10th Dec2012

Dentro de Casa

by Pedro Henrique Gomes

Germain (Fabrice Luchini) é professor de literatura que, após anos no lycée, já não tem o mesmo prazer em ensinar seus alunos. Dar aulas e corrigir provas na companhia da mulher, a galerista Jeanne (Kristin Scott Thomas), nada mais é que um trabalho cansativo e desalentador. Mas quando conhece a letra de Claude (Ernst Umhauer), jovem que, no dever de narrar como havia sido seu fim de semana, acaba por surpreender o professor ao contar sua relação com um amigo Raphael Artole (Bastien Ughetto), que é por acaso seu colega, de maneira bastante fora do comum (o comum é aquilo que Germain está habituado a ler de outros estudantes na maioria dos casos). Germain resolve então aprimorar a escrita de Claude, pois vê nele o talento que lhe falta: quer que o jovem escreva aquilo que não conseguiu escrever. Logo fica claro que Claude é o filho e a obra que Germain nunca conseguiu colocar no mundo. Claude demonstra empolgação com a ideia e passa não só a contar sua vida com Raphael, mas também sua intimidade. Frequenta a casa do colega para lhe ajudar nas lições de matemática e ganha confiança dos pais dele. O drama (do filme e da própria história que Claude cria para Germain a partir de sua experiência real) se instaura entre as possibilidades do real e da ficção.

O tutor e o aluno desenvolvem uma relação que flutua entre a necessidade (humana, afinal) de se locupletar, de compor um mundo que pode existir para além de sua própria corporificação, isto é, de seu próprio processo criativo. Pois Dentro de Casa é bem isso, aquele registro infantil e ao mesmo tempo adulto da vida. Um filme que trabalha em cima da ideia de que nossas escolhas também podem ser bastante imbecis. Germain pretende ensinar a Claude as técnicas narrativas que o bom escritor deve dominar. Então o filme passa a girar em torno da apreensão e da conquista do próprio jogo que eles criam e o espectador torna-se objeto de captura nos meandros das cenas. Em meio a lições que vão de Tchekhov a Flaubert, passando por Dostoievsky, o diretor François Ozon costura uma aventura moderna atolada em seus esquemas: um diálogo com o processo de criação incipiente que busca na própria qualidade das referências que apresenta construir um discurso conciliador entre a realidade e ficção.

Ao escrever para Germain, Claude busca um final estarrecedor, algo que possa sacramentar sua fúria juvenil e seu amor incontrolável pela mãe do melhor amigo. Germain perde o controle sobre sua escrita quando lhe ensina que a literatura lhe permite criar o insondável, governar o impossível e desmistificar as forças estabelecidas socialmente. Mas Ozon não quis fazer um filme sobre algo, mas sobre qualquer coisa. A história de um professor mediano e de um aluno promissor não envolve a dramaticidade que suas intenções demandam, ficando entre o humor desleixado e o drama romântico cordial com o espectador, aquele que rouba a crueldade dos grandes autores para delas se embebedar torpemente. Se uma tragédia se anuncia, uma história das mais surradas ganha corpo.

Com toda a ingenuidade que lhe cabe, Dentro de Casa revela que a arte pode alterar o futuro, torná-lo seu, a seu modo. Se uma das lições de Germain é que o escritor deve deixar o espectador decidir alguns acontecimentos sem fornecer muitas explicações, Ozon coloca isso como questão fazendo exatamente o inverso. A única chance do espectador aproveitar o filme é no final, quando Claude finaliza seu romance acenando com a possibilidade de que ele transou com a mulher do professor, mas a essa altura não há quem sem importe com a dubiedade de traições. O que fica é a impressão de que Germain não é mais que sua inocência e Claude nada além de sua infantilidade amorosa.

Falta muito ao novo filme de Ozon. Ele carece de uma diferença, pois é igual a quase todos os outros. A câmera só filma quem fala, não há extracampo (embora não seja um cinema de fluxo), o off é meramente reiterador de algo que já toma conta da tela. Falta algo que possa lhe dar fôlego, recuperando a alegria de filmar que vimos em Gotas d’água em Pedras Escaldantes (2000) ou mesmo em Angel (2007) que, dos seus trabalhos recentes, parece o único que ainda resiste a certos artificialismos – talvez justamente por ser aquele esteticamente menos óbvio. Aqui, não há nada sobre o fracasso da vida que não seja uma simplificação da própria obra dostoievskyana.

(Dans la Maison, França, 2012) De François Ozon. Com Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto, Jean-François Balmer.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

25th Jul2011

Potiche – Esposa Troféu

by Pedro Henrique Gomes

Alguma coisa sobre alguém

De início logo assusta esse mais recente filme de François Ozon. Motivos diversos: cartaz colorido, cheio de piadas prontas já mesmo no desenho gráfico, elenco consagrado fazendo pose na imagem publicitária. O enredo promete abordar um pouco da mulher moderna, muitas vezes submissa ao homem e relegada ao cargo de dona de casa, infeliz e deslocada, incrédula e passiva. Mas Potiche não apresenta o prazer pelos acontecimentos filmados, não conhece nem aprofunda seus personagens, prefere artificialismos de linguagem, aposta mais no carisma de seu elenco – se encanta mais por ele (Catherine Deneuve, Gérard Depardieu) do que pelos corpos por onde eles se manifestam. Mesmo que o filme propositalmente trabalhe com a ideia do burlesco (o que, de fato, é o caso), basicamente, fica só na superfície de todo um envolvimento dramatúrgico mais consciente. Estranhamente, neste filme de Ozon, o que mais importa é apresentar a atmosfera mais conveniente ao pior do cinema comercial francês contemporâneo: a esteta do artista. Para além de qualquer beleza estética, Potiche se alimenta de um falso-bem-estar, pois não existe frescor em suas imagens e toda movimentação interna (o próprio movimento, o diálogo, a mise em scène) de seus planos não mobiliza ou contribui para qualquer envolvimento do espectador para com os objetos filmados.

O filme situa-se em 1977. Logo de início, temos um plano geral sobre a mansão em que vivem Suzanne Pujol (Catherine Deneuve) e o marido, o poderoso magnata/industrial Robert (Fabrice Luchini). Robert, que é dono de uma fábrica de guarda chuvas (localizada em frente à sua casa), não mede esforços para manter a ordem na fábrica, agindo e tratando a todos em tom austero e dominador. Na relação com a família, espalha a grosseria na casa, seja no trato com a esposa ou com os filhos. Após o sindicato de sua empresa organizar uma greve contra as condições de trabalho, Robert é sequestrado ao tentar negociar e fica retido na fábrica. Como solução, Suzanne resolve pedir ajuda a outro comunista e velho amigo da família, o agora deputado Maurice Babin (Gérard Depardieu). Depois de conseguir resgatar Robert com os manifestantes, Babin se aproxima novamente de Suzanne, com quem teve um caso no passado. Suzanne, por sua vez, durante um período em que o marido fica adoecido, assume as tarefas da fábrica, e atinge um sucesso impensável. Esse é lugar-comum que Ozon utiliza para dar encontrar um espaço factual para Suzanne. É a volta por cima da mulher coruja a grande lição do filme.

A narrativa de Ozon investe num ritmo discursivo-imagético quase avassalador para se eximir de suas fragilidades. Mas, como um presépio mal articulado, Potiche, na contramão dos últimos filmes do realizador francês (Ricky e O Refúgio, principalmente deste segundo), não consegue sustentar seu próprio argumento, cedendo ao clima fácil da família disfuncional que, no fim das contas, aprenderá a conviver em harmonia – apesar dos desentendimentos e dos problemas cotidianos que se acumulam. Os diálogos são apressados (não há um minuto de imagens sem conversas) e muitas vezes redundantes; uma cena é desculpa para a outra; qualquer humor imbuído se torna logo quebradiço e frio; a câmera só mostra a boca que fala e o corpo que se mexe, numa execução fugidia e pouco representativa na obra de um cineasta outrora tão maduro em relação ao movimento e ao plano; a caricatura parece ser a única solução para exprimir dos personagens algum sentimento que lhes reserve algum valor moral ou mesmo táctil (é como se Ozon encontrasse na sátira o único caminho possível para representar imagens de homens e mulheres em perfeita desordem social). A soma das experiências de vida é o mote de toda a dramaturgia de Potiche.

Mesmo sendo sempre um tanto perigoso falar em ritmo, é prudente contestar o desligamento do diretor com uma condução mais equilibrada, como na maioria de seus filmes anteriores (com força máxima em 8 Mulheres, talvez seu grande filme). Surpreendentemente, não existe qualquer dinâmica interna nas cenas, o texto é mal articulado e os diálogos, frágeis; o que nos conduz a uma montagem atabalhoada, coerente com a proposta narrativa, mas incoerente com a lógica da experiência do cinema. O filme acontece num estalo, sem dizer a que veio, no estilo reportagem. Até mesmo a luta de classes, amiúde o ativismo dos trabalhadores, funciona rasteiramente como pano de fundo subaproveitado. A imagem perversa do rico esnobe e as qualidades empregadas na persona do comunista batalhador e incorruptível, na representação clássica dos clichês, atestam a falência de qualquer embasamento político, só destitui e arrefece a forma do filme enquanto discurso. Tanto o magnata quanto o comunista são mais do que suas imagens aqui pintadas. Essa incapacidade política de Potiche (nada a ver com a ética do discurso; o problema é antes de explanação do que de vontade de explanar), transfere para tela uma relação muito tipificada da conjuntura do verdadeiro ativismo, da manifestação e do protesto, e também das próprias formas de governo e presidência, tendendo a deformar sua razão e essência. De nada adianta a desconstrução dos gêneros quando ela não é realizada por dentro, e o olhar de Potiche, a julgar pela tom satírico, parte de fora.

Ozon sai de uma investida no realismo mágico (Ricky) e de um drama (O Refúgio) focado numa mulher buscando seu lugar no mundo para uma comédia de costumes que promete investigar os meandros da sociedade contemporânea em toda sua multiplicidade de ideologias e formas. Muito formalmente, Ozon se empenha em nada mais do que costurar alguns personagens e suas histórias de vida (revirando, aos poucos, seus passados, contando verdades ocultas e segredos de família esquecidos em prol de uma vida-fantasia) para tecer um painel icônico sobre uma série de sonhos prontos disfarçados de pessoas. Pois, para além de qualquer inferência crítica sob seus personagens, Ozon vende uma fusão incapaz de projetar uma ideia rigorosamente não-perecível. Cheio de poses e curvas, como seu cartaz, Potiche é um filme-retrato, um sonho pronto erigido sob um clima cartunesco das possibilidades da vida – e uma vida perversa. Não seria absurdo dizer que Potiche talvez seja o pior filme dele.

(Potiche, França, 2010) De François Ozon. Com Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Fabrice Luchini, Karin Viard, Judith Godrèche, Jérémie Renier.