04th Jan2014

Camille Claudel, 1915

by Pedro Henrique Gomes

camille

Para Fabiano Camilo

A personagem ajoelhada, fitando o horizonte. Lá onde nada acontece, portanto onde acontece muita coisa: o anti-efeito-efêmero, grito solitário do olhar, doença do espírito e inflexão da carne. O cinema de Bruno Dumont não é senão a orgia das contradições fundamentais da imagem e de sua “representação”, da violência e de sua grafia, de sua lógica. Desde A Vida de Jesus (1997), seu primeiro filme, esse plano é recorrente. O rosto apropriado pela largueza da câmera logo após vermos a personagem olhando para “o” longe. Na verdade, a personagem está a olhar para . Há uma geografia em jogo (sempre há, agora mais ainda), pedaços compostos de situações e armadilhas do cotidiano emaranhadas no limite da consciência, nas bordas do próprio corpo que, aí sim, conectam-se com aquilo que está ao redor. Antes deste seu último filme era então frequente a visualização de conflitos a céu aberto, personagens perdidas, vulneráveis ao ponto de vista de Deus. Aqui Dumont retrai tudo sem excluir as variações que assinalam sua obra. Eterno Sísifo (não é por acaso que suas personagens estão sempre a subir os rochedos para estarem mais próximas do céu): ele continua sendo o cineasta que já parte do andamento das coisas.

Camille Claudel, 1915 trata menos da violência formalizada e mais da que a precede e a sucede, a dor psicológica, dor de todos os tempos, acronológica e de impossível relativização. Mas já aqui não é possível afastar este filme dos anteriores, no seu melhor (Flandres, A Humanidade) e naquilo que ele tem de pior (O Pecado de Hadewijch, Hors Satan). Os movimentos (Claudel vai subir as montanhas também; vai gritar só), as subtrações e as adições, os medos e os atos desesperados de toda sua obra sempre configuraram um quadro da sanidade e da loucura, não exatamente uma contra a outra, mas confundidas, traçadas em linhas mestras. Sem a moral em si, julgada e condenada já nos enunciados, mas colocada em disputa na forma de uma ética para a liberdade, como era a questão do “ser livre” para o pensamento hegeliano: tudo começa na consciência. Apesar de tudo, inclusive da consciência de si e da moral cristã (estudo de Hegel), a experiência das personagens precisa ser real.

A seu turno, Camille Claudel (Juliette Binoche) tem o ímpeto de devolver seu próprio corpo ao mundo, isto é, recolocar-se do lado de fora, uma vez que, seja qual for o sentido possível de empregar espírito aqui, ele já não está lá para todos os efeitos: está fora. Camille não aceita sua situação de dependência, torcendo para que seu irmão, Paul (Jean-Luc Vincent), venha livrá-la do asilo psiquiátrico em que se encontra. Ela acredita que seu ex-marido, Rodin, sustenta más intenções contra ela. Novamente, na iminência de sua chegada no asilo para uma visita, Camille vai tentar realizar sua vontade de sair de lá, regressar ao mundo dos livres. Seu irmão, poeta de fé, também ele parece atordoado, símbolo da tragédia que é base da teologia agnóstica que o filme inscreve e desenvolve integralmente.

A evidência dessa agonia do viver está ficcionalizada no rosto de Juliette Binoche, imperdoavelmente filmado por Dumont da abertura do plano ao derramamento das lágrimas, quando já não vemos nada além de seu rosto no espaço da tela, nada além de sua expressão dual, que nos leva para os dois lados da loucura, sendo que um é a ideia mesma de normalidade (como em Rimbaud, justamente a referência maior de Paul Claudel, conforme suas palavras no filme). É essa a operação fundamental deste particular, devolver às expressões toda a construção anterior, mais larga, dos espaços e da encenação. Aproximar-se do rosto, mas só depois. Começar dos cantos para submeter à imagem inteiramente a força de um olhar, de um cataclismo porque síntese de uma tragédia irremediável, de rostos (todos) destruídos, golpeados – nesse sentido, aí sim, Dumont está próximo de Bresson.

E se o prelúdio da história já é seu próprio processo intermediário, ficaremos com uma última imagem que não poderá ser o esgotamento nem o fim, apenas uma interrupção daquilo que segue.

(Camille Claudel, 1915, França, 2013) De Bruno Dumont. Com Juliette Binoche, Jean-Luc Vincent, Emmanuel Kauffman, Marion Keller, Robert Leroy, Armelle Leroy-Rolland.

21st Nov2012

Paul – O Alien Fugitivo

by Pedro Henrique Gomes

Paul: O Alien Fugitivo parte do princípio de que seu universo não precisa ser explicado. Os personagens, num passeio pela Comic-con (que serve como espaço para identificá-los), são introduzidos sem dificuldades. Na breve cena de abertura, com Graeme Willy (Simon Pegg) e Clive Gollings (Nick Frost) interagindo com as exposições na grande feira mundial de cultura nerd, já temos tudo que é preciso para conhecê-los. No entanto, Greg Mottola faz do filme um reduto de superficialidades. Essa caracterização a priori, do nerd como caricatura de si mesmo, reduz o filme àquilo que ele gostaria de criticar: o banal dos discursos (religiosos, políticos), a dogmatização dos conceitos e das teorias. As piadas são aquelas de sempre, os personagens não diferem muito do carnavalesco tom da comédia apática e acrítica de Hollywood. Embora haja um pouco de gosto e boas intenções (além de certo equilíbrio dramático no planejamento das situações), Paul não consegue superar sua própria ideia e suas possibilidades narrativas. Prefere ficar no caminho entre o riso fácil e o deboche moderninho. Se o filme se esconde atrás de alguns discursos, é apenas para encontrar certo público.

No filme, os ingleses Graeme Willy (Simon Pegg) e Clive Gollings (Nick Frost) estão de chegada à Comic-con, cheios de sonhos e desejos alimentados pelo imaginário coletivo potente que habita aquele lugar. Também estão em busca do local onde, décadas atrás, foi registrada (embora negado pelo exército e pelo governo) uma aparição extraterrestre na Área 51. No caminho eles encontram Paul (voz de Seth Rogen), o resultado do acontecimento mantido em sigilo pelas forças militares. Paul busca, desde então, retornar ao seu planeta, ao mesmo tempo em que tenta se manter longe dos humanos fardados, uma vez que eles querem seu corpo para experimentar com suas células evoluídas (para além da capacidade cognitiva do aparelho físico humano).

Se o criacionismo é de tal modo violento e perigoso nos Estados Unidos, o roteiro prefere artificializar sua repercussão política com respostas de valor à ciência, isto é, abandona qualquer possibilidade de contato com seu reflexo no tecido social americano, quando sabemos que o lobby religioso tem poder e agenda política influente no contexto de banimento das forças imorais contemporâneas. Mais do que dizer que a evolução é um fato é o criacionismo é pseudociência, Paul ridiculariza a fanatismo religioso sem compreender seu próprio ridículo, a pobreza de seu humor físico ou a pura cretinice de seu pastiche de referências. Se um filme não pode mostrar tudo, ao menos deve mostrar mais profundamente aquilo que escolhe colocar na tela. De longe, precipita-se no registro das personas: são vazias e presas ao mecanismo construído pelo roteiro, que consiste em debochar do criacionismo (o que pode ser engraçado, de fato) e rir de si mesmo no percurso. Garante boas cenas principalmente por ter dois atores (Simon Pegg e Nick Frost) há muito sintonizados (desde Todo Mundo Quase Morto, 2004).

Além disso, a intervenção John Carroll Lynch como o típico cristão dogmático que parte numa “missão de Deus” atrás de sua filha que foi capturada pelo demônio (o alienígena) não deixa de ser o lado forte do filme. Ao mesmo tempo em que é comedido na crítica aos dogmas cristãos, todavia Paul o representa com os extremos – as duas armas do patriarca são simbolicamente opostas, a bíblia e espingarda, mas praticamente nocivas quando tomadas em doses desproporcionais de espírito crítico. Com um humor bastante conhecido, que vem desde Um Dia em Nova York (1996) e encontra seu auge em Superbad (2007), em Mottola o caminho do humor é deslizar por entre o corpo de referências que se amontoam diante do assunto e a própria perversidade das suas imagens. No intervalo entre o cretino e o genial, é lá que Paul estabelece seu lugar.

(Paul, EUA/Reino Unido, 2011) De Greg Mottola. Com Simon Pegg, Nick Frost, Jeremy Owen, Jeffrey Tambor, David House, Jennifer Granger, Nelson Ascencio, Jane Lynch, David Koechner, Jesse Plemons, Seth Rogen, Jason Bateman, Sigourney Weaver.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

03rd Aug2012

Prometheus

by Pedro Henrique Gomes

Se existe uma coisa tão complexa quanto um robô, alguém deve tê-lo desenhado, uma vez que um ente tão complexo não poderia ter feito a si mesmo – esse alguém seria uma entidade superior divina; por exemplo, Deus. O argumento da frase subjacente faz referência a analogia do relojeiro, estruturada pelo teólogo William Paley ainda em meados do século XIX – substitua apenas o robô por um relógio. Ora, este é claramente um filme que vai analisar teleologicamente as narrativas científicas (e o cientificismo positivista-progressista que a assombra) e religiosas (o criacionismo, o design inteligente). A questão é que, em Prometheus, mais recente filme de Ridley Scott, a oposição ciência/religião opera apenas no nível das circunstâncias levantadas pelo roteiro, não faz investidas mais profundas em busca de uma dialética facilmente artificializável.

A questão, ao contrário, parece enveredar para o lado de uma abordagem mais conceitualista dos fenômenos. Ou seja, ao fim e ao cabo, ciência e religião são isso mesmo, isso que está aí. A fé vence onde a ciência ainda não descobriu a “verdade do mundo” – eis a moradia turva do tal Deus das lacunas. A noção cientificista (porque isso também aparece no filme), na outra margem, propõe o conhecimento total dado aos cientistas às luzes do positivismo progressista, o que o filme discute claramente a partir das pequenas convulsões entre os personagens que, cada qual a sua forma de pensar o mundo e a natureza do cosmos e das sociedades, pretendem empreender suas buscas. No entanto, o registro de tudo que é feito paira apenas nas caricaturas deles próprios. O ceticismo de Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) contrasta com a fé cristã da personagem central, Elizabeth Shaw (Noomi Rapace); o cientificismo dos oráculos e o empreendedorismo do capital materializa-se nas partes do robô David (Michael Fassbender).

Sabe-se que Scott retorna, aqui, a um terreno familiar, com uma trama futurista cuja história se passa em algum lugar do Cosmos. O filme cerca uma exploração de cientistas que, fascinados pela possibilidade de uma nova descoberta, rondam uma das maiores querelas do conhecimento humano: a origem da vida. Claro, as formas de vida remontam as sociedades extraterrestres, tecnológica e fisicamente superiores a nossa, dotadas de sistemas interplanetários superdesenvolvidos, e que teriam nos criado – seriam os Engenheiros. A expedição vai à busca do material genético que pode ter dado origem a vida na Terra (sic; contrariando a Evolução). A tecnicização é o confronto (espaço de registro scottiano por excelência).

Se por um lado os conflitos são rasantes, no sentido de que os motivos que os conduzem são exagerados pelo roteiro, permitindo que enxerguemos suas estruturas e seus pontos de corte (o que não é legal num filme, sobretudo numa peça de mistério), todavia a presença de um imaginário caótico e em certa medida desordenado pelas próprias relações de poder (os personagens que estão em vantagem na disputa se alteram constantemente), dão relevância ao discurso. Tal disputa pode ser aparentemente imbecil, uma vez que a busca é claramente suicida (e só irá de fato sobreviver quem tiver fé e quem não pode morrer). Só os Deuses (Engenheiros) restam para reconquistar a Terra, estraçalhada pelas mãos da ignorância humana. E é por isso que não a vale a pena falar em Kubrick, pois um cinema não tem nada a ver com o outro: enquanto o primeiro se pretende misterioso, o segundo é o mistério. Assim, não é difícil perceber que a diferença entre os dois é que Kubrick compreendeu melhor que estética e política namoram, e fez filmes sobre isso (2001, Laranja Mecânica).

Em Prometheus, não existem atitudes deontológicas por parte do não-humano à bordo. David, um destes tantos personagens a desfilar pela história do cinema a completa fascinação pela mecanização das forças humanas; o sobrenatural, mas além: a mente mais capaz e, logo, mais destrutiva, sabe exatamente o que faz, embora não tenha sentimento algum em relação àqueles que fere, não tem moral, embora tenha sido projetado sob uma ética progressista violentamente assassina. David coloca em jogo um plano auspicioso, que faz com que Shaw porte um bebê fruto de uma relação extraplanetária, que resulta numa espécie geneticamente combinada, ainda que mais pra lá do que pra cá. Mesmo agonizando, Shaw mantém a fé (o crucifixo que carrega no pescoço é algo como um tonificante) enquanto se vê entre o esclarecimento de sua ciência e as explicações sobrenaturais da existência humana dadas pelo cristianismo primitivo (no sentido de que sua fé parece ser apenas aceita dogmaticamente). Sua fé persiste (“É o que escolho acreditar”), pois é uma questão ética, de respeito ao presente herdado do pai. Se a ironia da representação da crença na crença significa a superação do niilismo, na outra ponta comercializa o desejo de uma vida que não termina só aqui, oferecendo consolo, ainda que posto em cheque pela razão – Shaw precisa acreditar, e terminará o filme acreditando um tanto mais.

A fatalidade aqui está antes na concepção do que na explanação. Uma história sem respostas não é um propriamente uma história de mistérios. Mistérios residem no subjetivo, mas Scott começa e termina o filme com as mesmas questões que estavam lá antes mesmo dele começar. Se oferecesse respostas, elas provavelmente estariam erradas. Ditadas as estruturas, Prometheus é um placebo.

(Prometheus, EUA, 2011) De Ridley Scott. Com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Rafe Spall, Kate Dickie, Benedict Wong, Emun Elliott, Patrick Wilson.

01st Jun2012

A Tentação

by Pedro Henrique Gomes

Filme político

Um homem está à beira de um abismo (no topo de um prédio, a bem dizer). Outro homem, um policial, está na janela próxima, tentando convencer o potencial suicida a não consumar seu desejo de morte. Gavin Nichols (Charlie Hunnam) é o jovem que está prestes da pular. O detetive Hollis Lucetti (Terrence Howard) é quem tenta persuadi-lo do contrário. Com o passar do tempo, conforme a discussão evolui, Hollis percebe que Gavin não está ali por vontade própria, mas sim que pode ter sido coagido por um terceiro a saltar do abismo antes do meio dia, caso contrário outra pessoa morrerá em seu lugar. Entremeando esse diálogo, A Tentação estabelece seus conflitos através de flashbacks, sendo que o motivo pelo qual Gavin (ateu) está ali, prestes a acabar com a própria vida, é filtrado pelo seu ponto de vista, com o mesmo ocorrendo com o passado recente de Hollis (católico). As crenças de ambos entram em jogo como medidas de persuasão (da parte de Hollis, que versa sobre o seu catolicismo, sua família e os problemas que enfrenta com ela) e de justificação (quando Gavin tenta explicar que não pode desistir da ideia, nem contar exatamente o que lhe faz estar em tal situação). O grande mérito, aqui, é verificar que não importa o exercício do cinema como função-fim (o final da história não significa nada; o embate é explicitamente moral e narrativo), mas a clareza e pertinência com que o desenho é estruturado. E se existem momentos vacilantes, há também aqueles de pura força.

Se o discurso é marcadamente intelectualizado (no sentido de que é, sem meias palavras, ateu, mas não só, pois é também antiteísta), não raro, as conversas entre os personagens representam com facilidade alguns dos argumentos mais simplórios que permeiam a discussão acerca da existência ou não de uma força inteligente antromórfica que dorme acima das nuvens ou mesmo fora do espaço e do tempo – estamos falando, em essência, do Deus cristão. Decerto entrar em discussões filosóficas ou teológicas (seja através dos argumentos a favor da existência de Deus, na via dos três principais: o ontológico, o cosmológico e o teleológico) ou científicas (biologia, astronomia, astrofísica) poderia complexificar a conta a ser paga dentro daquilo que o filme se propõe a narrar. Se por um lado essa ausência enfraquece o ataque ao teísmo (e ao cristianismo em particular), pois fica no comum da argumentação e da disputa filosófica, retratando o fundamentalista como um homem irracional, perdido em sua fé cega, e o ateu, racional e analítico, ponderando ideias e argumentos a partir das evidências que dispõem, todavia reduz a análise àquilo que é mais interessante: a tensão entre as forças fundamentais da religião e a crítica ateísta aos dogmas religiosos. Mesmo que nem toda religião seja essencialmente dogmática, A Tentação faz a crítica justamente daquele lado perigoso que os dogmas e as fés se fazem valer quando da negação do pensamento racional.

Tais como os capítulos que passam e nada do filme de Matthew Chapman (bisneto de Darwin) esconder o jogo: logo fica claro, sem qualquer mistério, o porquê do desdém de Gavin diante da pergunta do “vazio do mundo”, feita por Joe Harris (Patrick Wilson), fanático religioso que descobre a traição de sua mulher, Shana (Liv Tyler), com o próprio Gavin. Joe perguntou se ele não conjeturou a possibilidade desse sentimento de vazio existir em razão da ausência de Deus em sua vida. O ateu sorriu com galhardia. Em outro encontro, Joe convida Gavin e seu amigo Chris, com que divide o apartamento, para uma janta. Os quatro sentam-se à mesa e Joe pede que todos façam uma oração pedindo perdão pelos pecados dos dois (Gavin e Chris). Chris, que é homossexual, parece não se importar muito para além do constrangimento, mas Gavin não aceita o perdão divino e rebate as palavras do anfitrião hostil.

A legitimidade do texto corresponde ao sacrilégio: falar de Deus (ou contra ele) é algo como disputar um terreno inviolável, ultrapassar uma barreira antes intransponível, e é justamente esse o efeito e a intenção do filme – agora sem o Malleus Maleficarum para infestar a livre fruição das crenças. Bruxaria seria o caso se estivéssemos no século XVI. Gavin, ateu convicto, se envolve com a jovem cristã (ou seria apenas mulher de um cristão fundamentalista/literalista bíblico?) já correndo o risco de perdê-la ou de perder a si mesmo. O drama todo é fruto antes de dilemas éticos que sexuais. Para Joe, não importa tanto a traição, a homossexualidade ou mesmo a ausência de Deus, pois os atos não são malignos ou prejudiciais em si. O problema está no sentimento de culpa, de medo: o pecado, o inferno, a punição eterna.

Nesse ponto, é também muito claro aquilo que Chapman pretende com seu filme, que é defender um posicionamento positivo sobre o ateísmo e, também, criticar as instituições religiosas na medida em que elas se pretendem possuidoras dos discursos humanos (e, conceitualmente, sobre-humanos). A Tentação se resolve em meio a uma estética propositalmente naïf – a luz, o plano, o movimento, nada foge ao padrão estético hollywoodiano; os personagens tampouco possuem força expressiva para além das caricaturas desejáveis. Salvo que o filme se insurge diante disso como parte da lógica do discurso que ele mesmo pretende estabelecer, a tragédia é constituinte de sua essência dramática. A bem dizer, não é porque pensar que o irremediável das relações humanas significa arquitetar a distopia, mas é justamente quando se encena o drama que ele corporifica sua resistência.

(The Ledge, EUA, 2011) De Matthew Chapman. Com Charlie Hunnam, Liv Tyler, Patrick Wilson, Terrence Howard.

22nd Nov2011

Tudo Pelo Poder

by Pedro Henrique Gomes

Termo de responsabilidade

Não são poucas as imagens escuras que irrompem no retângulo da tela em Tudo Pelo Poder. E isso pode significar várias coisas ou dar margem a diversas interpretações – umas mais ou menos aceitáveis, outras nem tanto. A primeira é que George Clooney joga claramente com a luz (ou a falta dela) para potencializar as personas de seu filme, e isso é logicamente muito pensado. Nessa lógica, se estabelece sempre um jogo ambíguo entre a luz a sombra, entre o on e off (ressignificado a todo instante ao longo do filme), a verdade e a mentira, a pista e o blefe, a direita e a esquerda. Os homens, vestidos sempre de ternos empolados, emergem da escuridão, alcançam a luz e dão vozes aos altos falantes (com seus discursos apelativos). A fotografia basicamente molda os personagens, dentro da superficialidade que convém (políticos são assim um tanto quanto dúbios, mais que outros cidadãos). Por outro lado, essa luz que corta os corpos dimensiona a estética do drama que Clooney horizontaliza sobre seus personagens com alguma dose de inocência na questão das relações políticas, pois sabemos que campanhas eleitorais jogam também com os sentimentos do eleitorado e não somente com sua ideologia. A luz arregaça os personagens para além daquilo que eles realmente são, já que está em sintonia com a pressão exercida pelo extracampo (a plateia, a câmera da televisão, o povo, o voto). Mike Morris (Clooney), o pretenso candidato a presidência dos Estados Unidos, surge sempre imbuído dessa ambivalência diante da câmera. Ambivalência que está inscrita na própria essência de seus discursos, na raiz das coisas mesmas, na unidade das palavras. Ora, Morris não escreve suas falas, quem as escreve é Stephen Meyers, seu assessor de imprensa, interpretado por Ryan Gosling, mas ele as transpõe em palavras suas.

Em contraponto a isso tudo, a essa teia de relações, que são, sobretudo, humanas, e portanto falíveis, cria o clima pertinente a situação: estão uns nas mãos dos outros, ninguém mantém o controle global do jogo. São todos personagens que parecem regidos por uma moral secundária, do tipo “só tenho ética quando me pagam” ou “só falo a verdade para quem me pagar mais”. Aqui, a capacidade de sustentar o drama é uma virtude, o problema é que o drama é muito pouco, não há conflito nas vivências, nas relações, somente a lógica dos contratempos, dos desencontros, das ações erradas – homens que mentem, omitem, vazam informações. Tudo Pelo Poder parece certo demais de que negar a história anatômica de seu próprio problema já é suficiente para reagir ao desconforto de que suas operações se incumbem, pois elas se baseiam em mecanismos demasiadamente simplistas para um filme de suspense dramático, qual seja, uma narrativa em que a expectativa é uma função-fim. A câmera e os diálogos deixam bem claro que os estereótipos são evidentemente protegidos pelo registro: política é assim, superficial, arquetípica, banalizada. Os encontros, as posteriores traições (que envolvem também jornalistas e colegas), o sexo de brinquedo, quase plastificado, liquidifica-se em algo como um espelho do óbvio, um reflexo das condições de controle sob ideologias e pretensões. Porquanto isso demonstre nada mais do que a apreensão de um mundo de contradições, Clooney se inspira frontalmente na forma de narrar essas incongruências do mundo, essa falibilidade das coisas mesmas, o que lhe dá força – sobremaneira.

E que se salvem os excessos dramáticos (princípios de dramaturgia simplificada, tipificada) e que se salvem as atitudes até bastante bestas que alguns personagens tomam, e que se salve a inconsistência do olhar político (algo que é muito fácil de vazar em um filme que somente de longe trata da política; afinal, Tudo Pelo Poder é mais um filme sobre as entranhas do que sobre a política em si), estamos falando de uma peça incognoscível do processo contemporâneo de filmar o mundo que se assume como tal, que filma o tempo presente. E se o registro é por demais abstrato e figurativo, uma tipologia de corpos e verdades mutáveis, todavia se vê embriagado pela palpabilidade das questões que levanta (religião, pena de morte, aborto; não raro todas ligadas a religião), ainda que porcamente. Tudo Pelo Poder, afora qualquer recalque, é um filme sobre o que está aí.

Mas há algo de inquietante em Stephen Meyers (Gosling), algo que suspende o juízo sobre sua função na ação, no calor do jogo. Talvez seja isso fruto de uma expressividade violenta que lhe escapa, de sua contradição interna (trocar ou não trocar de lado na campanha?) ou mesmo de sua vontade moral. Talvez, tanto a força da tentação ao despojo quanto os limites da consciência que são barrados pelo sentimento de desmoralização determinam a intervenção desse personagem na história – que é a história do futuro dos Estados Unidos -, que altera o quadro porque possui um dispositivo (o segredo de Morris). Meyers termina o filme assumindo sua dubiedade, pois se encontra entre a carreira e a vontade, ainda que ambas sejam, para ele, opostas. Embora isso codifique a conjuntura da encenação para algo como um teatro de fantoches, onde já sabemos antecipadamente seu desfecho e onde somos meros cúmplices de discursos, Clooney trabalha com a noção bastante surrada de que um personagem precisa integralmente dominar o outro para conseguir vencer no drama político mais simplista. Apesar da arbitrariedade, existe uma potência ali, mas que está desencontrada ou mal afirmada (problema mesmo do roteiro, já que Clooney filma bem a tensão dos corpos, os diálogos se afirmam enquanto unidades significativas). E essa perda de poder retira do filme seu grande efeito. Resta então a expectativa.

No entanto, a fruição não atravessa a ação objetiva daquilo que é narrado, e o filme tem um grande mote que é o fato de que o controle das ações de cada personagem está ligado a preexistência do outro, o que os comunica desde sempre, independente da construção dramática individual. Tanto é assim que, quando alguém morre, ou seja, quando a lógica é quebrada, o sistema interno deles entra em colapso. Presenciamos também a composição do plano (elegante, hollywoodiano em todo sangue), a poética da imagem transmitida pela fotografia como algo imanente (tal qual qualquer personagem do filme), a trilha sonora que retransmite a ideia dessa encruzilhada de delações. É inclusive notável o esforço de George Clooney em fusionar seu filme em um caráter minimamente digno de substância, o que ele de fato atinge em seus melhores momentos. Apesar dos desencontros (que não são poucos ou pequenos) Tudo Pelo Poder é tudo menos um filme facilmente dispensável.

(The Ides of March, EUA, 2011) De George Clooney. Com Ryan Gosling, George Clooney, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, Eva Rachel Wood, Marisa Tomei.

24th Oct2011

A mediocridade de Harry Potter – 29 conceitos

by Pedro Henrique Gomes

1. Em todos os filmes da cine-série alguém fala que o bruxinho é a cara da mãe dele.

2. Em todos os filmes da cine-série alguém salva a pele do bruxinho, mas ele leva o crédito por ser o escolhido (the chosen one).

3. Em todos os filmes da cine-série Potter faz uma descoberta inútil.

4. Em todos os filmes da cine-série existe algum objeto que é o mais poderoso dentre esses objetos.

5. Em todos os filmes da cine-série Potter espera o inimigo atacar primeiro.

6. Em todos os filmes da cine-série fica claro que a magia é uma metáfora analógica do cristianismo (sem sexo antes do casamento e da maioridade, além-vida, poderes divinos, ressurreição, sacrifício etc).

7. Em todos os filmes da cine-série há um esforço hercúleo para mostrar o quanto Dumbledore é sábio.

8. Em todos os filmes da cine-série fica claro que Dumbledore não passa de um frasista.

9. Em todos os filmes da cine-série Potter conhece alguém de quem desconfia.

10. Em todos os filmes da cine-série Potter descobre que esse alguém está do seu lado, ao contrário do que pensava.

11. Em todos os filmes da cine-série os diretores tentam mostrar o quanto Harry Potter é especial, até que deixamos de nos importar com ele, pois ele é especial.

12. Em todos os filmes da cine-série alguma varinha falha.

13. Em todos os filmes da cine-série, mesmo tendo suas varinhas em mãos, Potter, Hermione e Ron fogem de alguma coisa.

14. Os três representam a santíssima trindade.

15. Em todos os filmes da cine-série os personagens deixam de usar alguma magia para se salvarem, pois preferem sofrer.

16. Em todos os filmes da cine-série Malfoy demonstra ser um imbecil, mas mesmo assim os diretores insistem em tentar criar um clima entre ele e o escolhido.

17. No final, no momento de maior perigo da cine-série, Hermione e Ron se beijam pela primeira vez.

18. O tão esperado ménage a trois nunca se consuma.

19. O romance de Potter com a irmã de Ron se deu apenas para o herói não ficar sozinho e não morrer virgem.

20. O ensinamento final de Dumbledore é que o amor é a salvação de tudo.

21. Dumbledore reconhece sua mediocridade como frasista, mas não vai embora sem uma última grande lição, já no “céu”.

22. Em todos os filmes da cine-série Harry Potter quase morre, mas ele é Harry Potter.

23. Em todos os filmes da cine-série algum novo personagem olha para ele e diz atônito: “Harry Potter”.

24. Depois nos lembram que ele é a cara da mãe.

25. Potter é sempre acusado de alguma coisa, mas depois prova sua inocência salvando o dia.

26. Dumbledore, o Chuck Norris fundido com MacGyver da geração, já sabia de sua inocência.

27. Lord Voldemort não mete medo nem em formigas.

28. Malfoy não assume sua paixão secreta por Potter.

29. 19 anos depois, o filho de Harry Potter não usa óculos.

28th Aug2011

A Árvore da Vida

by Pedro Henrique Gomes

Pós-experimento

Não se questiona o espírito revitalizador de A Árvore da Vida, filme de Terrence Malick que trás para o cinema contemporâneo uma proposta de interesse na linguagem, propondo não simplesmente o experimento, mas o transbordamento real das possibilidades de esgotá-lo e transcendê-lo de maneira fruída e fragmentada, indo além do filme experimental, que já parece pesado demais diante de tantas imagens que nos surgem frequentemente. Assim, chegamos ao pós-experimento de Malick, onde tudo que foi feito é chacoalhado e revirado em uma espécie de narrativa inorgânica, desterritorializada, e para quem os objetos são o centro do universo fílmico. Malick, cineasta dono de sua linguagem, se instala nesse universo para dele exprimir seus atos extremos, pois é difícil pensar em um filme recente que se aproprie tão fortemente de imagens para representar seus conceitos e enigmas. Apesar do clima mitológico que se engendrou sob a persona de Malick (“lá vem ele com mais uma obra-prima”, “gênio”), sem muito mistério, A Árvore da Vida é um filme sobre relações intermitentes, filme de pulsações, porém indeléveis. Suas marcas estão aí (a formação do Universo) e não poderão jamais ser apagadas.

Criacionismo, cristianismo, relação do pai opressor com filho oprimido/censurado, altruísmo. Propostas infindas. A Árvore de Vida não centra suas imagens (falamos, afinal, em um filme essencialmente de imagens, pois temos poucos diálogos, nada de explicações dadas por palavras, exceto algum didatismo aqui e ali) especificamente sobre tema algum, mas sua desenvoltura perpassa temáticas diversas. Daí a repetição sintomática dos mesmos símbolos. Terrence Malick, esse mito contemporâneo do cinema estadunidense (filma pouco, não concede entrevistas, tampouco fala sobre seus trabalhos), volta com um filme não menos iconográfico do que qualquer outro que ele tenha realizado. Pois é muito evidente o fato de que seu mais novo filme se articula a partir da origem das imagens (a explosão, a formação, as alterações). Após o Big Bang, formam-se as primeiras imagens da civilização – a natureza dá conta de arquitetar os labirintos da Terra, fincar suas raízes e balizar suas represas. Imagens estas que, até o fim do filme, não cessarão em formarem e deformarem suas constituições – do próprio mundo, mas também do humano (o filho que nasce na metade do século XX contrasta com o homem que ele se torna, moderno e inconsciente, irresoluto e perdido na modernidade dos arranha-céus; Malick filma o personagem de Sean Penn quase sempre em contra-plongée, pois só podemos olhá-lo mesmo de baixo). Trata-se, a bem dizer, de um filme bastante único narrativamente, que não renuncia sua ousadia e vertigem para se perder em referências. Se há a construção de um certo olhar, aqui ele é autoral em sua integralidade, e carrega com isso todo o peso desse mundo que almeja partilhar. Logicamente, as virtudes e os defeitos de A Árvore da Vida são provenientes de Malick. Ele é o Deus e o Diabo das ramificações intensas e irregulares de seu filme.

E essa compilação corresponde a um padrão de cinema (de imagem, em melhores palavras) muito específico, atrelado a um universo já bastante conhecido de significação, de signos, de semiótica (não de semiologia) em si, afinal. Pois A Árvore da Vida é todo cheio de imagens-signo, de valores imbuídos, de simbologias concretas, no sentido de que, apesar da forma aparentemente grandiosa e complexa de suas cores e de seus movimentos, elas dizem isso mesmo que parecem dizer, e transcendem o próprio espaço pelo qual o filme se propõe navegar, já que Malick não se utiliza de metalinguagem. A riqueza dos detalhes, da mise em scène, da erudição musical (Brahms é lição de casa entre a família), entorpece a visão, mas não nos furta a rigorosidade do olhar. Apesar de toda beleza plástica, durante um processo analítico possível que se possa lançar sobre essas imagens demanda o reconhecimento de que, no resultado, A Árvore da Vida é um filme puramente estético, e como proposta estética ele é banhado, enfim, de vasta intensidade. De filme potencialmente intenso (ele de fato possui uma força muito intensa, só que mal explanada, neutraliza-se, se escondendo por trás da “beleza da imagem”), passamos a um desperdício da experiência, onde a atmosfera torpe e profundamente extasiada se atrapalha com o discurso.

Por outro lado, apesar da publicidade rigorosa que se criou em torno dele, não há de fato um mistério escondido no filme de Malick, o espectador jamais agirá por coerção, não será levado a crer, ele simplesmente adotará uma crença para si de maneira involuntária em função do efeito da montagem, pois ela descredencia o poder absoluto da própria crença. Quais são os sinais divinos possíveis e imagináveis do filme? O corte de uma cena para outra diversas vezes nos leva abruptamente da Terra (de uma ação tão pacífica e poética quanto o regar das flores) ao espaço sideral (a explosão do Big Bang, a formação do Universo e sua comoção assustadora). O tempo e o espaço de ação configuram um ritmo harmônico, mas uma harmonia mergulhada na desesperadora catarse do belo e grandioso. Tudo bem, um filme destinado ao olhar; mas que olhar é esse? Transcender o corpo e o espírito, encontrar a paz tão somente com o contato físico com seu passado é o suficiente? Também o narrador, que invariavelmente assume voz paralela às imagens, não poderia delegar o poder da experiência, da sensação, há uma ou duas palavras morais, incapazes de dar sentimento para quaisquer imagens. Não é essa a potência do cinema. O cinema é o que está ali, e o que provamos dele muito particularmente. E se realmente existem dois caminhos na vida (!), o da natureza e o da graça, Malick acaba ficando com ambos – pois é o Homem quem alimenta a árvore, a natureza, ele a alimenta e a destroi. A natureza consiste naquilo com a qual o Homem interage (tudo que respira), a graça está nas linhas dos pés do recém-nascido – se não estamos diante de um filme religioso, a superstição emana.

Se o filho mais velho engasga em suas lágrimas, afoga-se na solidão de seu quarto para conversar com certo poder divino, ele se ajoelha e reza num quarto com pouca luz – mas com alguma luz. Se há fé (e há), não estaria ela condicionada antes aos personagens, e talvez somente a eles, do que ao discurso próprio do filme? Pois a existência de fé como crença moral (não como religião), no sentido de que se acredita em algo, é comum a todos, mas a fé do homem (num Deus, num santo, no divino) não torna a existência de Deus mais ou menos factível. E se pensarmos que nessas conversas que os personagens têm com Deus não existem respostas, ou seja, o interlocutor fala sozinho, à espera de um sinal, a existência do Deus mítico desaparece por completo em A Árvore da Vida. A ação do patriarca é educar baseado no rigor absoluto, que, como consequência, “deseduca”, infantiliza e revolta os filhos. O mais velho se rebela contra isso, questiona-o, mas admite que é muito parecido com ele, por isso o nega frontalmente. Há sempre esse diálogo incompleto entre as partes envolvidas no jogo.

Se, nesse ínterim, Malick é pretensioso, um tanto melhor. Não há pior estirpe do que essa dos filmes despretensiosos. A pretensão é um dos atributos do bom cineasta – é o que o move, impulsiona e obstina. O ponto primordial da discussão crítica acerca do filme (e muitas vezes não é isso que se discute) deveria ser o quanto essa pretensão se perde em si, se enclausura na delimitação de uma fé cega, resultando em belas imagens do vazio. Não que, com isso, o filme de Malick exonere suas qualidades, ele apenas distancia seu poder afetivo sobre elas, as perde. De A Árvore da Vida, filme que se pode crer importante, não sai toda sua energia.

(The Tree of Life, EUA, 2011) De Terrence Malick. Com Hunter McCracken, Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Tye Sheridan, Laramie Eppler.