13th Jun2012

Sessão de lançamento da revista de cinema Aurora

by Pedro Henrique Gomes

Para quem estará em Porto Alegre em 23 de junho:

Lançamento da primeira edição da revista virtual Aurora, na Sala P.F. Gastal, às 17h00 do dia 23 de junho. A revista reúne uma série de artigos dedicados a mise en scène e uma entrevista de fôlego com o crítico e pesquisador Luiz Carlos Oliveira Jr., autor da dissertação de mestrado “O cinema de fluxo e a mise en scène”, pela ECA-USP.

A sessão apresenta o filme Senhorita Oyu (1951), dos mais belos de Kenji Mizoguchi. Após a sessão, debate com os editores da revista, Leonardo Bomfim (freakiumemeio.wordpress.com) e Pedro Henrique Gomes.

O filme será exibido em DVD, com legendas em português. A entrada é franca!

Minha contribuição é com um texto que examina o classicismo em Otto Preminger (e, claro, a mise en scène). No mesmo dia, após a sessão, disponibilizaremos a revista para download.

Mais informações aqui.

10th Jun2011

Chantal Akerman, de Cá

by Pedro Henrique Gomes

Quando uma imagem produz várias outras

A câmera já está instalada, apoiada no tripé, a espera do verbo. Alguns ruídos e algumas vozes vão surgindo. Chegam algumas pessoas, se apresentam como pessoas da equipe. Chantal Akerman senta na cadeira e começa a responder as perguntas. Esse é Chantal Akerman, de cá, filme de Gustavo Beck (realização) e Leonardo Luiz Ferreira (entrevista). Mas por trás desse único plano, dessa única imagem, há todo um processo rigoroso de marcação de cena (de mise en scène), de composição do quadro único. Não é a toa que Chantal é única no plano (vemos apenas algumas pessoas passando em frente à câmera, mas a totalidade do plano já tem um corpo para lhe preencher), que a cadeira esteja posicionada daquela forma, que o entrevistador não apareça no filme com nada além de sua voz, que a câmera esteja distante o suficiente para não coagir e perto o bastante para poder sentir as vibrações da entrevistada. Leonardo conduz a entrevista com sobriedade, realiza pausas longas entre a formulação da pergunta, manipula bem o suspense. Chantal sente o clima e responde da mesma maneira.

Claro que Chantal faz uma performance, ela evidentemente reconhece o jogo, atua para a câmera logo quando nota sua presença na sala ao lado, dentro do mais singelo naturalismo. Conhecemos e reconhecemos a Chantal cineasta e a mulher de meia idade, com suas crenças, suas ânsias e suas jogadas. A compulsiva sede que lhe acomete a faz tomar pelo menos cinco taças com água, no que ela faz piada. Demonstra o ideal de liberdade presente em grande parte de seus filmes (de A Prisioneira a Jeanne Dielman), elucida o desprendimento de sua relação com uma certa forma de se produzir arte e com a vida regrada através mesmo de sua inquietação visível. Diz que não vai muito ao cinema (em média uma vez por ano), pois prefere escrever. E se Alberto Giacometti disse que, num incêndio, entre salvar um gato ou um Rembrandt, ele salvaria o gato, Chantal deixaria de ir ao cinema para conversar com amigos. Assim como o pintor suíço, a cineasta belga prefere a vida, prefere viver; ela escolhe se jogar no mundo. No fim das contas, esse filme de Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira se trata de escolhas.

A persona Chantal vai se construindo para a câmera, se desnudando para ela. Por ser um filme sem cortes, filmado num longo plano-sequência, abre-se espaço para os silêncios, que para além de tentarem encontrar em si mesmo uma função-fim, revelam tanto quanto qualquer “outro modo de filmar”. Chantal revela-se não só uma potente cineasta, conhecedora de sua linguagem, de suas escolhas, mas também nos permite verificar sua personalidade, criando uma imagem muito poética e um registro íntimo sempre através de gestos, de movimentos, de expressões e de atitudes. O instante em que ela começa a acender um cigarro e, mesmo após ser repreendida por uma integrante da equipe do filme, leva-o a boca e fuma, deliberadamente, sem receio ou remorso, é nunca menos do que validador dessa força. E, após terminar, ainda diz à produtora: “Não se preocupe, já fumei meu cigarro”. Trata-se de uma autoindulgência, de um espírito de liberdade, de uma sensação constante da necessidade de explodir, de transcender, de transbordar os limites da linguagem da vida. Chantal é uma personagem e tanto.

(Chantal Akerman, de cá, Brasil, 2010) De Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira. Com Chantal Akerman.