21st Oct2012

Amo o cinema (5 anos de blog)

by Pedro Henrique Gomes

Este blog chegou, ontem, a cinco anos de atividades. Não é muito, mas, sinceramente, não imaginei que fosse resistir tanto tempo. Agradeço aos leitores que acompanham desde o início e os que foram chegando com o tempo. Não vou nomeá-los, você sabem. Espero que possamos seguir dialogando por mais algum tempo, enquanto ainda tivermos forças.

Reproduzo, abaixo, um texto de Jean-Claude Bernardet, publicado no livro Trajetória Crítica (Ed. Martins Fontes). O título é Amo o cinema.

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Sento sempre nas primeiras fileiras. Não há nenhuma distância respeitável a manter entre eu e o filme. O prazer de ser esmagado por uma imagem cinematográfica. O prazer de ser esmagado.

O corpo sempre oferece, de início, uma certa resistência. O objeto cinematográfico válido é aquele que vence a resistência, aquele que abre o corpo para celebrar dentro de uma missa.

Acontece então a grande efusão, os fogos de artifício. Assim como a pedra penetra a água, irradia ondas circulares, o objeto cinematográfico nos desperta para a vida múltipla: o cigarro que a velha senhora apaga dentro do ovo não é só cinismo para com a sociedade, evoca também os seus desejos sexuais, os seus desejos de matança, a ânsia de atingir o centro do mundo, volta à infância… O objeto não fica num só plano, ergue-se sempre mais alto, cai sempre mais baixo. Aproximação mítica.

Só assim pode viver o mito: não se fixa e não vem quando é chamado. O mito lança-se sobre a gente como a água sobre o coelho, violentamente. Cruelmente. Uma sessão de cinema é uma sessão de estupro.

Delírio, n. 1, julho de 1960

13th Oct2012

Porque não sou mais um cinéfilo

by Pedro Henrique Gomes

Fragmentos (para um debate).

O título pode enganar. Continuo sendo cinéfilo, apenas não sou mais um deles. Em determinados momentos Históricos, os cinéfilos precisam aprender a negar os filmes antes de conseguir começar a amá-los. Isso não deveria chocar, mas os cinéfilos precisam também parar de assistir filmes. A ideia de que todos os filmes merecem ser vistos é industrializada (não existem diferenças entre as obras, poderia dizer Adorno – e Horkheimer). Muitos não merecem. E dizer isso não é embarcar numa espécie de paranoia anti-Hollywood (até porque este texto não trata de uma cinematografia, mas de uma certa cinefilia), como dizem os defensores do cinema como entretenimento, uma vez que a crítica aqui é muito mais profunda (embora ainda superficial). Muitas comédias românticas francesas não passam de pastiches mal arrumados da própria comédia hollywoodiana e do “cinema de autor” dos anos 1960 e 70 feito na França (Hollywood sempre foi a melhor indústria a produzir esses filmes). O que dizer do cinema de horror italiano contemporâneo: está em greve desde que Dario Argento desaprendeu a fazer filmes, no início dos anos 1990.

Mas os cinéfilos continuam vendo esses filmes, porque, pensam eles, são cinéfilos e o bom cinéfilo precisa assistir todos os filmes do mundo. Bobagem. Todavia, a cinefilia selvagem não é o mesmo que passar meses assistindo Straub & Huillet, Jean Rouch e Franco Piavoli. É mais e é melhor. Nessa tara doentia, os cinéfilos esquecem o mundo. O cinema pode ser uma abertura para o mundo, não pode ser mais que isso.

Ainda existem cinéfilos pensando que, quanto mais filmes conseguirem assistir, mais intelectualmente argutos serão – cinematograficamente falando. O cinéfilo que assiste “todos os filmes” aliena o conceito – e aliena-se. A máxima “tudo que sei sobre a vida aprendi com os filmes” já não passa de um clichê, além de ser conservadora. A verdade é que é interessante (agora socialmente falando) para o cinéfilo vender sua cinefilia como uma virtude intelectual, como quem conhece a “sétima arte”. Quem assiste “todos os filmes” não assiste nenhum deles. Os cinéfilos esqueceram-se do mundo, pararam de pensar que o cinema nada mais é que o cinema mesmo (forma), e que o mundo está lá fora, querendo ser descoberto. Um mar de sangue em referências espalha-se pelas ruas e pelas experiências e relações. De novo, o cinema é só ele mesmo.

Outra coisa profundamente perniciosa, dizem os cinéfilos, é que o cinema hollywoodiano teria perdido a identidade ou estaria em crise com ela. Entendam o que quero dizer: quem está em crise é a cinefilia. Cá em Porto Alegre, não existem mais cinéfilos. Os poucos que resistem são aqueles que podiam dizer sem corar que aprenderam a olhar o mundo através dos filmes, justamente porque o cinema não era todo o mundo que conseguiam enxergar. Esses cinéfilos e essas cinéfilas frequentam os cinemas porque encontram neles uma forma de resistência e outra de paixão, mais do que meramente para contabilizar mais um filme na planilha. Hoje, todos têm mais de 70 anos. Os cinemas das ruas, ou melhor, aqueles que não estão nos shoppings, são os grandes cinemas. Os cinéfilos, isto é, aqueles que dizem que assistem filmes, no entanto, nunca estão lá. São como personagens fantasmas que habitam um imaginário distante. Os cinemas alternativos são os dos shoppings.

Cinéfilos, parem de assistir filmes e vão tomar um chopp.

13th Jun2012

Sessão de lançamento da revista de cinema Aurora

by Pedro Henrique Gomes

Para quem estará em Porto Alegre em 23 de junho:

Lançamento da primeira edição da revista virtual Aurora, na Sala P.F. Gastal, às 17h00 do dia 23 de junho. A revista reúne uma série de artigos dedicados a mise en scène e uma entrevista de fôlego com o crítico e pesquisador Luiz Carlos Oliveira Jr., autor da dissertação de mestrado “O cinema de fluxo e a mise en scène”, pela ECA-USP.

A sessão apresenta o filme Senhorita Oyu (1951), dos mais belos de Kenji Mizoguchi. Após a sessão, debate com os editores da revista, Leonardo Bomfim (freakiumemeio.wordpress.com) e Pedro Henrique Gomes.

O filme será exibido em DVD, com legendas em português. A entrada é franca!

Minha contribuição é com um texto que examina o classicismo em Otto Preminger (e, claro, a mise en scène). No mesmo dia, após a sessão, disponibilizaremos a revista para download.

Mais informações aqui.

02nd Jan2012

Seleção de textos publicados no blog em 2011

by Pedro Henrique Gomes

Seguindo as postagens de alguns blogueiros, faço aqui a minha seleção de textos publicados aqui nesse blog ao longo do último ano. Sejam os mais acessados ou os que mais gosto ou mesmo os que geraram algum debate. Pretendo escrever mais em 2012 (se bem que quase 200 postagens não é assim tão mal para um blogueiro), sobre assuntos diversos, expandir a pauta do blog.

Cinema:

Melancolia
Bravura Indômita
Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
Planeta dos Macacos – A Origem
A Serbian Film – Terror Sem Limites
Bastardos Inglórios ou o que é o cinema (artigo)
A mediocridade de Harry Potter – 29 conceitos
Drive
Sintomas do cinema hollywoodiano (artigo)
O Assassino em Mim
Os Residentes
Sobre alguns filmes fraturados: A Origem, A Rede Social e Cisne Negro (artigo)
Além da Vida
Machete
Ensaio: Fazer crítica
Ensaio: Fazer crítica (2)
50 livros sobre cinema (2)

Teatro:

A Lua Vem da Ásia
Une Flûte Enchantée

Política:

Algumas palavras sobre marcha da liberdade
Inspiração e revolta
Sobre a censura
Somos toda cultura que existe
Uma tragédia social

07th Sep2011

Cinefilia de volta!

by Pedro Henrique Gomes

Texto extraído do editorial do Cinefilia.

A questão de transformar ou não o Cinefilia em uma revista com edições mensais sempre foi um tema muito caro a todos nós, que escrevemos e discutimos os filmes no site. Ideia esta que já vem agora carregada (e que começa a mostrar sinais de alívio) de um peso mais rigoroso no que tange a organização e a periodicidade de nossas publicações. Essa mudança, entretanto, dialoga diretamente com nossa proposta crítica: de dar espaço a reflexão de maneira a não se perder nas linhas de ser simplesmente um repositório de textos, mas que renova e dá novo fôlego e impulso, a bem dizer, aos nossos redatores e a alimenta a própria criação crítica

A Revista Cinefilia, agora mais amplamente trabalhada, terá edições mensais, sempre com algum tema específico (diretor, movimento etc) ocupando frontalmente nossos olhares. Além do foco central de cada edição, teremos artigos, críticas, entrevistas, ensaios e discussões, visões panorâmicas do cinema estrangeiro vindas diretamente de nossos redatores que vivem fora do país. O visual decerto também muda. Ganha um aspecto mais limpo, com ênfase mesmo nos textos, mas sem perder as imagens e sim nos perdendo nelas e através delas – pois são imagens que representam, afinal, nossa motivação e nosso prazer em escrever. A crítica, para nós, funciona não como um conselho, mas, inversamente, como uma análise possível diante do filme em si. Nesse contexto, a parte visual do site se torna agora bastante responsável pela ambiência dos leitores, pois, antes de tudo, queremos que vocês cheguem aqui e fiquem com vontade de ler os textos. A manutenção de tudo isso, debatida ao longo dos últimos meses por todos nós que fizemos a Revista, privilegia o encontro crítico mais pungente na relação teórico-descritiva, menos superficial e mais abrangente.

Como nossa equipe hoje é formada por uma dezena de redatores, é claro que não teremos, e nem queremos, uma ideia formal estabelecida nos textos. Dentro de cada crítica, será possível distinguir as posições de cada um de nossos redatores, na concordância ou na divergência, pois, logicamente, a Revista não tem opinião única. Inclusive, e principalmente falando em crítica de cinema, um mesmo filme frequentemente terá vários textos publicados, justamente para captar essa vontade de discutir e debater, para além do simples ato de ver um filme. Ao longo das próximas semanas, alguns ajustes ainda serão feitos. Por isso, há material em trânsito que, aos poucos, será implementado. Espero que todos gostem da mudança e sigam acompanhando nossas publicações. Temos certeza que, do lado de cá, não faltará prazer e empenho. Outras novidades ainda surgirão, mas, por enquanto, acreditamos já ter o suficiente para (re)começar.

Para esta primeira edição, não poderíamos pensar em um nome menos significativo senão o de um Eric Rohmer, cineasta que perdemos em janeiro do ano passado. Assim, o que se vê aí, espalhado por uma quantidade considerável de filmes sobre o cineasta francês, é um primeiro passo bastante ousado, já que, como se sabe, escrever sobre Rohmer não é tarefa das mais fáceis. Mas como para o próprio Rohmer a crítica não pode ser tarefa fácil, então topamos o desafio e invadimos seu cinema. Deixemos o resto com os textos.

Além de Rohmer, que recebe destaque à parte, outras imagens compõem a edição. Textos que vão desde A Árvore da Vida, filme de Terrence Malick, vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, e chegam até um cinema bastante diferente como o praticado em Balada do Amor e do Ódio, ambos nas palavras de Bruno Carmelo. Por outro lado, João Paulo Rodrigues escreve sobre os blockbusters Lanterna Verde e Planeta dos Macacos – A Origem. Já o texto de Super 8, filme nostálgico de J. J. Abrams, fica a cargo de Leandro Calbente. Na seção de artigos, Fabio Rockenbach discorre sobre as novas formas da experiência do cinema, como o 3D, enquanto, inversamente, Thiago Borges nos conta como foi o encontro com o crítico e historiador Antoine de Baecque com o público, em São Paulo, por ocasião do lançamento do livro Cinefilia, uma das mais recomendadas leituras sobre cinema e crítica impressa nos últimos anos em língua portuguesa. Por hora, com isso tudo, acreditamos ter dado um bom primeiro passo. Esperamos que apreciem a leitura!

Pedro Henrique Gomes.

Acessem: www.cinefilia.net

25th Aug2011

Um Novo Despertar

by Pedro Henrique Gomes

Desmembrar-se

Jodie Foster, com Um Novo Despertar, acabou fazendo um filme sobre nada. Começar com tal sentença pode soar demasiado sintomático e redutível, mas a experiência de seu mais novo filme (é o terceiro) não consuma seu próprio esboço, que indicava um melodrama pós-moderno calcado na suficiência das relações familiares, na concepção do homem que se afunda em uma depressão causada não somente por seus próprios movimentos e escolhas, mas por toda a sociedade que o cerca, e com a qual ele interage diretamente. A proposta estético-narrativa de The Beaver, que de infantil nada tem (um pouco ao contrário disso, é apenas inocente em sua articulação) é substanciar a relação do homem com ele mesmo (a cura está em si, em liberta-se de si mesmo; expurgar os demônios que assombram a existência) através de princípios metafísicos. Ou seja, a condição do homem moderno, rico e bem-sucedido, uma vez inserido no ambiente capitalista, passa por problemas familiares (como o filho que não quer seguir seu exemplo de maneira alguma, a mulher que não consegue viver ao seu lado e compreender sua situação) que, de alguma forma, o fazem psicologicamente frágil e até insano. Em meio a tudo isso, o que resta de cinema?

Pois o filme começa de fato quando Walter Black (Mel Gibson), embriagado, portanto nada resoluto de suas atitudes, tenta, inutilmente, o suicídio repentino. E ele faz de tudo, ameaça se jogar pela janela, tenta se enforcar no banheiro com o pescoço envolvido pela gravata. Nada dá certo, o que funciona é o inesperado. Num tropeço, a televisão cai sobre sua cabeça, o que faz com que ele perca a consciência (o desmaio) e, mais gravemente, a consciência de seu próprio controle mental (a sanidade). No instante mesmo do acidente, Walter estava com um fantoche de um castor no braço esquerdo. Ao acordar, o castor, através de seu corpo, assume voz e personalidade própria, criando outro corpo (este não-físico) no mesmo. O castor fala através dos lábios de Walter, mas com outra voz, com outra personalidade. Segundo o castor, ele será o guia de Walter, promete tirá-lo da depressão e recolocá-lo no caminho da felicidade – esta é apenas uma das utopias cretinas do filme. E as coisas começam dando certo, pois ele se reaproxima dos filhos e da mulher e retoma suas atividades na empresa que herdou do pai, elevando seu valor de mercado com ideias e implantando uma nova maneira de gerência. Ele não se afasta nem por um segundo do castor, nem no banho, nem no trabalho, nem no sexo. Mas as coisas fogem do controle. Tinham que fugir.

Após certo tempo, em meio a alguns dias de glória, Walter não sabe mais lidar com o castor, foi tomado pela persona autoritária e peremptória do fantoche. Como consequência, acaba disputando o mesmo corpo com ele – que, na verdade, é ele mesmo. E se todo o embate teve início em um acidente involuntário, o fim dele se dará de maneira fruída, forçada, num lampejo de consciência. Apesar de esse registro passar antes por um processo de análise psicológica, esses dois animais esquadrinhando um mesmo braço não respondem pela mesma voz, não compartilham de semelhantes vontades. Mas Walter deveria saber disso quanto resolveu retirar o castor do lixo. Logo o lixo, não por acaso um depósito de tudo aquilo que não presta mais, que não mais nos serve. Mas Walter pegou o mal do mundo para ele, foi essa sua escolha para tentar mudar de vida. E a situação que já era não fácil (o filho menor é ridicularizado na escola, enquanto o maior o odeia), ficou um tanto pior. Nessa trama, não há nada de comicidade (ninguém está brincando com bonecos de pelúcia), é o mais puro drama do burguês solitário que, ao atingir o limite de seu poder, se olha no espelho e, incrédulo, não se vê, não vê nada além de um rosto cansado. O universo é esse, o painel é assim tão simples, mas complica-se por força do capricho. Jodie Foster confia demais em semblantes, não em expressões.

Muito além disso, aqui não existem imagens que não venham acompanhadas por uma tese (a narração em off banaliza tudo) infindável, pois o castor está sempre se explicando. Estamos diante um filme que não se abre para o mundo, já é todo montado na sistemática da aglutinação das personalidades. Rigorosamente, trata-se de um filme que já vem para dar a lição de vida formalmente.

Não sem um tom necessariamente letárgico, a narrativa se esparrama perdidamente pelo caminho do drama mais canalha que se poderia esperar. Como adendo, dramaticamente Mel Gibson não resiste ao close. Há claramente uma carência de recursos dramáticos em sua expressão, e tal deficiência não se reconhece como fraqueza, como limitação, pelo contrário, estimula-se o erro, incentiva-se a provação desgraçada do mau intérprete. Pois a cineasta se apega a esse rosto, e insiste mesmo em filmá-lo abundantemente, de maneira frontal, para saciar seu desejo de instaurar o drama e seus psicologismos internos. Sintomático dos pés a cabeça, Um Novo Despertar se recusa a ser um bom filme.

(The Beaver, EUA, 2011) De Jodie Foster. Com Mel Gibson, Jodie Foster, Anton Yelchin, Cherry Jones, Riley Thomas Stewart, Jennifer Lawrence.