19th Jul2013

Não há nada mais reacionário que a negação do corpo

by Pedro Henrique Gomes

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O mito é o ideograma primário que nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural e artística a elas se referem continuamente.

(Revolução do Cinema Novo, Glauber Rocha)

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A experiência da ocupação da Câmara Municipal de Porto Alegre valeu mais que uma faculdade. A convivência com as várias demandas sociais a partir de muitas pessoas diferentes, de vertentes políticas distintas (mas dentre aquelas que ficam do lado do coração), de partidos vários, de partido nenhum, da religião que se queira, foi emancipadora. A lógica foi subvertida, como já é de amplo saber: coletividade, autonomia, autogestão, horizontalidade, dinâmica sistemática das assembleias democráticas.

Os banheiros eram para todos os sexos, multisexos-plurisexuais, e indiscutivelmente funcionavam com organização e utilização compartilhada com respeito às intimidades. Ali, durante a última semana, se respeitou o corpo do outro. Homens e mulheres entravam e saiam do mesmo box, sem constrangimento, sem coação. Não houve necessidade de imperativos. Mas o que repercutiu na manhã desta quinta-feira 18, mais que isso ou qualquer outra coisa, foi o corpo humano. Ele mesmo, vangloriado, vestido por todos nós, inerente e imanente a todos nós, intrínseco a nossa existência e substância, indissociável de nosso desejo, ele chocou algumas pessoas.

O nu não é uma demonstração de poder, é o poder ele mesmo, toda a força e a inocência do humano. Reclamaram que faltava paz e amor ao movimento, mas quando foram expostos os mais poderosos símbolos desse amor e dessa paz, não compreenderam. Primeiro: estes bravos conservadores não conhecem seus valores. Enxergam no corpo do outro um absurdo que deve ser mantido para si, escondido do mundo, revelado somente para o sexo, para o prazer egoísta. É justamente isso: estas pessoas que se ofendem com a nudez são porcamente violentadas, elas mesmas, pela cultura pornográfica que consomem, associando diretamente o corpo ao sexo. Não percebem a beleza que jaz ali dentro e ali fora, por mais gritante que seja.

O nu dos jovens incomodou os setores moralizantes da cidade, do estado e do país. Disseram que o movimento perdeu a razão, descaracterizou-se, perdeu o foco, vulgarizou o que antes era tão bonito e “pacífico”. Ficaram horrorizados com tamanha imprudência e despudor, logo tachando o ato com suas bravatas conhecidas: “putaria”, “pornografia”, “bando de vagabundos e vagabundas”, “não respeitam a família e as instituições”. Entretanto, não há choque algum por parte dos conservadores da pureza, da aura, quando, amealhadas, acuadas e oprimidas pelo violento sistema de transporte as mulheres sofrem abusos forçados nos corriqueiros esfregamentos dos ônibus. Não lhes incomoda quando podem gozar. Assustam-se com o sexo exposto das mulheres, mas passam coladinhos, e, entre seus amigos machistas, se vangloriam nos churrascos de domingo. Não deveria surpreender a exposição do corpo: ele é tudo que temos. A nudez nada mais é que a pulsão de um sentimento de amor. Não há nada mais reacionário que a negação do corpo nu.

Update: alterei a foto da postagem em 22/07/2013, pois não endosso a atitude do rapaz que aparece segurando o quadro da Manuela, pois isso nada tem a ver com um possível conteúdo político do nu em questão. O nu não deveria chocar, tampouco ser considerado revolucionário. O corpo simplesmente é. Não concordei e não concordo, aliás, com várias atitudes e situações que presenciei durante os dias em que estive na Câmara, e essa autocrítica o próprio Bloco de Luta vem fazendo. Este (o rapaz com o quadro), como outros, foi um impulso bem inconsequente, no mínimo, como está sendo justamente alegado por alguns leitores e amigos. Em meu blog, alterei a imagem, substituindo por outra, sem o quadro da ex-vereadora. Não pretendo, com isso, esconder nada (essas coisas precisam e devem ser explicitadas), mas evitar a “afirmação” do que me pareceu um equívoco e uma imprudência, mas que o texto não deu conta de explicar. O texto, todavia, não se prestou a julgar a ação, a nudez em si de todos os presentes, mas o susto que ainda há com a exposição do corpo. Ele é só sobre isso. As críticas ao que aparece na imagem já existem e são necessárias.

13th Jun2013

Crave

by Pedro Henrique Gomes

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É problemática a relação de Aiden (Josh Lawson) com suas imagens. Ele fotografa cenas de crimes brutais, mas não consegue se relacionar com elas de maneira a não ter que fotografá-las mais. Para ele, toda imagem que registra é o resultado de sua impotência, incapacidade e covardia. Ele não conseguiu salvar a vítima, não pensou e não agiu rápido o suficiente para evitar seu destino trágico e casual, e a consequência desse mundo nefasto está ali digitalmente guardada na câmera e, principalmente, em seu inconsciente. Mas não há nada do inconsciente freudiano, pois ele sabe muito bem onde está falhando e o que deve fazer para tornar o mundo um pouco mais justo.

A justiça que ele persegue apenas no nível das abstrações é a semelhante àquela que o protagonista da série Dexter (2006) realiza impudicamente: livrar a sociedade de uma parte do mal do mundo (os assassinos), isto é, mais do que salvar os inocentes, ambos querem acabar com os criminosos – paradigma das crenças liberais para quem o que importa é tão somente o indivíduo, dual, que vive ou que morre, e as frutas podres merecem morrer. Mas se a linha de pensamento de Dexter está amplamente conectada a uma estrutura dramática simpática a seu reacionarismo (quer dizer, ele é assumidamente conservador), a performance psicológica de Aiden está um pouco entregue ao fluxo das piadas que o diretor Charles de Lauzirika deseja criar.

Mesmo sua interação com o aparato psicológico de Aiden, que parece feito para funcionar sobretudo como forma de diluir a seriedade do drama (e rir dele mesmo), se confunde no encontro com o ritmo de esquemas que o humor pretende estabelecer. Não demora e já existe um jogo formalizado, rigoroso demais para permitir qualquer distância de certo conservadorismo do gênero, em que as piadas só podem funcionar (porque são esquemáticas) como repetição de si ou como afago com um cinema já estabelecido. Mas o mundo das ideias, platônico, em que Aiden vive em alguns momentos é sempre mais interesse que o mundo dos sentidos, aquele real e “tocável”, no qual ele deixa de agir e demonstra toda sua impotência. E é assim pois aquilo que acontece apenas em sua imaginação é apenas isso mesmo: lances esquizofrênicos, momentâneos, que vão passar e morrer juntos como estrutura de “uma história que poderia ter sido”. O seu lado mau, por ele mesmo tão alardeado, não existe. A bem dizer, ele especula ser que nunca será.

Crave está condicionalmente amarrado a essa configuração engenhosa da mente humana: Aiden imagina sempre outra forma de lidar com uma situação, mas nunca consegue tomar coragem e agir. Seu medo é viver covardemente para sempre, e o que em princípio diz respeito apenas à forma do personagem acaba envenenando a própria potência do filme. É em sua relação com Virginia (Emma Lung) que Aiden revela seu vazio. Suas angústias não são coisas pelas quais nos apegamos para tentar desmembrá-las, mantemos sempre certa cordialidade diante dos fatos, diante dessa imbecilidade moderna comum a muitos personagens do cinema americano de hoje – representado fortemente em cenas como as que Aiden gagueja ao falar com Virginia ou em outros momentos de aparente tensão psicológica. O crave do título é impossibilidade da existência, a negação do Ser.

Há claramente uma tentativa de complexificar o pensamento, torná-lo mais sério aqui para satirizar logo ali, ser um pouco de tudo, divertir e assustar, mas o jogo duplo não rompe com o discurso límpido (até mesmo do ponto de vista narrativo) do grande cinema hollywoodiano que articula com maior eficiência a força imagético-ideológica com a possibilidade de narrar as banalidades e as fantasias que nos consomem.

(Crave, EUA, 2012) De Charles de Lauzirika. Com Josh Lawson, Emma Lung, Ron Perlman, Edward Furlong, Christopher Stapleton, William Gines, Michael Renda, Helena Kash.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

02nd Mar2012

A Dama de Ferro

by Pedro Henrique Gomes

A Dama de Ferro é uma inversão da ordem das coisas. É a história abreviada da vida e da carreira política de Margaret Thatcher, a primeira e única mulher até hoje a ser eleita primeira ministra da Grã-Bretanha. Entre a presente reclusão (Thatcher foi ”recomendada” a não deixar sua casa) devido a problemas relativos à sua consciência mental, que por anos castigou aqueles que pensavam diferente de seu ultraconservadorismo. Vive isolada, delirando com o marido falecido e pensando no preço do leite que inflacionou. Como uma narrativa a um só tempo apressada e medida (há algumas cenas boas no filme) a propensão do drama tende a arrefecer, a se desmembrar diante de uma câmera (e notavelmente um texto) preocupado antes em devolver uma imagem (a própria Margaret Thatcher) ao público, ao “retratar” a persona, humanizá-la, através de uma paixão desmesurada pela interprete.

Pois notem que a figura mais notável no filme se perde no limiar que deveria separar a dilatação da biografada e do corpo que a preenche na tela. É Meryl Streep que vemos, não Thatcher. A tensão que emana dos diálogos não dá pulsão a uma trama e a um registro muito além do falso. A diferença entre aquilo que é filmado para com aquilo que se espera retirar em matéria bruta é desigual: a grande calamidade que A Dama de Ferro poderia mostrar é escamoteada, substituída por uma espécie de prosa do desencanto, em que a armadura da protagonista é ser satisfeita com uma corporificação perfeita, que é sempre um artifício prosaico, esse mito da perfeição. O cinema não é um meio de dignificar pessoas que fizeram coisas ruins, mas de mostrá-las ao mundo tais como são, com a menor quantidade de filtros possíveis.

Esse corpo dolorido que se afasta da câmera entrega seus pontos quando a senilidade vence. A maior meritocracia (difícil falar em mérito) de A Dama de Ferro consiste na possibilidade de ele ser um filme francamente alienado. O filme que se pretende político, ou mesmo que pretende biografar uma personagem da história política mundial tão arraigada no poder (foram, afinal, 11 anos), não poderia esquecer-se de falar de política com uma voz efetiva, mais coerente do que aquilo que se espera de um anúncio de shampoo. Ora, não foram tão somente cortes, privatizações e desemprego que o governo Thatcher trouxe para a Grã-Bretanha, e não é caso, por outro lado, de exigir do filme uma demonstração abastada dos fatos, mas sim é obrigação da cineasta complexificar aquilo que mostra e pretende sugerir com tamanha seriedade. O timbre de Phyllida Loyd não cola mais. O desmanche da imagem que projetamos, seja a da personalidade que fora Thatcher e da personagem que lhe deu vida na tela, não sobrevive a dramaturgia de uma encenação nem do teatro filmado que é.

O que importava na política de Thatcher (sempre os de cima, os que têm poder) não era nunca o pequeno produtor, a mão de obra, e o que importa ao filme jamais se distancia também dessa crença torta de que uma imagem (e uma imagem apenas) pode dar conta de remediar um conjunto de problemas. Uma atriz não salva um filme e um filme não é um dado do mundo, mas antes uma percepção que se faz dele. Todavia, um pedaço de resistência que parece sobreviver em meio aos escombros de A Dama de Ferro é justamente aquilo que não é o filme, que não é encenado, não é a ficção em si, mas foi incorporado ao discurso. São as cenas das revoltas civis, os ataques repressivos da polícia às manifestações dos sindicatos (a gosto da então Ministra). As imagens de arquivo que entremeiam as cenas bem demonstram quem foi Margaret Thatcher – o que não serve como elogio, mas como ressalva: a força do filme é a memória fatídica. Incorporar tais imagens ao discurso de fato enriquece a percepção, mas também desloca a retórica do texto: entender Thatcher como um ser humano (falível como todos os outros) não significa mais que assumir uma inocência assustadora em relação aos fatos políticos perpetrados no tecido social. O que fica é a superfície e o artifício.

Personagens carregam traços que são delineados conscientemente, ao contrário da pessoa pública real, que simplesmente o é. Não há dúvida de que a verdadeira ex-primeira ministra possuía crenças baseadas em sentimentos e proposições verdadeiras em relação aquilo em que acreditava, mesmo que, a rigor, quase tudo se mostrasse infundado mesmo a curto prazo (ela mesma viu seu governo ruir). A grande dificuldade em articular e sustentar essa dialética entre o que é passível de ser mostrado em um filme e o que provavelmente deveria ser descartado foi o que faltou em A Dama de Ferro, um filme que fala demais e se esquece de falar ao mesmo tempo. O leite que inflaciona, para espanto da ex-primeira ministra (num momento em que foge as regras e sai de casa para ir ao mercado), é sintomático ao definir a construção da personagem, pois procura elucidar toda a ideia política e a teoria ficcional do filme. Em uma concepção menos apolítica, e, portanto, mais politizada, A Dama de Ferro bem que poderia abrir mão de algumas ideias (a velha narrativa de ascensão e queda de uma personagem filmada no estilo “louvado seja”) e implantar outras (a bem dizer, a robustez que a própria biografada exige, bem como o tema em si). Por isso é que A Dama de Ferro é apenas um castelo de areia.

(Iron Lady, UK, 2011) De Phyllida Lloyd. Com Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Susan Brown.