25th Aug2011

Um Novo Despertar

by Pedro Henrique Gomes

Desmembrar-se

Jodie Foster, com Um Novo Despertar, acabou fazendo um filme sobre nada. Começar com tal sentença pode soar demasiado sintomático e redutível, mas a experiência de seu mais novo filme (é o terceiro) não consuma seu próprio esboço, que indicava um melodrama pós-moderno calcado na suficiência das relações familiares, na concepção do homem que se afunda em uma depressão causada não somente por seus próprios movimentos e escolhas, mas por toda a sociedade que o cerca, e com a qual ele interage diretamente. A proposta estético-narrativa de The Beaver, que de infantil nada tem (um pouco ao contrário disso, é apenas inocente em sua articulação) é substanciar a relação do homem com ele mesmo (a cura está em si, em liberta-se de si mesmo; expurgar os demônios que assombram a existência) através de princípios metafísicos. Ou seja, a condição do homem moderno, rico e bem-sucedido, uma vez inserido no ambiente capitalista, passa por problemas familiares (como o filho que não quer seguir seu exemplo de maneira alguma, a mulher que não consegue viver ao seu lado e compreender sua situação) que, de alguma forma, o fazem psicologicamente frágil e até insano. Em meio a tudo isso, o que resta de cinema?

Pois o filme começa de fato quando Walter Black (Mel Gibson), embriagado, portanto nada resoluto de suas atitudes, tenta, inutilmente, o suicídio repentino. E ele faz de tudo, ameaça se jogar pela janela, tenta se enforcar no banheiro com o pescoço envolvido pela gravata. Nada dá certo, o que funciona é o inesperado. Num tropeço, a televisão cai sobre sua cabeça, o que faz com que ele perca a consciência (o desmaio) e, mais gravemente, a consciência de seu próprio controle mental (a sanidade). No instante mesmo do acidente, Walter estava com um fantoche de um castor no braço esquerdo. Ao acordar, o castor, através de seu corpo, assume voz e personalidade própria, criando outro corpo (este não-físico) no mesmo. O castor fala através dos lábios de Walter, mas com outra voz, com outra personalidade. Segundo o castor, ele será o guia de Walter, promete tirá-lo da depressão e recolocá-lo no caminho da felicidade – esta é apenas uma das utopias cretinas do filme. E as coisas começam dando certo, pois ele se reaproxima dos filhos e da mulher e retoma suas atividades na empresa que herdou do pai, elevando seu valor de mercado com ideias e implantando uma nova maneira de gerência. Ele não se afasta nem por um segundo do castor, nem no banho, nem no trabalho, nem no sexo. Mas as coisas fogem do controle. Tinham que fugir.

Após certo tempo, em meio a alguns dias de glória, Walter não sabe mais lidar com o castor, foi tomado pela persona autoritária e peremptória do fantoche. Como consequência, acaba disputando o mesmo corpo com ele – que, na verdade, é ele mesmo. E se todo o embate teve início em um acidente involuntário, o fim dele se dará de maneira fruída, forçada, num lampejo de consciência. Apesar de esse registro passar antes por um processo de análise psicológica, esses dois animais esquadrinhando um mesmo braço não respondem pela mesma voz, não compartilham de semelhantes vontades. Mas Walter deveria saber disso quanto resolveu retirar o castor do lixo. Logo o lixo, não por acaso um depósito de tudo aquilo que não presta mais, que não mais nos serve. Mas Walter pegou o mal do mundo para ele, foi essa sua escolha para tentar mudar de vida. E a situação que já era não fácil (o filho menor é ridicularizado na escola, enquanto o maior o odeia), ficou um tanto pior. Nessa trama, não há nada de comicidade (ninguém está brincando com bonecos de pelúcia), é o mais puro drama do burguês solitário que, ao atingir o limite de seu poder, se olha no espelho e, incrédulo, não se vê, não vê nada além de um rosto cansado. O universo é esse, o painel é assim tão simples, mas complica-se por força do capricho. Jodie Foster confia demais em semblantes, não em expressões.

Muito além disso, aqui não existem imagens que não venham acompanhadas por uma tese (a narração em off banaliza tudo) infindável, pois o castor está sempre se explicando. Estamos diante um filme que não se abre para o mundo, já é todo montado na sistemática da aglutinação das personalidades. Rigorosamente, trata-se de um filme que já vem para dar a lição de vida formalmente.

Não sem um tom necessariamente letárgico, a narrativa se esparrama perdidamente pelo caminho do drama mais canalha que se poderia esperar. Como adendo, dramaticamente Mel Gibson não resiste ao close. Há claramente uma carência de recursos dramáticos em sua expressão, e tal deficiência não se reconhece como fraqueza, como limitação, pelo contrário, estimula-se o erro, incentiva-se a provação desgraçada do mau intérprete. Pois a cineasta se apega a esse rosto, e insiste mesmo em filmá-lo abundantemente, de maneira frontal, para saciar seu desejo de instaurar o drama e seus psicologismos internos. Sintomático dos pés a cabeça, Um Novo Despertar se recusa a ser um bom filme.

(The Beaver, EUA, 2011) De Jodie Foster. Com Mel Gibson, Jodie Foster, Anton Yelchin, Cherry Jones, Riley Thomas Stewart, Jennifer Lawrence.