01st Mar2013

O Som ao Redor

by Pedro Henrique Gomes

Primeira sequência: a câmera desliza entre carros e paredes do estacionamento de um prédio até chegar ao pátio. Crianças brincam, as babás, pais e mães cuidam cada movimento que realizam. No fundo, outros prédios, provavelmente com outros pátios e quadras cheio de crianças e babysitters. Através do olhar das pessoas que espiam, das janelas de seus quartos, percebemos apenas outras janelas, com outros quartos com pessoas dentro. A relação do olhar do espectador com o tempo e com o espaço é o caminho para o som: no cinema, ele vai se propagar só no tempo e no espaço, na colossal confecção dessa atmosfera tão intimamente conectada com os avatares do real. Mas há, logo de partida, uma dificuldade “no ar”: o que são esses ruídos? o que eles estão dizendo? o que os impulsiona? quais são seus limites? O Som ao Redor é assim mesmo: todo atravessado pela multiplicidade dos fatores em jogo, pelos efeitos do real incidindo no tecido social recifense.

Mas o filme de Kleber Mendonça Filho não adere a teses mais herméticas do que o próprio panorama estético das cidades emana. Nada de mostrar como o corpo social não é tal qual a pólis grega, em toda sua acepção política na questão da afirmação da liberdade humana. Ele filma a coisa mesma, a política (que como nos lembra Hannah Arendt, corrigindo o pensamento comum a respeito dos escritos aristotélicos, nada tem a ver com a ideia de que “todo homem é um ser político” – só é político, para Aristóteles, se for livre, isto é, se tiver acesso a pólis), a relação das pessoas com suas intimidades; sensações, desejos, angústias e a crueldade ululante que toma conta do fluxo dos sonhos (representado com força em uma sequência plenamente temporal e espacial, dignificante da condição repleta de medos e maus sentimentos que tomam conta dos personagens). Ora, o tal som que preenche o espaço (e se espalha ao redor dele) fala também justamente do espaço e do tempo. É das dimensões espaço-temporais que a imagem se serve, sem curvar-se para os limites geográficos da acumulação de vidas vertical e mecanicamente. Ao contrário, O Som ao Redor produz o tempo de acontecimento da ação e o tempo passado; comoção e vingança, laços sociais fragilizados e estilhaçados. Em meio a isso, flashes de um tempo em que as ruas tinham mais árvores e casas sem cerca. Coisas disputáveis, momentos cintilantes de observação social que jamais arrefecem diante da possibilidade de narrar a complexidade do mundo – e de narrar à complexidade do mundo, afinal.

São imagens que combinam (a título apenas de ilustração) com as ideias de Lefebvre sobre a sobrevivência do capitalismo enquanto ele souber criar novos espaços exploráveis. É precisamente isso que a segurança particular vai oferecer aos moradores, a reorganização espacial, isto é, o estabelecimento de mais e mais métodos preventivos, medidas cautelares, walkie talkies a postos. Assim, amplifica-se a sensação do medo, da invasão (de novo, o sonho de todas as noites). Invasão que é, por sua vez, plenamente física, portanto espacial. Difuso e confundido com a convivência dos moradores numa rua de “classe média” do Recife, o som saboreia as várias cores dos interesses humanos. É nesse sentido que ele é importante para as histórias, que são a um só tempo particulares, mas quase todas bem comuns – localizáveis, identificáveis. A própria existência de uma comunidade regulada por uma estagnação de valores simboliza a multiplicação das questões: o especulador imobiliário que se coloca contra a demissão do porteiro em uma reunião de condomínio, seu primo que rouba carros no bairro, a chegada da segurança particular que visa proteger os clientes, os conflitos entre a vizinhança, a mãe que se esforça para cuidar dos filhos enquanto sofre com os latidos de um cachorro vizinho. Todas as coisas tão profundas e tão banais.

A rede de valores, agora monetários, que moldam a representação das pessoas e permeiam as conversas dos habitantes do bairro, dão vazão a essas imagens da agonia. A praia aparece apenas no escuro, no dia em que Francisco, proprietário de vários imóveis da rua, sai para um banho durante a madrugada – o dono da rua vai lá purificar o espírito. Depois disso, os tubarões do Recife só são vistos de cima, lá do alto dos prédios (e dentro deles). Há um delírio coletivo instaurado, uma iconologia se oferecendo para ser investigada e demolida. O ajuste social das ruas transa com a potência desoladora dessa realidade que nos é tão cara. O lastro assustador da violência traça um panorama repleto de microuniversos distantes apesar da proximidade e da semelhança, dos sujeitos do horror. Aquelas construções diferentes, mas todas iguais. Pois a violência de que trata o filme é também estética, e se ela é tão aberrante que fere o corpo em todos os sentidos (da audição a visão), nada mais justo do que, enfim, desmistificá-la, trazer o olhar para dentro, de dentro.

(O Som ao Redor, Brasil, 2012) De Kleber Mendonça Filho. Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, WJ Solha, Clébia Souza, Irma Brown, Albert Tenório, Rivaldo Nascimento, Yuri Holanda, Bruno Negaum.

Publicado originalmente no Zinematógrafo.

14th Nov2012

Quebrando o Tabu

by Pedro Henrique Gomes

Quebrando o Tabu se enreda num terreno conflituoso. Mas o faz por necessidade: há muito que se discutir quando o que está em jogo é a regulamentação das drogas. O filme de Fernando Grostein Andrade logo assume algumas dificuldades: narrar uma pequena história de contradições e interesses com parcialidade – o que é um mérito, pois não há nada menos cinematográfico que o mito da imparcialidade. Capitaneado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o documentário visa desmistificar a lógica e a métrica da produção, da distribuição e do consumo das principais drogas hoje ilícitas (isto é, imorais), embora seja claramente uma peça de defesa da regulamentação e legalização especificamente da maconha. Há, claro, a necessidade de trazer o grande público para dentro do debate, sendo que a ilegalidade das drogas é a alimentação do tráfico, das milícias (o que não aparece no filme, mas deveria) e de uma política opressora que aufere todos seus esforços, suas forças táticas e inteligentes, no combate a um inimigo que foi por ela mesma criado.

O argumento é o seguinte: drogas sempre foram consumidas pela espécie humana, em muitos dos registros históricos conhecidos. Além disso, elas constituíam parte de toda uma simbologia cultural, preenchiam cultos religiosos que contribuíam na ligação do corpo com o espírito. Com o início das políticas repressivas, o movimento de combate às drogas conduzido pelo governo dos Estados Unidos, sob a massiva propaganda de guerra à época da invasão do Vietnã pelos EUA, logo ganhou força em outros países. Se a Lei Seca americana já havia incentivado uma rede inteira de mercados de produção e venda de bebidas alcoólicas no início do século passado, hoje, a política criminalizante e estritamente punitiva contra as drogas não corrigiu os problemas do consumo irresponsável (uma questão bastante discutível) e potencializou o uso marginal, assim como deu poder ao tráfico para depois querer tirá-lo sob o pretexto da salvaguarda da moral e da segurança. Política de contradições e interesses, que também não aparecem no filme, a guerra as drogas não falha porque é ineficiente, mas porque cria monstros que ela mesma visa combater.

Neste ponto, o filme Cortina de Fumaça, Você Precisa Ouvir o que Eles Têm a Dizer (2011), de Rodrigo Mac Niven, assusta muito mais os discursos opressores. Menos badalado e menos visto, o filme de Mac Niven aprofunda a questão ao retirar o estigma do usuário doente e levar a questão para longe das disputas de ego. Cortina parte de onde Quebrando o Tabu termina: após a regulamentação, resta todo o processo produtivo pelas cooperativas e as redes de consumo que plantam e usam as drogas para fins medicinais e recreativos. Grosso modo, a diferença entre os filmes é que, enquanto Cortina de Fumaça não chama o usuário de doente, Quebrando o Tabu o faz; o primeiro reconhece que a política antidrogas é uma política de combate às classes mais baixas. Ora, se a produção e consumo de drogas sempre fez parte da espécie, não há mal em seu uso – o que precisa é um programa educativo pungente, como mostram os dois filmes; aqui, o filme ancorado pelo ex-presidente vai mais fundo.

Mais que apresentar ex-presidentes arrependidos de suas atuações frente ao combate, Quebrando o Tabu perde a oportunidade de conectar-se à disputa ainda mais profunda. O que fica claro é uma carência de um posicionamento mais crítico, que escape à questão moral e não sucumba à publicidade dos discursos. Ora, se usuários de drogas não são criminosos, não são necessariamente doentes, como diz FHC. Se, por um lado, rever uma opinião equivocada é atitude honrada – e o filme apropria-se disso como bandeira – a mera exposição culpada daquilo que poderia ter sido não é sustentação suficiente para a defesa de um argumento. Há muito mais a fazer do que apresentar casos internacionais (Holanda, Suíça, Suécia, Portugal), pois há também toda uma teia de complexas relações materiais e de classes a ser compreendida e levada à análise.

A trilha sonora revela algo dos discursos. Ao contrário de Cortina de Fumaça, em que o silêncio é muito, não há diálogos sem música pontuando as falas em Quebrando o Tabu. Todavia, Fernando Grostein coloca pais lamentando a dureza de ver filhos viciados, quando, a bem dizer, o debate do filme não é este. Assim, persiste a ideia do preto, pobre, maconheiro e doente, uma vez que o menino de classe média é apenas vítima do poder coercitivo do tráfico e das substâncias viciantes contidas nas drogas. Quebrar o tabu é estraçalhar com outras situações.

(Quebrando o Tabu, Brasil, 2011) De Fernando Grostein Andrade. Com Fernando Henrique Cardoso, Bill Clinton, Jimmy Carter, Anthony Papa, Ruth Dreifuss, Paulo Coelho, Dráuzio Varella, Ethan Nadelmann, Gael García Bernal, Gro Harlem Brundtland, Moisés Naím, Gregory Lannes

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

31st Aug2011

Pacific

by Pedro Henrique Gomes

Sobre eu e sobre você

Durante uma viagem, é natural ver diversas pessoas saírem a registrar (em vídeos, fotografias) com suas câmeras e seus portáteis os momentos vividos, salvaguardando “os instantes” para a posteridade, guardando em imagens as lembranças dos lugares e das pessoas que conhecem para não serem traídas pela memória. Num cruzeiro rumo a Fernando de Noronha, próximo ao Réveillon de 2008/2009, no qual estava a bordo a produção do filme, algumas dessas pessoas tiveram suas filmagens emprestadas à equipe para uso em um futuro documentário sobre essas gravações. Pacific, o filme realizado a partir dessas imagens anônimas, dirigido por Marcelo Pedroso, faz a colagem a partir do olhar que esses pequenos filmes possuem indistintamente (tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais) para elaborar outro olhar através do filme que os abraça, e esse tem a visão do diretor. São pessoas estranhas umas as outras, mas que essencialmente compartilham da mesma excitação pela aventura, o mesmo desejo em conhecer lugares e pessoas – um desejo também que deve ter contagiado Pedroso, no que diz respeito a conhecer o outro para conhecer a si mesmo.

Marcelo se apropria dessas imagens captadas aleatoriamente por grupos familiares diversos para construir uma visão de mundo, buscando olhar o cotidiano a bordo de um grande cruzeiro (veja bem, com todas as altercações psicossociais que possam existir quando se mistura um contingente tão vasto de pessoas e seus “modus operandi”), no intuito de constituir uma narrativa. Mas para dar forma, corpo e roupagem a essa estrutura bastante delicada de processos cognitivos do coletivo, só mesmo deixando que a espontaneidade com que essas imagens foram captadas se perca nela mesma, se contamine de uma razão possível de ser, pois é muito certo que cada família tenha fé em sua história e sua maneira de registrar o momento, restando ao diretor apenas organizá-las, daí surge o conhecimento compartilhado para conectar experiências peculiares aos olhares que se sobrepõem a todo instante na tela (o dos personagens e o do próprio Marcelo). O que, logicamente, faz de Pacific um filme de montagem, onde a partir daí, de seu fluxo experimental de cenas, seja erigida uma narrativa externa.

Mas o que torna Pacific um filme até mesmo encantador é a impossibilidade de o diretor interferir na ação do jogo (ninguém sabia que estava “atuando” para um futuro filme a ser exibido em cinema) e como isso não o torna epicentro para pequenos filmes desfilarem suas irreverências, mas um espaço crítico onde todos podem conviver e aglomerarem-se para construírem uma história só, uma história que diz muito de nossa própria sociedade – de nossos costumes, escolhas, sonhos e ilusões.

(Pacific, Brasil, 2009) De Marcelo Pedroso.

Texto escrito em 26/04/2011 por ocasião do CineEsquemaNovo 2011.