13th Oct2012

Porque não sou mais um cinéfilo

by Pedro Henrique Gomes

Fragmentos (para um debate).

O título pode enganar. Continuo sendo cinéfilo, apenas não sou mais um deles. Em determinados momentos Históricos, os cinéfilos precisam aprender a negar os filmes antes de conseguir começar a amá-los. Isso não deveria chocar, mas os cinéfilos precisam também parar de assistir filmes. A ideia de que todos os filmes merecem ser vistos é industrializada (não existem diferenças entre as obras, poderia dizer Adorno – e Horkheimer). Muitos não merecem. E dizer isso não é embarcar numa espécie de paranoia anti-Hollywood (até porque este texto não trata de uma cinematografia, mas de uma certa cinefilia), como dizem os defensores do cinema como entretenimento, uma vez que a crítica aqui é muito mais profunda (embora ainda superficial). Muitas comédias românticas francesas não passam de pastiches mal arrumados da própria comédia hollywoodiana e do “cinema de autor” dos anos 1960 e 70 feito na França (Hollywood sempre foi a melhor indústria a produzir esses filmes). O que dizer do cinema de horror italiano contemporâneo: está em greve desde que Dario Argento desaprendeu a fazer filmes, no início dos anos 1990.

Mas os cinéfilos continuam vendo esses filmes, porque, pensam eles, são cinéfilos e o bom cinéfilo precisa assistir todos os filmes do mundo. Bobagem. Todavia, a cinefilia selvagem não é o mesmo que passar meses assistindo Straub & Huillet, Jean Rouch e Franco Piavoli. É mais e é melhor. Nessa tara doentia, os cinéfilos esquecem o mundo. O cinema pode ser uma abertura para o mundo, não pode ser mais que isso.

Ainda existem cinéfilos pensando que, quanto mais filmes conseguirem assistir, mais intelectualmente argutos serão – cinematograficamente falando. O cinéfilo que assiste “todos os filmes” aliena o conceito – e aliena-se. A máxima “tudo que sei sobre a vida aprendi com os filmes” já não passa de um clichê, além de ser conservadora. A verdade é que é interessante (agora socialmente falando) para o cinéfilo vender sua cinefilia como uma virtude intelectual, como quem conhece a “sétima arte”. Quem assiste “todos os filmes” não assiste nenhum deles. Os cinéfilos esqueceram-se do mundo, pararam de pensar que o cinema nada mais é que o cinema mesmo (forma), e que o mundo está lá fora, querendo ser descoberto. Um mar de sangue em referências espalha-se pelas ruas e pelas experiências e relações. De novo, o cinema é só ele mesmo.

Outra coisa profundamente perniciosa, dizem os cinéfilos, é que o cinema hollywoodiano teria perdido a identidade ou estaria em crise com ela. Entendam o que quero dizer: quem está em crise é a cinefilia. Cá em Porto Alegre, não existem mais cinéfilos. Os poucos que resistem são aqueles que podiam dizer sem corar que aprenderam a olhar o mundo através dos filmes, justamente porque o cinema não era todo o mundo que conseguiam enxergar. Esses cinéfilos e essas cinéfilas frequentam os cinemas porque encontram neles uma forma de resistência e outra de paixão, mais do que meramente para contabilizar mais um filme na planilha. Hoje, todos têm mais de 70 anos. Os cinemas das ruas, ou melhor, aqueles que não estão nos shoppings, são os grandes cinemas. Os cinéfilos, isto é, aqueles que dizem que assistem filmes, no entanto, nunca estão lá. São como personagens fantasmas que habitam um imaginário distante. Os cinemas alternativos são os dos shoppings.

Cinéfilos, parem de assistir filmes e vão tomar um chopp.

07th Sep2011

Cinefilia de volta!

by Pedro Henrique Gomes

Texto extraído do editorial do Cinefilia.

A questão de transformar ou não o Cinefilia em uma revista com edições mensais sempre foi um tema muito caro a todos nós, que escrevemos e discutimos os filmes no site. Ideia esta que já vem agora carregada (e que começa a mostrar sinais de alívio) de um peso mais rigoroso no que tange a organização e a periodicidade de nossas publicações. Essa mudança, entretanto, dialoga diretamente com nossa proposta crítica: de dar espaço a reflexão de maneira a não se perder nas linhas de ser simplesmente um repositório de textos, mas que renova e dá novo fôlego e impulso, a bem dizer, aos nossos redatores e a alimenta a própria criação crítica

A Revista Cinefilia, agora mais amplamente trabalhada, terá edições mensais, sempre com algum tema específico (diretor, movimento etc) ocupando frontalmente nossos olhares. Além do foco central de cada edição, teremos artigos, críticas, entrevistas, ensaios e discussões, visões panorâmicas do cinema estrangeiro vindas diretamente de nossos redatores que vivem fora do país. O visual decerto também muda. Ganha um aspecto mais limpo, com ênfase mesmo nos textos, mas sem perder as imagens e sim nos perdendo nelas e através delas – pois são imagens que representam, afinal, nossa motivação e nosso prazer em escrever. A crítica, para nós, funciona não como um conselho, mas, inversamente, como uma análise possível diante do filme em si. Nesse contexto, a parte visual do site se torna agora bastante responsável pela ambiência dos leitores, pois, antes de tudo, queremos que vocês cheguem aqui e fiquem com vontade de ler os textos. A manutenção de tudo isso, debatida ao longo dos últimos meses por todos nós que fizemos a Revista, privilegia o encontro crítico mais pungente na relação teórico-descritiva, menos superficial e mais abrangente.

Como nossa equipe hoje é formada por uma dezena de redatores, é claro que não teremos, e nem queremos, uma ideia formal estabelecida nos textos. Dentro de cada crítica, será possível distinguir as posições de cada um de nossos redatores, na concordância ou na divergência, pois, logicamente, a Revista não tem opinião única. Inclusive, e principalmente falando em crítica de cinema, um mesmo filme frequentemente terá vários textos publicados, justamente para captar essa vontade de discutir e debater, para além do simples ato de ver um filme. Ao longo das próximas semanas, alguns ajustes ainda serão feitos. Por isso, há material em trânsito que, aos poucos, será implementado. Espero que todos gostem da mudança e sigam acompanhando nossas publicações. Temos certeza que, do lado de cá, não faltará prazer e empenho. Outras novidades ainda surgirão, mas, por enquanto, acreditamos já ter o suficiente para (re)começar.

Para esta primeira edição, não poderíamos pensar em um nome menos significativo senão o de um Eric Rohmer, cineasta que perdemos em janeiro do ano passado. Assim, o que se vê aí, espalhado por uma quantidade considerável de filmes sobre o cineasta francês, é um primeiro passo bastante ousado, já que, como se sabe, escrever sobre Rohmer não é tarefa das mais fáceis. Mas como para o próprio Rohmer a crítica não pode ser tarefa fácil, então topamos o desafio e invadimos seu cinema. Deixemos o resto com os textos.

Além de Rohmer, que recebe destaque à parte, outras imagens compõem a edição. Textos que vão desde A Árvore da Vida, filme de Terrence Malick, vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, e chegam até um cinema bastante diferente como o praticado em Balada do Amor e do Ódio, ambos nas palavras de Bruno Carmelo. Por outro lado, João Paulo Rodrigues escreve sobre os blockbusters Lanterna Verde e Planeta dos Macacos – A Origem. Já o texto de Super 8, filme nostálgico de J. J. Abrams, fica a cargo de Leandro Calbente. Na seção de artigos, Fabio Rockenbach discorre sobre as novas formas da experiência do cinema, como o 3D, enquanto, inversamente, Thiago Borges nos conta como foi o encontro com o crítico e historiador Antoine de Baecque com o público, em São Paulo, por ocasião do lançamento do livro Cinefilia, uma das mais recomendadas leituras sobre cinema e crítica impressa nos últimos anos em língua portuguesa. Por hora, com isso tudo, acreditamos ter dado um bom primeiro passo. Esperamos que apreciem a leitura!

Pedro Henrique Gomes.

Acessem: www.cinefilia.net