30th Aug2013

“Vocês olham para nós como se fôssemos insetos”

by Pedro Henrique Gomes

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Tradução minha para um trecho do livro Ousmane Sembène: Interviews (Conversations With Filmmakers Series, University Press of Mississippi). Trata-se de uma breve conversa/entrevista entre Jean Rouch e Ousmane Sembène, na qual são discutidas as noções do cinema etnográfico, dos cinemas africanos e das formas de apreensão das culturas africanas através do registro fílmico.

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Um confronto histórico em 1965 entre Jean Rouch e Ousmane Sembène: “Vocês olham para nós como se fôssemos insetos”

Albert Cervoni/1965

Durante o andamento de um confronto hoje considerado “histórico” entre Jean Rouch e Ousmane Sembène, registrado por Albert Cervoni, algumas formulações foram pronunciadas e desde então se tornaram clássicas no que diz respeito ao cinema direto, a etnologia e ao cinema africano. Nós reproduzimos grandes trechos desta entrevista. Isso nos permitiu restabelecer algumas das formulações em sua precisão originais. Desde então, Sembène se recusou a fazer qualquer comentário sobre o cinema de Rouch.

Ousmane Sembène: Os cineastas europeus, você por exemplo, continuarão fazendo filmes sobre a África uma vez que existem tantos cineastas africanos?

Jean Rouch: Isso vai depender de muitas coisas, mas o meu ponto de vista, no momento, é que tenho uma vantagem e uma desvantagem ao mesmo tempo. Eu trago o olhar de um estranho. A noção básica da etnologia está baseada na seguinte ideia: alguém confrontado com uma cultura que lhe é estrangeira vê certas coisas que as pessoas que vivem essa cultura não veem.

OS: Você diz ver. Mas no domínio do cinema, ver não é suficiente, é preciso analisar. Estou interessado no que está antes e depois daquilo que vemos. O que eu não gosto na etnografia, me desculpa dizer, é que não é suficiente dizer que o homem que nós vemos está caminhando, nós devemos saber de onde ele vem, para onde ele está indo.

JR: Você está certo neste ponto porque não chegamos ao objetivo de nosso conhecimento. Eu acredito que, para poder estudar a cultura francesa, a etnologia a respeito da França deve ser praticada por pessoas de fora. Se alguém quer estudar Auvergne ou Lozere, esse alguém deve ser briton. Meu sonho é que os africanos produzam filmes sobre a cultura francesa. Aliás, vocês já começaram. Quando Paulin Vieyra fez Afrique sur Seine seu propósito era de fato mostrar estudantes africanos, mas ele estava mostrando-os em Paris e ele estava mostrando Paris. Aí pode haver um diálogo, e você pode mostrar aquilo que nós somos incapazes de ver. Tenho certeza que a Paris ou Marselha de Ousmane Sembène não é a minha Paris, minha Marselha, elas não têm nada em comum.

OS: Há um filme seu que eu amo, que eu defendo e vou continuar a defender. É Moi, um Noir. Em princípio, um africano poderia ter feito, mas nenhum de nós naquela época tinha as condições necessárias para fazê-lo. Acredito que é preciso haver uma sequência de Moi, un Noir, para continuar – penso sobre isso o tempo inteiro – a história desse jovem que, após a [guerra da] Indochina, está desempregado e acaba na prisão. Após a Independência, o que acontece com ele? Alguma coisa mudou para ele? Acredito que não. Um detalhe: esse jovem tem seus diplomas. A educação não os ajuda, não permite que eles administrem normalmente. E, finalmente, eu sinto que agora dois filmes importantes foram feitos sobre a África: o seu Moi, un Noir e Come Back Africa, que você não gosta. E ainda há um terceiro, de uma ordem particular, estou falando de Les Statues Meurent Aussi.

JR: Eu gostaria que você me dissesse por que não gosta dos meus filmes etnográficos, aqueles em que mostro, por exemplo, a vida tradicional?

OS: Porque você mostra, você fixa uma realidade sem ver a evolução. O que eu mantenho contra você e os Africanistas é que vocês olham para nós como se fôssemos insetos.

JR: Como Fabres teria feito. Vou defender os Africanistas. Eles são homens que podem certamente ser acusados de olhar para os negros como se eles fossem insetos. Mas pode haver alguém como Fabres que, ao examinar as formigas, descobre uma cultura similar, que é tão interessante quanto a sua própria.

OS: Filmes etnográficos muitas vezes nos fazem um desserviço.

JR: Isso é verdade, mas é culpa dos autores, porque nós costumamos trabalhar precariamente. Isso não muda o fato de que na situação atual podemos fornecer testemunhos. Você sabe que há um ritual cultural na África que está desaparecendo: griots estão morrendo. É preciso recolher os últimos vestígios vivos dessa cultura. Não quero comparar Africanistas com santos, mas eles são os monges infelizes que realizam a tarefa de reunir fragmentos de uma cultura baseada na tradição oral, que está em processo de desaparecimento, uma cultura que me parece ter uma importância fundamental.

OS: Mas etnógrafos não colecionam fábulas e lendas apenas dos griots. Não é apenas questão de explicar máscaras africanas. Peguemos, por exemplo, o caso de outro de seus filmes, Les Fils de L’Eau. Acredito que muitos espectadores europeus não o entenderam porque, para eles, esses ritos de iniciação não possuem nenhum significado. Eles acharam o filme lindo, mas não aprenderam nada.

JR: Enquanto filmava Les Fils de L’Eau, eu pensei que ao assistirem o filme os espectadores europeus poderiam fazer justamente isso, ir além do velho estereótipo dos negros sendo “selvagens”. Eu simplesmente mostrei que apenas porque alguém não participa de uma cultura escrita não significa que eles não pensam. Tem também o caso de Maitres Fous, um de meus filmes que provocou debates acalorados entre os colegas africanos. Para mim, isso demonstra a forma espontânea na qual os Africanos são mostrados no filme, uma vez fora de seu meio, escapam desse ambiente industrial e metropolitano da Europa. Um dia, eu exibi o filme na Filadélfia em um congresso antropológico. Uma senhora veio até mim e perguntou: “pode me dar uma cópia?”. Eu perguntei a ela porque. Ela disse que era do Sul e… gostaria de mostrar… esse filme para provar que negros eram de fato selvagens”. Eu recusei. Veja, te dei um argumento. Em acordo com os produtores, a exibição de Maitres Fous fora reservada para casas de arte e cineclubes. Acredito que não se deve levar esses filmes para um público que é muito vasto, mal informado, e sem boa apresentação e explicação. Eu também acredito que as únicas cerimônias das pessoas em Maitres Fous fazem uma contribuição primordial para a cultura do mundo.