23rd Apr2013

Uma Garrafa no Mar de Gaza

by Pedro Henrique Gomes

O cinema não tardou em colocar em imagens o conteúdo do livro de Valerie Zenatti, cujo enredo gira em torno das tensões envolvendo a Palestina e Israel. Tensão, pois, logo de partida, é essa a ideia que o filme quer vender: ideia de uma atmosfera impaciente, complicada pela violência de ambos os lados. Isto é, o filme de Thierry Binisti ambiciona estabelecer uma ordem que diz que existe um conflito de interesses históricos, condicionado às mais diversas manifestações (religiosas, políticas, sociais), luta de iguais em que os dois lados estão errados e agem com intransigência, possuem diferenças teologicamente imutáveis, e por isso são irreconciliáveis apenas por culpa do extremismo jihadista, do colonialismo, da repressão do exército israelense nos territórios ocupados e em função do terrorismo do Hamas. Nessa estética de um jornalismo imparcial e com toda a ideologia que ele assume (não por ingenuidade, mas como uma atitude ideológica explícita, de fazer a paz para deixar as coisas como estão, isto é: que Israel mantenha os territórios ocupados e que, assim, os povos possam viver em paz), Uma Garrafa no Mar de Gaza é todo construído sobre a diluição da História. Mas sua amostragem está viciada, e se tem uma coisa que o filme evita é a honestidade em relação à vivência de seus personagens, pois toda não-decisão pela neutralidade de um olhar é uma decisão em si: ela favorece quem está vencendo.

A curva dessa relação aparentemente de iguais, exposta como questão meramente territorial e bíblica, é bastante sinuosa. Se por um lado o fim das hostilidades certamente faria bem aos países da região, todavia o filme de Binisti se dedica a filtrar mensagens de amor que nunca fizeram bem aos conflitos entre palestinos e israelenses – o que é importante frisar é que, se essa crítica é possível e se através dela podemos operar alguma análise mais analítica da situação, é porque o filme se mete nessa confusão, se dispõe a filmar um “assunto real” de relevância histórica conectada com o contemporâneo. Que há pessoas de ambas as frentes que querem viver dignamente e longe das explosões genocidas, isso é fato corrente mostrado a qualquer hora em qualquer telejornal – embora as mesmas imagens da televisão não medem esforços para significar e colocar o conflito em termos do terrorismo palestino contra o medo dos judeus que precisam andar de ônibus.

Por outro lado, é claro que há um atravessamento de fronteiras e de laços afetivos criados na intenção de fazer com que o fogo (ela) e a água (ele) se beijem e enlacem uma relação de subjetividades para além do mundo sangrento que habitam, construindo uma poesia da violência, um retrato dos cotidianos que se desejam secretamente. Nesse ponto, há um respiro de cinema, pois parte da forma para o mundo, e não o inverso. Mas ele logo resolve moralizar o debate, julgar os extremistas, separar o lobo do cordeiro de maneira especialmente relaxada. Há sim o bom e o mal (ou no mínimo a vítima incapaz de articular uma potência própria) nessa história toda: o bom é o que inicia as tratativas, propõe o diálogo, que joga a garrafa no mar e quer, a partir de seu conteúdo, ensinar humanidades ao selvagem. Vem da Europa a lição, da França, pois é a jovem francesa Tal (Agathe Bonitzer), que mora em Jerusalém com os pais, que resolve fazer contato com alguém do outro lado. A partir disso, Naïm (Mahmud Shalaby), que é quem passa a se corresponder via e-mail com ela, se liberta. O palestino passa a ambicionar a Europa, quer aprender francês e passear pela Champs-Élysées.

Mesmo que deformado, plano a plano, por uma estética dos reality shows, Uma Garrafa no Mar de Gaza é eficiente em sua mensagem, que é sobretudo política. E mesmo com isso ele é mais atento que um Tarantino (subversivo da História), um Christopher Nolan (subversivo dos heróis) ou um Honoré dos últimos anos (subversivo dos corpos). Ele se pretende desbravador dos desejos e das angústias de seus personagens, quer tirar deles muitas coisas (uma razão de ser, no caso de Tal), algumas que eles sequer possuem (o direito ser, no caso de Naïm). Se o filme tem alguma beleza, de qualquer forma, essa é a beleza mais óbvia e fácil de ser filmada: a do amor impossível, irrealizável, salpicado pela boa bondade das vítimas neutras no debate.

(Une bouteille à la mer, França/Israel, 2011) De Thierry Binisti. Com Agathe Bonitzer, Mahmud Shalaby, Hiam Abbass, Riff Cohen, Abraham Belaga, Jean-Philippe Écoffey, Smadi Wolfman, Salim Dau, Loai Nofi, François Loriquet.

15th Mar2013

As Mulheres Africanas – A Rede Invisível

by Pedro Henrique Gomes

Há claramente um problema ideológico em disputa quando falamos das “imagens das Áfricas”. Mulheres Africanas – A Rede Invisível, documentário de Carlos Nascimbeni, se enrosca com essa dificuldade. Se por um lado os cinemas africanos querem potencializar a própria voz (possibilidade de narração: poder narrar sua história, a de agora e a de antes, incluindo aí toda a sorte de problemas criados pelos próprios africanos), todavia não precisam do olhar que vem de longe, de uma África folclórica e exótica, que o texto tenta negar, mas as imagens não permitem. Cineastas que nasceram para o cinema no calor dos movimentos independentistas, como Ousmane Sembène (a arte como coisa política na essência) e Djibril Diop Mambéty (a politização imagética das relações humanas e materiais), não tardaram registrar a África eles mesmos. Não exatamente uma África bela e pura, mas também aquela capaz de errar. Discurso que traz para dentro a responsabilidade pelos problemas que existem nos países descolonizados (os cinemas africanos são, afinal, experiências pós-coloniais), sem se deixar levar como vítimas pela história, mas levantando as estruturas de resistência que sempre estiveram lá.

Se o passado colonial desempenhou um papel violento e opressor, não raro a burguesia que assumiu o poder logo após as independências manteve a ordem e a centralidade das narrativas – quase a totalidade da obra de Sembène se dedicou a expor as dimensões políticas das relações institucionais, religiosas e culturais, no seu caso, do Senegal. As mulheres, dentro desse contexto masculinizado e imponderável de conflitos e guerras civis, sempre desempenharam papel importante. O filme de Nascimbeni entrevista algumas, as que venceram. Como se da África tivesse emergido uma sociedade justa e democrática imediatamente ao fim das colônias. Não pelas entrevistadas serem desprovidas de histórias (pelo contrário, a resistência feminina é crucial no desenvolvimento das revoltas dos povos), são frágeis as imagens que as apoiam, pois retiram a simplicidade das falas e a complexificação política que delas emana. É claro que dali surgem respostas importantes na questão da afirmação feminina da cultura, mas trata-se, em tese, da história das vencedoras, de uma África dos leões e das girafas (mas também das lojas da Nike e dos bancos internacionais – dos “ex-colonos”, ora), imagens que vão costurando os depoimentos e esvaziando seus sentidos. Mia Couto sempre fez isso melhor em seus livros (dar voz a mulher), basta lembrarmos de como ele coloca na primeira sentença de “A Confissão da Leoa”: Deus já foi mulher.

Ministras, escritoras e ativistas se colocam frontalmente diante dos problemas. O filme de Nascimbeni resvala, no entanto, é a formulação das questões. É por isso que elas vão dizer que é preciso transformar as tradições (aquilo que consiste, é pertinente recolocar este ponto, nas ideias de Sembène por uma África transformada e capaz de articulação política e intelectual, livre também dos demônios que ela mesma criou), pois a grande substância é ainda mais complexa que a afirmação dos sujeitos políticos, dialoga com a perseverança de um traço histórico irreversível, mas que precisa ser desgarrado das burguesias locais. O filme poderia ter feito isso de várias maneiras, sendo que uma delas consiste na representação das mulheres comuns, não somente as entrevistadas, mas aquelas que não podem ser imagens, aquelas que só podem contemplá-las, quando podem. Mas não adianta ir muito longe: Mulheres Africanas não escapa aos estereótipos do povo.

A música abusiva, que abraça ingenuamente a ideia de uma África meramente musical e dançante, desproporciona a sensibilidade cultural dos povos africanos. Ela é usada ao contrário de sua proporção cultural: o som dos filmes da África aparece de outra forma nos filmes feitos lá, como registro de um entrelaçamento, de uma união, de um grito violento de revolta e de desejo, contra a perspectiva constante de uma cultura e de uma tradição congelada no primitivismo. Para Nadine Gordimer, por exemplo, partir do pressuposto de que a mulher já nasce da costela do homem não serve de muita coisa. Nesse contexto, se a mulher, mais que fixar sua potência e sua liberdade política, precisa recontar sua história. Voltamos a questão dos direitos.

(As Mulheres Africanas – A Rede Invisível, Brasil, 2012) De Carlos Nascimbeni. Luisa Diogo, Leymah Gbowee, Graça Machel, Nadine Gordimer, Sara Masasi, Carmeliza Rosário, John Agyeman, Mgeni Hamisi, Rose Mawile, Tebogo Masehla, Phumzile Matinibela, Zezé Motta.

Publicado originalmente em Papo de Cinema.