26th Jun2014

Antes da pele

by Pedro Henrique Gomes

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A primeira coisa que um habitante de outro planeta deve fazer ao empreender uma expedição por mundos desconhecidos é aprender a sua linguagem. Para isso, é necessário se aproximar de suas letras, conhecer as sutilezas de um idioma, os sons, mas também reconhecer as expressões, os não ditos, os mal-ditos, as coisas que se dizem dizendo de outra forma, os movimentos do corpo. Tudo isso – e certamente mais.

Depois, assimilada a linguagem em sua complexidade, com aquele dom místico que só os seres de outras esferas possuem, talvez seja prudente tomar parte de um corpo, para então misturar-se com os seres que lá habitam. Dar forma a si mesmo. Talvez os mais afoitos falem em alteridade, mas vamos com calma.

Agora já se habita um corpo e já é possível se comunicar, através dele, entre iguais.

Em seguida, é recomendável que se encontre uma forma de manter vivo (sabe-se lá como) o corpo e de energizar alma (se for o caso).

Mas aí se corre um risco. Como sabemos, as pessoas podem ser hostis na mesma medida em que revelam gentileza. Além do mais, tem uma coisa que o extraterrestre não consegue captar plenamente. É que o humano domina muito bem a técnica do horror.

21st Nov2012

Paul – O Alien Fugitivo

by Pedro Henrique Gomes

Paul: O Alien Fugitivo parte do princípio de que seu universo não precisa ser explicado. Os personagens, num passeio pela Comic-con (que serve como espaço para identificá-los), são introduzidos sem dificuldades. Na breve cena de abertura, com Graeme Willy (Simon Pegg) e Clive Gollings (Nick Frost) interagindo com as exposições na grande feira mundial de cultura nerd, já temos tudo que é preciso para conhecê-los. No entanto, Greg Mottola faz do filme um reduto de superficialidades. Essa caracterização a priori, do nerd como caricatura de si mesmo, reduz o filme àquilo que ele gostaria de criticar: o banal dos discursos (religiosos, políticos), a dogmatização dos conceitos e das teorias. As piadas são aquelas de sempre, os personagens não diferem muito do carnavalesco tom da comédia apática e acrítica de Hollywood. Embora haja um pouco de gosto e boas intenções (além de certo equilíbrio dramático no planejamento das situações), Paul não consegue superar sua própria ideia e suas possibilidades narrativas. Prefere ficar no caminho entre o riso fácil e o deboche moderninho. Se o filme se esconde atrás de alguns discursos, é apenas para encontrar certo público.

No filme, os ingleses Graeme Willy (Simon Pegg) e Clive Gollings (Nick Frost) estão de chegada à Comic-con, cheios de sonhos e desejos alimentados pelo imaginário coletivo potente que habita aquele lugar. Também estão em busca do local onde, décadas atrás, foi registrada (embora negado pelo exército e pelo governo) uma aparição extraterrestre na Área 51. No caminho eles encontram Paul (voz de Seth Rogen), o resultado do acontecimento mantido em sigilo pelas forças militares. Paul busca, desde então, retornar ao seu planeta, ao mesmo tempo em que tenta se manter longe dos humanos fardados, uma vez que eles querem seu corpo para experimentar com suas células evoluídas (para além da capacidade cognitiva do aparelho físico humano).

Se o criacionismo é de tal modo violento e perigoso nos Estados Unidos, o roteiro prefere artificializar sua repercussão política com respostas de valor à ciência, isto é, abandona qualquer possibilidade de contato com seu reflexo no tecido social americano, quando sabemos que o lobby religioso tem poder e agenda política influente no contexto de banimento das forças imorais contemporâneas. Mais do que dizer que a evolução é um fato é o criacionismo é pseudociência, Paul ridiculariza a fanatismo religioso sem compreender seu próprio ridículo, a pobreza de seu humor físico ou a pura cretinice de seu pastiche de referências. Se um filme não pode mostrar tudo, ao menos deve mostrar mais profundamente aquilo que escolhe colocar na tela. De longe, precipita-se no registro das personas: são vazias e presas ao mecanismo construído pelo roteiro, que consiste em debochar do criacionismo (o que pode ser engraçado, de fato) e rir de si mesmo no percurso. Garante boas cenas principalmente por ter dois atores (Simon Pegg e Nick Frost) há muito sintonizados (desde Todo Mundo Quase Morto, 2004).

Além disso, a intervenção John Carroll Lynch como o típico cristão dogmático que parte numa “missão de Deus” atrás de sua filha que foi capturada pelo demônio (o alienígena) não deixa de ser o lado forte do filme. Ao mesmo tempo em que é comedido na crítica aos dogmas cristãos, todavia Paul o representa com os extremos – as duas armas do patriarca são simbolicamente opostas, a bíblia e espingarda, mas praticamente nocivas quando tomadas em doses desproporcionais de espírito crítico. Com um humor bastante conhecido, que vem desde Um Dia em Nova York (1996) e encontra seu auge em Superbad (2007), em Mottola o caminho do humor é deslizar por entre o corpo de referências que se amontoam diante do assunto e a própria perversidade das suas imagens. No intervalo entre o cretino e o genial, é lá que Paul estabelece seu lugar.

(Paul, EUA/Reino Unido, 2011) De Greg Mottola. Com Simon Pegg, Nick Frost, Jeremy Owen, Jeffrey Tambor, David House, Jennifer Granger, Nelson Ascencio, Jane Lynch, David Koechner, Jesse Plemons, Seth Rogen, Jason Bateman, Sigourney Weaver.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

12th Sep2011

Super 8

by Pedro Henrique Gomes

 

Se muito do esforço de Hollywood para tentar revitalizar a indústria (não no sentido de formar espectadores, pois não é esta a preocupação dos empresários, mas no de vender ingressos; que são coisas absolutamente distintas) está em resgatar histórias clássicas através de refilmagens ou releituras, então Super 8, filme que J. J. Abrams dirige e Steven Spielberg produz, se enquadra em algum espaço aí no meio. Nenhum, nem outro, mas um pouco de cada. Primeiro porque Super 8 não é uma refilmagem em si, mas um pastiche. Ou seja, se utiliza de referências para se movimentar e articular, inserindo-se num espaço não totalmente novo, mas nem por isso necessariamente velho. Segundo, pois, basicamente, reduz a releitura a imagens semelhantes às de certos filmes e se constroi a partir daí, dessa experiência da cinefilia da louvação – que não é pouca. No entanto, Abrams, cinéfilo dedicado, tem dificuldade ao transformar essa atmosfera em uma produção original e autêntica, com potencial que se desenhe e se faça crer relevante dentro uma aventura possível. Ocultado pela falta de frontalidade da narrativa, o dispositivo central da história, que é o mistério do trem que descarrilha e dos acontecimentos incomuns que passam a assustar os habitantes de uma pequena cidade no interior de Ohio, nos EUA, torna-se um assunto de desinteresse, já que o mais importante passa a ser o romance entre dois jovens que presenciam o acidente, a birra que o pai da menina tem com pai do garoto, sendo que isso não produz a emoção genuína presente até mesmo dos piores filmes de Spielberg. Minimizar as situações (porque Abrams prefere espraiar nos movimentos soluções conhecidas do espectador) reduz o impacto do suspense e amplifica a jocosidade dos bons sentimentos.

Jogar para cima das crianças a responsabilidade de salvar e proteger o mundo (os EUA) revela o peso da aventura. Super 8 é claramente um filme para reverenciar suas influências, dialogar com os filmes que “marcaram época” e travar essa relação entre a homenagem e o moderno. Abrams lida bem com a perspectiva do público. Esconde o monstro até quando se torna impossível deixar de mostrar suas feições, entrelaça personagens adultos de maneira a confrontá-los, colocando-os como ameaças aos planos das crianças, filma bem a ação mecânica (a câmera não treme desnecessariamente, exceto quando precisa engendrar um efeito) e não extrapola na música, a exemplo de um filme de Steven Spielberg ou George Lucas. Tal consciência fílmica, não obstante parece sufocar o outro lado da coisa. Pois, quando é assim, o pastiche pelo pastiche, o original será sempre melhor. E é assim porque Super 8 não quer ser mais que isso (mais que um pastiche), quer ser o “filme para toda a família”, quer ser o filme do momento para aliviar o stress, o filme que comprova a permissiva questão base que guia a indústria hollywoodiana: cinema é lazer e só. É ver e pronto, a aventura acabou. Nesse contexto, é difícil pensar nele como algo maior do que um clipe de filmes antigos. Super 8 está aí para lembrar outros filmes, essa nostalgia barata, esse egocentrismo vazio.

E se Super 8 é um sintoma desse cinema explicitamente revogador de mitos antigos, porque não pensá-lo como tal? Aí, também, há esquemas facilmente desmembráveis. Se falamos de um filme-pastiche-homenagem, qual a força criativa verdadeira que esse filme pode ter se o grande foco desse olhar (Spielberg) está também pensando no filme? Não há, assim, ideias, só escolhas de cenas. Homenagem a si mesmo não é cinema de fato. O distanciamento passa a ser contraposto pela aproximação, pela parceria, mas Super 8 não tem mesmo o espírito cativante dos filmes que reverencia (E.T., Os Goonies, Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau), resgatando deles somente as temáticas. Pois tem o extraterrestre, tem a relação pai e filho calcada na obra de Spielberg, tem o olhar distópico sobre crianças e adultos, tem a paixão juvenil. Todavia, há muitos outros cineastas compilando pastiches e transbordando esse cinema de homenagens com muito mais força e sentimento, como Tarantino, Honoré (embora cada um com escolhas também questionáveis) e alguns outros – poucos. No caso de Super 8, a aventura não tem adrenalina, o drama não tem profundidade, o humor rasteja para suplantar-se pela gag da homenagem mais próxima, a moral (do filme e do diretor) é diluída assumidamente dentro de um “Spielberg, eu te amo” estridente.

A desenvoltura já é marcada, só morrerão adultos e desconhecidos, os inimigos farão as pazes, os homens se sensibilizarão com a atitude do vizinho interplanetário, somente a criança (a mente pura e distante dos males da vida) será capaz de se envolver didaticamente com o extraterrestre, compreendê-lo, mostrar o lado branco da força. Diante disso, a expectativa consiste em ver o monstro, não importa o que vai acontecer depois com ele. Após isso, não há mais nada para ser visto em Super 8 (à exceção dos créditos, que trazem as melhores cenas do filme). E o problema não é previsibilidade da trama (se é que podemos falar em trama), tampouco a secura das cenas. O mais funesto de Super 8 é que não importa se ele foi feito hoje ou se tivesse sido lançado há trinta anos, a monotonia das imagens é a única coisa que de fato prospera. Não tem mistério algum, o monstro será humanizado, estará nos seus olhos quando do contato com a criança iluminada. Ele, o extraterrestre, reconhece, como em E.T., que o homem não é de todo ruim, e só reage com violência quando é agredido violentamente. Eis a grande lógica.

(Super 8, EUA, 2011) De J. J. Abrams. Com Elle Fanning, Joel Courtney, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Ryan Lee, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Glynn Turman, David Gallagher, Ron Eldard.