21st Nov2011

O Gaúcho

by Pedro Henrique Gomes

Eu, um Homem.

Em O Gaúcho Jacques Tourneur se coloca de frente para o problema de sua narrativa, ou seja, aquilo que dá pulsão as suas engrenagens. A história se passa no pampa argentino, em meio a turbulências do exército, da população gaúcha que se vê ameaçada sua existência, que desde sempre viveu segundo seus costumes e tradições. A luta é comandada pelo gaúcho Martin (Rory Calhoun), que fora preso recentemente por assassinato (acabou matando um homem com uma facada durante uma briga), mas que logo conseguiu escapar, não sem a ajuda de alguns amigos. A prisão na verdade é a integração ao exército, no qual fica nas mãos do Major Salinas (Richard Boone), que o desafia constantemente. Após a fuga, Martin lidera um grupo de gaúchos que desejam retomar o controle sobre suas tradições, almejam revoltar-se diante da sociedade do exército puritanos que os ofendem e acuam.

No entanto, Salinas, que, durante a fuga de Martin, teve seu braço ferido, organiza seu contingente para encontrar Martin (e matá-lo, sobretudo). O que se segue é uma saga revolucionário de um lado (o dos gaúchos) e opressora do outro (do exército), onde o pampa argentino fornece sua vastidão para inúmeras batalhas a cavalo. Martin, decerto um homem rigoroso, de poucos sorrisos e muitas ações, se encontra também apaixonado pela filha de um padre, mas se vê impedido, dadas as circunstâncias, de consumar essa relação. O torpor dele está agora desejante pela luta, pela reconquista do espaço e do respeito que são seus por direito. A guerra será então travada pela compaixão desses corpos marcados pela vontade de potência (desejo de poder).

Mas O Gaúcho se convence com poucas coisas. Acredita cegamente que filmar o cenário desértico com cavalos montados por pessoas é suficiente para engendrar uma ação reconhecível pelo espectador. Tourneur aposta no jogo das circunstâncias, não na essência mesma da revolta dos gaúchos. As aventuras filmadas (bem filmadas, afinal) parecem mais simulacros dos acontecimentos do que acontecimentos mesmos. Reflexo simplificado (ora caricatural demais, ora fantástico além da conta) da causa para atingir um fim único, fim que, para Tourneur, só pode ser empírico, qual seja ele. Martin, o gaúcho-central do filme, truculento, representa o desleixo: personagem construído para simbolizar, para mitificar, enquanto o necessário era encontrar nele a diferença crucial entre o fascismo militarista e a revolta popular (que, aliás, fica sempre na superfície, no jogo nada elucidativo). O filme não articula essa dicotomia de maneira a transcender as caricaturas de seus personagens, que só atuam para a câmera, só representam trajes e trejeitos, expressões e sotaques, armas e flores. O Gaúcho é um filme sem ideologia.

Tourneur se insurge pelas aparências mais do que pela razão, pela realidade concreta das relações possíveis daquilo tudo que filma. Seu filme tem pulsão (afinal falamos de um “diretor que sabe filmar”), falta mesmo é virulência, vontade de ser mais do que simplesmente uma reprodução de corpos, homens/símbolos e maneras de vivir. E se Tourneur nunca foi um cineasta que transparecia para o espectador pela economicidade de sua direção, aqui, todavia, não se agigante sequer na formulação de sua história, que é a um só tempo de argila e de papel. Pois Martin, o protagonista-herói do filme, depois de muito matar, perdoa com a maior das facilidades seu inimigo que, não raro, não o perdoaria. Tal cena se passa logo em frente da igreja, da qual o pai de sua amada é o padre. O Gaúcho não é um filme político, mas é sim um filme religioso.

(Way of Gaucho, EUA, 1952) De Jacques Tourneur. Com ??Rory Calhoun, Gene Tierney, Richard Boone, Hugh Marlowe, Everett Sloane, Enrique Chaico, Jorge Villoldo, Ronald Dumas, Hugo Mancini, Néstor Yoan.

04th Jul2011

Fantaspoa 2011 – Pólvora Negra

by Pedro Henrique Gomes

Resistir à bala

O grande mérito de Pólvora Negra corresponde a dois movimentos transversais. Assumir e compreender seu exagero, forjar sua teatralidade de horrores como parte de um universo não mimetizado. E se o cinema de gênero fabricado no Brasil hoje é essencialmente referencial, ligado muitas vezes a um registro caricato do cinema de horror dos anos 80/90, Kapel Furman consegue manter e se apropriar dos gêneros e dos formatos para construir um filme ao mesmo tempo caricatural e bastante melindroso em relação à estética narrativa. Pois se por um lado a vertente sanguinária está por todo esse cinema (já que é sua função-fim, seu desejo de potência, sua forma e conteúdo), também existe o traço do realizador, que economiza nos diálogos (sem escapar das frases-efeito) para compensar com imagens pungentes e cenas de ação não menos que eletrizantes. Em Pólvora Negra, há muito do jogo imagem-imagem, em sequências que entram gags absolutamente certeiras – cenas do bar e na cozinha do restaurante do japonês. Nestes momentos, o humor se constitui a revelia da própria criação, como parte integral de uma mitologia desconhecida.

O filme começa após alguns anos de um trágico crime, que acabou com a vida da namorada de Castilho Paredes e destroçando a visão de seu olho esquerdo. Nesta terra sem lei, onde não há heróis ou algozes, só homens sedentos por vingança, Paredes vai atrás dos homens que tiraram a vida de sua namorada – no melhor estilo de um legítimo faroeste moderno brasileiro. Mas não só, está em jogo a honra do homem que teve sua vida destruída, sua existência jogada em um esquema de manipulações perigosamente mortais. Paredes, após a tragédia, tornou-se patologicamente transformado num homem de objetivos muito claros e específicos: vingar, sobretudo, sua própria honra.

Doravante a tentativa de inserir um alívio cômico, para além do próprio personagem central (que, por si só, já possui força e efeito suficientes) e da maneira como as cenas internas são filmadas, de certa forma desloca a ação do filme, mas, todavia, dispõe e distribui uma sequência de elementos icônicos pertinentes a ambiência terrena que se quer não só representar, mas fazer sentir, ser parte. Como no melhor do cinema de gênero, a equivalência entre herói e bandido é o que constroi a mitologia ao redor do personagem. A clássica história de vingança que norteia o cinema de gênero é o artifício condutor do filme de Furman, que funciona e se engendra ora por entre a sátira, ora entre o libidinoso emaranhado de sangue e vísceras particularmente brasileiro que se insere e se acumula juntamente da própria sátira.

(Pólvora Negra, Brasil, 2011) De André Kapel Furman. Com Nicolas Trevijano, Ricardo Gelli, Munir Kanaan, Ken Kaneko, Joaz Campos, Eduardo Reys, Andre Ceccato, Celso Camargo, Trovão, Elder Fraga, Claudio Savietto, Thais Simi, Suzana Alves, Julia Novaes, Duda Cacciatore