05th Jul2011

Fantaspoa 2011 – Entrei em Pânico… – Parte 2

by Pedro Henrique Gomes

Rir de si mesmo

A primeira piada de Entrei em Pânico ao Saber o Que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado Parte II, filme do diretor independente Felipe Guerra, já está no próprio título. Um filme imbuído de uma cinefilia carnívora, selvagem, que distribui referências, escancara influências e piadas com o cinema de gênero. Mas se o jogo é esse, dotado de uma vontade primeira em exprimir o máximo possível daquilo que a mistura de formas e conceitos do cinema de horror nos pode ofertar, então a dose justifica as escolhas, as gags, os diálogos. O espaço curto que separa o humor satírico do essencialmente autoreferencial enquadra o olhar do diretor, lhe dá um motivo, uma excitação e uma força muito peculiares. Não há reinvenção da linguagem (não que isso demonstre certo desprezo por um rigor técnico mais acirrado e cuidadoso dentro das possibilidades materiais), não há concepção ideológica acerca dos personagens (nem dos heróis, nem dos bandidos), tampouco um caso de amor banalizante (mesmo que, em alguns momentos, esse humor lançado sobre os corações apaixonados possa indicar certo relaxamento para com sua própria proposta de ironias, existe o deboche, a devassidão, quase a calhordice, apesar do excesso).

O filme se passa sete anos após o massacre que exterminou amigos de Eliseu e Niandra, os únicos sobreviventes. Alguns crimes semelhantes voltam a ocorrer em Carlos Barbosa, interior do Rio Grande do Sul, onde o assassino fantasiado retoma suas atividades mortais numa sexta-feira 13.

Entrei em Pânico… abre mão de um rigor formal, de um experimentalismo barato transmuta-se num intoxicável universo múltiplo de representações fantásticas e violentas – uma violência que, a bem dizer, não se confunde com espetacularização do jorro de sangue, com a inquebrável tremulação da câmera que assola o nosso cinema dito sério para amplificar a sensação do real. O filme de Felipe Guerra de fato reutiliza intertextualmente citações a diversos filmes (até o seriado Chavez recebe homenagem), mas num pasticho bem elaborado de situações que movem a trama a exemplo dos filmes citados. Da violência gráfica brota um torpor incondicional pela brincadeira, pelo registro bárbaro dissecado como se estivéssemos num show de horrores, num teatro dos destroços, inseridos enlouquecidamente numa experimentação que de fato goza o prazer da arte e do próprio experimento.

(Entrei em Pânico ao Saber o Que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado Parte II, Brasil, 2011) De Felipe M. Guerra. Com Rodrigo M. Guerra, Eliseu Demari, Niandra Sartori, Leandro Facchini, Kiko Berwanger, Oldina Cerutti do Monte, Bruna Seimetz, Kasha Lee, Ana Carolina Lufiego