13th Jun2013

Crave

by Pedro Henrique Gomes

crave

É problemática a relação de Aiden (Josh Lawson) com suas imagens. Ele fotografa cenas de crimes brutais, mas não consegue se relacionar com elas de maneira a não ter que fotografá-las mais. Para ele, toda imagem que registra é o resultado de sua impotência, incapacidade e covardia. Ele não conseguiu salvar a vítima, não pensou e não agiu rápido o suficiente para evitar seu destino trágico e casual, e a consequência desse mundo nefasto está ali digitalmente guardada na câmera e, principalmente, em seu inconsciente. Mas não há nada do inconsciente freudiano, pois ele sabe muito bem onde está falhando e o que deve fazer para tornar o mundo um pouco mais justo.

A justiça que ele persegue apenas no nível das abstrações é a semelhante àquela que o protagonista da série Dexter (2006) realiza impudicamente: livrar a sociedade de uma parte do mal do mundo (os assassinos), isto é, mais do que salvar os inocentes, ambos querem acabar com os criminosos – paradigma das crenças liberais para quem o que importa é tão somente o indivíduo, dual, que vive ou que morre, e as frutas podres merecem morrer. Mas se a linha de pensamento de Dexter está amplamente conectada a uma estrutura dramática simpática a seu reacionarismo (quer dizer, ele é assumidamente conservador), a performance psicológica de Aiden está um pouco entregue ao fluxo das piadas que o diretor Charles de Lauzirika deseja criar.

Mesmo sua interação com o aparato psicológico de Aiden, que parece feito para funcionar sobretudo como forma de diluir a seriedade do drama (e rir dele mesmo), se confunde no encontro com o ritmo de esquemas que o humor pretende estabelecer. Não demora e já existe um jogo formalizado, rigoroso demais para permitir qualquer distância de certo conservadorismo do gênero, em que as piadas só podem funcionar (porque são esquemáticas) como repetição de si ou como afago com um cinema já estabelecido. Mas o mundo das ideias, platônico, em que Aiden vive em alguns momentos é sempre mais interesse que o mundo dos sentidos, aquele real e “tocável”, no qual ele deixa de agir e demonstra toda sua impotência. E é assim pois aquilo que acontece apenas em sua imaginação é apenas isso mesmo: lances esquizofrênicos, momentâneos, que vão passar e morrer juntos como estrutura de “uma história que poderia ter sido”. O seu lado mau, por ele mesmo tão alardeado, não existe. A bem dizer, ele especula ser que nunca será.

Crave está condicionalmente amarrado a essa configuração engenhosa da mente humana: Aiden imagina sempre outra forma de lidar com uma situação, mas nunca consegue tomar coragem e agir. Seu medo é viver covardemente para sempre, e o que em princípio diz respeito apenas à forma do personagem acaba envenenando a própria potência do filme. É em sua relação com Virginia (Emma Lung) que Aiden revela seu vazio. Suas angústias não são coisas pelas quais nos apegamos para tentar desmembrá-las, mantemos sempre certa cordialidade diante dos fatos, diante dessa imbecilidade moderna comum a muitos personagens do cinema americano de hoje – representado fortemente em cenas como as que Aiden gagueja ao falar com Virginia ou em outros momentos de aparente tensão psicológica. O crave do título é impossibilidade da existência, a negação do Ser.

Há claramente uma tentativa de complexificar o pensamento, torná-lo mais sério aqui para satirizar logo ali, ser um pouco de tudo, divertir e assustar, mas o jogo duplo não rompe com o discurso límpido (até mesmo do ponto de vista narrativo) do grande cinema hollywoodiano que articula com maior eficiência a força imagético-ideológica com a possibilidade de narrar as banalidades e as fantasias que nos consomem.

(Crave, EUA, 2012) De Charles de Lauzirika. Com Josh Lawson, Emma Lung, Ron Perlman, Edward Furlong, Christopher Stapleton, William Gines, Michael Renda, Helena Kash.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

11th Jun2013

Hail

by Pedro Henrique Gomes

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A força da destruição

Após retornar da prisão, Daniel P. Jones (que interpreta ele mesmo) chega de surpresa em casa, para espanto da mulher, Leanne (ela mesma). O casal logo coloca as paixões em dia, tenta reorganizar a vida a dois, da maneira como, ao que parece, sempre fizeram antes dele ir passar um tempo recluso. Entre um furto e outro, uma briga aqui e outra ali, uma tarde de sexo sob a luz fraca do sol, Daniel e Leanne “ressintonizam” seus sinais vitais. Para captar essa pulsão, o filme dirigido por Amiel Courtin-Wilson (seu primeiro longa “de ficção”, após curtas e documentários) investe numa atmosfera de sufoco: a câmera não se afasta daquilo que filma, os personagens nunca são vistos de longe, a cada batimento cardíaco, deles e do filme, aumenta a tensão que logo vai moldando o drama. Assim como O Céu Sobre os Ombros (2011) e Morro do Céu (2009), para ficar nos nacionais, Hail, como qualquer cinema contemporâneo maduro (estética e eticamente), não está muito preocupado em colocar falsas questões em disputa (se o filme é documentário ou “ficção”): as imagens estão aí para vistas e pensadas independentemente de qualquer questão prévia.

E é com certa elegância que Hail se constrói em cima dessa impossibilidade de fugir dos problemas que vão surgindo. É por aí também que, paradoxalmente, ele começa a engasgar. Se por um lado existe essa força de afirmar um suspense e um drama legitimado pela mobilidade das imagens e pela combinação de vários elementos estéticos que agilizam a sensibilidade do drama, por outro a concepção dessas imagens não permite nenhuma relação mais analítica com os personagens. Eles flutuam como corpos sem alma. A influência do cinema underground americano (Jonas Mekas, Stan Brakhage) não resolve a equação.

Courtin-Wilson parece querer filmar as abstrações dos relacionamentos, o clima obscuro sob o qual Daniel ainda se mantém relutante e bastante perdido nesse contato com o “novo mundo”. Nessa fixação, acaba perdendo o personagem; ao se aproximar demais, perde sua substância. Não podemos chegar nele de fato, só temos seus rastros, ainda trôpegos e mal caminhados. A luz é pouca, a câmera jamais desloca o olhar, fica submissa a “urgência” do registro (na mão e tremendo), precisa colocar tudo em crise, mas não investiga realmente de onde ela vem – a desorientação que se cria através das imagens é a analogia com a condição do protagonista. Mas Hail entrega uma dor para que o público resolva por amenizá-la ou não, resolva por acolher aquele personagem ou não e que, no fim, acaba sendo parte de uma troca injusta: nós emprestamos o olhar e o filme nos devolve um desejo de experimento puro e limpo, redondo e todo jogado previamente (da morte de Leanne à história de vingança que faz do filme outra coisa) o que, a bem dizer, esquece que todo experimento é impuro.

Amiel tem notadamente uma pretensão (o que é bom) e uma ideia de cinema não menos interessante. Ele vai levar à tela a história que não é assim tão comum de ser vista: a do homem que vive aquém de si mesmo, marginalizado e incompleto enquanto sujeito social e humano. Mas a brutalidade e a singeleza são justamente suas armas para continuar vivendo, porque um acontecimento trágico e inesperado lhe destroi a possibilidade de renovação social e, ai de mim, espiritual. Leanne morre em consequência de uma overdose. Daniel sabe quem foi o culpado – ou pelo menos quer arranjar um para amenizar sua própria consciência. Mas logo qualquer transpiração de um cinema menos efeitista (e quando ele é assim, é lindo, como na cena em que Daniel tenta conseguir, e consegue, um emprego; ou mesmo nas brigas do casal) se esvai diante da “trama de vingança” que o diretor engendra – claro que a vingança é, sobretudo, uma revanche consigo mesmo. Mesmo não perdendo o vigor do drama psicológico de Daniel, Hail atropela um pouco a aventura, pensa as emoções antes de pensar os sentimentos em um filme que é precisamente em torno dos sentidos. Ao fim e ao cabo, ele tem uma força que se esconde.

(Hail, Austrália, 2011) De Amiel Courtin-Wilson. Com Leanne Campbell, Daniel P. Jones, Tony Markulin, Jerome Velinsky.

Publicado originalmente em Papo de Cinema.

04th Jul2011

Fantaspoa 2011 – Pólvora Negra

by Pedro Henrique Gomes

Resistir à bala

O grande mérito de Pólvora Negra corresponde a dois movimentos transversais. Assumir e compreender seu exagero, forjar sua teatralidade de horrores como parte de um universo não mimetizado. E se o cinema de gênero fabricado no Brasil hoje é essencialmente referencial, ligado muitas vezes a um registro caricato do cinema de horror dos anos 80/90, Kapel Furman consegue manter e se apropriar dos gêneros e dos formatos para construir um filme ao mesmo tempo caricatural e bastante melindroso em relação à estética narrativa. Pois se por um lado a vertente sanguinária está por todo esse cinema (já que é sua função-fim, seu desejo de potência, sua forma e conteúdo), também existe o traço do realizador, que economiza nos diálogos (sem escapar das frases-efeito) para compensar com imagens pungentes e cenas de ação não menos que eletrizantes. Em Pólvora Negra, há muito do jogo imagem-imagem, em sequências que entram gags absolutamente certeiras – cenas do bar e na cozinha do restaurante do japonês. Nestes momentos, o humor se constitui a revelia da própria criação, como parte integral de uma mitologia desconhecida.

O filme começa após alguns anos de um trágico crime, que acabou com a vida da namorada de Castilho Paredes e destroçando a visão de seu olho esquerdo. Nesta terra sem lei, onde não há heróis ou algozes, só homens sedentos por vingança, Paredes vai atrás dos homens que tiraram a vida de sua namorada – no melhor estilo de um legítimo faroeste moderno brasileiro. Mas não só, está em jogo a honra do homem que teve sua vida destruída, sua existência jogada em um esquema de manipulações perigosamente mortais. Paredes, após a tragédia, tornou-se patologicamente transformado num homem de objetivos muito claros e específicos: vingar, sobretudo, sua própria honra.

Doravante a tentativa de inserir um alívio cômico, para além do próprio personagem central (que, por si só, já possui força e efeito suficientes) e da maneira como as cenas internas são filmadas, de certa forma desloca a ação do filme, mas, todavia, dispõe e distribui uma sequência de elementos icônicos pertinentes a ambiência terrena que se quer não só representar, mas fazer sentir, ser parte. Como no melhor do cinema de gênero, a equivalência entre herói e bandido é o que constroi a mitologia ao redor do personagem. A clássica história de vingança que norteia o cinema de gênero é o artifício condutor do filme de Furman, que funciona e se engendra ora por entre a sátira, ora entre o libidinoso emaranhado de sangue e vísceras particularmente brasileiro que se insere e se acumula juntamente da própria sátira.

(Pólvora Negra, Brasil, 2011) De André Kapel Furman. Com Nicolas Trevijano, Ricardo Gelli, Munir Kanaan, Ken Kaneko, Joaz Campos, Eduardo Reys, Andre Ceccato, Celso Camargo, Trovão, Elder Fraga, Claudio Savietto, Thais Simi, Suzana Alves, Julia Novaes, Duda Cacciatore

03rd Jul2011

Fantaspoa 2011 – A Noite do Chupa-Cabras

by Pedro Henrique Gomes

O novo filme do cineasta capixaba Rodrigo Aragão (Mangue Negro) conta a história do jovem que resolve tentar a vida na cidade grande e que, após anos longe das terras onde nasceu, ressurge para uma visita e acaba sendo o estopim para que a rivalidade entre a sua família, os Silva, ganhe novos traços sanguinários com a família rival, os Carvalho. O maior diálogo que uma família consegue manter com a outra é o da troca de provocações, que termina em uma pancadaria generalizada na ambiência de um boteco, com promessas de vingança de ambos os lados. Mas, enquanto os Silva e os Carvalho se mutilam na escuridão das montanhas, em razão de um ódio decano que acompanha as famílias há anos e os faz vítimas de suas ambições, o Chupa-Cabras vai consumindo-os lentamente, à sombra de seus olhares e especulações. A rivalidade das famílias, o clima vingativo que paira sobre as terras, é o mote para o derramamento de sangue.

Se por um lado os Carvalho são retratados como os bad boys da região, calcados na figura do imponente personagem vivido por Petter Baiestorf, líder da família, e os Silva tomam posse da fama de bons moços – com o filho que estudou medicina na metrópole e sua esposa gestante, o irmão incapaz de se locomover sem o auxílio de uma cadeira de rodas -, de vítimas apaziguadas pela perda das terras para os Carvalho (daí grande parte do ódio entre as famílias). Jogo ilusório dos problemas e dos inimigos, pois o verdadeiro espírito maligno que ronda as montanhas, portanto a real ameaça às famílias, é o Chupa-Cabras (Walderrama dos Santos), que, nesse ínterim de homens de fé (aliás, imbuídos de uma fé explicitamente cega) que vão estripando-se a todo custo, vai refestelando sua fome e saciando seu canibalismo sob a égide dos homens insanos.

A situação das famílias só se complica quando, enlouquecido pelo poder da magia negra, o Velho do Saco (Cristian Verardi, no personagem que não só tem função central no filme, mas que também serve de alívio dramático à situação das famílias rivais, pois acaba os colocando face ao verdadeiro inimigo, juntos – mesmo que não como amigos – contra o mesmo monstro canibal, diferentemente do que ocorre com o Chupa-Cabras). A Noite do Chupa-Cabras, a propósito, trata, entre outras coisas, de um conflito essencialmente ideológico-político e que, como todo embate que envereda por esse caminho, tende, com o tempo, a esfalecer as forças de ambos os lados. E nessa profusão inconstante de almas incandescentes, o verdadeiro inimigo tardará a ser combalido.

(A Noite do Chupa-Cabras, Brasil, 2011) De Rodrigo Aragão. Com Afonso Abreu, Alzir Vaillant, Cristian Verardi, Eduardo Moraes, Foca Magalhães, Fonzo Squizzo, Hermann Pidner, Joel Caetano, Jorgemar de Oliveira, Kika Oliveira, Markus Konká, Margareth Galvão, Margo Benatti, Mayra Alarcón, Milena Zacché, Petter Baiestorf, Raul Lorza, Ricardo Araújo, Walderrama dos Santos.