derrotarmos.

A Confissão da Leoa não é um romance alegórico. Não é sobre uma determinada condição da mulher africana no sentido do exotismo e da mitificação sociocultural – muito sobre o qual o próprio autor já falou algumas vezes. Muito antes e mais conscientemente, gira em torno de direitos: os das mulheres africanas ao próprio corpo e a palavra; e aos direitos da própria ficção na literatura – é conhecido o argumento de Mia a respeito da fronteira entre realidade e a ficção literária. Na aldeia de Kulumani, rondam as casas os leões comedores de gentes, ou melhor, de mulheres, que são as maiores vítimas. Este fato também não é puramente alegórico: carrega o traço da mulher africana em relação ao homem africano – há um abismo. O romance trás qualquer coisa que exista de fato no Moçambique narrado por Mia Couto, em que a possibilidade do real é mais uma condição do olhar que uma condição determinada empiricamente. A África pelos africanos, quer dizer, o povo africano (a mulher africana) como protagonista de sua própria história, capaz de acertar, mas sobretudo de errar, de criar problemas e de os possuir.

Começa com a morte de Silencia, irmã de Mariamar, que fora devorada por leoas, o caçador Arcanjo Boleiro é chamado para acabar com as felinas selvagens na aldeia de Kulumani, em Moçambique. Chegando lá, enfrenta todo um fervor social na ânsia pela eliminação dos leões ao mesmo tempo em que luta internamente com seu passado e presente (com o tempo e o espaço, enfim). Enquanto uns abraçam as crenças, outros as abandonam. Narrado em primeira pessoa, alternando entre Mariamar e Arcanjo, A Confissão da Leoa é isso aí.

O livro se articula em duas frentes: no discurso poético e no político. É poético na medida em que jamais permite ser invadido por facilidades narrativas, como aquelas de escritores que pensam que o romance é um encadeamento de fatos coerentes, cuja estrutura e cuja lógica devem obedecer a prescrições maiores (fluxo da narração para prender o leitor). Mia Couto domina a pena justamente porque desdobra o ritmo – e assim o descobre, encontra o êxtase crucial -, transborda o fantástico na sua mistura com o real sem perder a poesia que escorre ali mesmo, por todos os cantos. É preciso ler duas vezes, mas não por uma aparente complexidade estética, e sim para desenredar a fruição psicológica que permeia as histórias (porque, aqui, nesta África, são muitos mundos em um só) para depois perdê-las novamente.

A Confissão da Leoa foge ao controle do leitor por diversos momentos no sentido de que, ao não estabelecer conclusões a cada final de parágrafo, ele potencializa o discurso passado, isto é, torna cada momento no momento mais importante. Nessa confusão de realidades e aparências, de sonhos e encontros furtivos no meio da noite nas florestas, urge uma precisão pulsante, até cirúrgica, na condução dos acontecimentos. Com esses beijos e abraços que o mito e a realidade vão se dando, com essa disposição em conciliar os mundos e, opa, narrar a transa entre as espécies, se a primeira frase do livro que diz que Deus já foi mulher, é provável que ele tenha sido de fato.

Toda essa jornada de autocrítica que os personagens vão criando em suas angústias e dúvidas (religiosas, políticas ou aquelas que dizem respeito ao ambiente familiar e comunitário, que são por acaso religiosas e políticas) enquanto vão descobrindo as “entranhas do mundo”. As mulheres de Kulumani sabem segredos. Mas não é como se a política fosse todo o escopo do livro, mas definitivamente o contrário: os conflitos e os dramas internos de cada personagem carregam a força do romance, que, a partir da aproximação do imaginário com o real, num entrelaçamento difícil de separar, assaltam o pensamento lógico do leitor. Mia Couto bem sabe que os problemas da África não dizem respeito apenas ao passado colonial, mas que também é a África responsável por seus dramas. Aquilo que pensamos conhecer talvez não seja nada disso. Essa é, aliás, sua beleza. O corpo e o espírito, sempre em sentidos múltiplos, para além dos dogmas religiosos e das deduções científicas, se mostram pulsantes.

A Confissão da Leoa (Companhia das Letras, 2012, 256 páginas). De Mia Couto.