07th Sep2012

Os Mercenários 2

by Pedro Henrique Gomes

Não é muito difícil prever qual dos mercenários morrerá para que os outros possam dar início a um plano de vingança (plano de vingança é eufemismo para “ataque a qualquer custo”). O diretor Simon West apenas prepara o espectador para quando isso ocorrerá enquanto inscreve nos corpos dos seus homens todo clamor que suas mãos pedem. Quando isso acontece, temos, encarnados em personagens deles mesmos, todos aqueles combatentes que já conhecemos, outra vez liderados por Stallone, prontos para encontrar o assassino do companheiro. Um fim, aliás, catalisador: não é com menos requinte que morre o mercenário após ser apunhalado no peito por Jean Vilain (Van Damme). A missão era parte de uma dívida que Barney Ross (Stallone) mantinha com Mr. Church (Bruce Willis), daí a vingança ser apenas o passo lógico subsequente. A missão perde o foco e inicia-se a caçada não por aquilo que aparenta ser o objeto de desejo dos mercenários, mas por aquele espaço subjetivo da memória onde residem as lembranças de cada um deles. Basicamente, é isso que buscam, reavivar a consciência e a memória de tempos em que eram ágeis, mais fortes, mais resistentes e talvez mais humanos.

O sangue continua jorrando para todo canto da tela, assumindo o tom jocoso da mise en scène, que é ela mesma fonte desse registro nostálgico e selvagem que impulsiona o filme. É através da eficiência da ação que os mercenários podem exibir suas atrofias e seus enrijecimentos musculares, que não se submete ao desenho técnico fantástico dos filmes contemporâneos, pois é rasgado e sujo, mais pobre e um pouco mais podre que qualquer outro. Mas as coisas já não são tão simples assim. Se no primeiro filme o personagem de Barney Ross não foi capaz de vencer um rival no soco (um rival, aliás, muito maior que ele; de quem levou uma surra), ele agora reconhece mais ainda o peso da idade e age com tal consciência. Para derrubar um oponente mais forte, é preciso unir forças – e é justamente o que acontece numa cena em que ele e Lee Christmas (Jason Statham) protagonizam a derrubada de um “gigante”. É questão de adaptação, não somente de força.

Pois se a ideia de um filme como este é mostrar os poros, que isso não seja feito com a complacência que o resto do mainstream tem para com seus heróis (ou anti-heróis), onde eles são ou os salvadores ou os destruidores do mundo, quase sempre irremediavelmente bons ou brutais. A lógica que dá razão e liberdade ao diretor Simon West, e da qual ele se reveste sem vergonha, formula a passagem de qualquer brincadeira com a própria desfiguração de cada um daqueles monges do cinema de ação americano dos anos 1980 para um estado em que nada poderia operar de outra maneira. É só realizando o alargamento de todas as excentricidades que um filme como este poderia funcionar para além dos esquematismos aos quais já nasce conectado; só com o grito sangrento dos dinossauros é que Os Mercenários 2 faz sentido em existir com tal força, com tal violência e com tal didatismo. Não é necessário salientar coisa alguma, pois Os Mercenários (este ainda mais que o anterior) surge imbuído de todo um repertório criativo e imaginário que o outorga o direito de existir assim: feio.

E é assim pois a beleza não parece ser, aqui, o mesmo que o conceito de belo. Evidentemente, não é o belo natural que West quis filmar, mas o belo artístico, configurado na beleza da violência gráfica e acachapante que atinge o espectador – o que fica evidente na cena em que temos Stallone e Bruce Willis a bordo de um avião, negociando um próximo trabalho, com a dramatização efetivamente conduzindo o espectador numa troca de farpas e ameaças de vingança canhestra. Nada mais poderia representar a crueza do que os interesses de uns homens sobre outros. O cinema sempre se permitiu gozar o doentio sem ressentimentos ou prazeres culpados. Nesse sentido, Os Mercenários 2 é o filme-síntese dessa estética. Eles não ficam mais com as mocinhas, alguns sequer são notados por elas, quando não são ridicularizados. Se por um lado a orelha de Toll Road (Randy Couture), a boca de Ross (Stallone), a vida amorosa Lee Christmas (Statham) e o alcoolismo de Gunnar (Dolph Lundgren) sintetizamos defeitos dos mercenários, por outro isso é também a força deles. Trata-se de uma reviravolta ultrajante para o contexto todo particular que envolve os filmes de ação hollywoodianos.

Na iminência das armas e do inimigo, a salvação heroica (cinematográfica) vem com peso da nostalgia quando outros dinossauros salvam aqueles que estão em perigo e, por isso, mais pedaços de corpos irão aos ares, mais tanques explodirão, mais cicatrizes ficarão expostas. Por isso, Os Mercenários é político, mas no sentido das forças individuais e coletivas que o constituem e não dos discursos politicamente engendrados. Ao abrir as feridas e colocar os dedos sobre elas para vê-las sangrar, o filme encerra a questão sobre a docilidade dos filmes de ação. A política existe no nível em que se faz desnecessária, podendo emergir apenas no contexto – os soviéticos, a Guerra Fria e o desenvolvimentismo das práticas liberais são panos de fundo para o resgate histórico. A História é a memória. Assim, nada mais justo: o símbolo da vitória pode agora ser pendurado na parede.

(The Expendables, EUA, 2012) De Simon West. Com Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Chuck Norris, Jean-Claude Van Damme, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Terry Crews, Randy Couture, Liam Hemsworth, Scott Adkins, Nan Yu.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

24th Oct2011

A mediocridade de Harry Potter – 29 conceitos

by Pedro Henrique Gomes

1. Em todos os filmes da cine-série alguém fala que o bruxinho é a cara da mãe dele.

2. Em todos os filmes da cine-série alguém salva a pele do bruxinho, mas ele leva o crédito por ser o escolhido (the chosen one).

3. Em todos os filmes da cine-série Potter faz uma descoberta inútil.

4. Em todos os filmes da cine-série existe algum objeto que é o mais poderoso dentre esses objetos.

5. Em todos os filmes da cine-série Potter espera o inimigo atacar primeiro.

6. Em todos os filmes da cine-série fica claro que a magia é uma metáfora analógica do cristianismo (sem sexo antes do casamento e da maioridade, além-vida, poderes divinos, ressurreição, sacrifício etc).

7. Em todos os filmes da cine-série há um esforço hercúleo para mostrar o quanto Dumbledore é sábio.

8. Em todos os filmes da cine-série fica claro que Dumbledore não passa de um frasista.

9. Em todos os filmes da cine-série Potter conhece alguém de quem desconfia.

10. Em todos os filmes da cine-série Potter descobre que esse alguém está do seu lado, ao contrário do que pensava.

11. Em todos os filmes da cine-série os diretores tentam mostrar o quanto Harry Potter é especial, até que deixamos de nos importar com ele, pois ele é especial.

12. Em todos os filmes da cine-série alguma varinha falha.

13. Em todos os filmes da cine-série, mesmo tendo suas varinhas em mãos, Potter, Hermione e Ron fogem de alguma coisa.

14. Os três representam a santíssima trindade.

15. Em todos os filmes da cine-série os personagens deixam de usar alguma magia para se salvarem, pois preferem sofrer.

16. Em todos os filmes da cine-série Malfoy demonstra ser um imbecil, mas mesmo assim os diretores insistem em tentar criar um clima entre ele e o escolhido.

17. No final, no momento de maior perigo da cine-série, Hermione e Ron se beijam pela primeira vez.

18. O tão esperado ménage a trois nunca se consuma.

19. O romance de Potter com a irmã de Ron se deu apenas para o herói não ficar sozinho e não morrer virgem.

20. O ensinamento final de Dumbledore é que o amor é a salvação de tudo.

21. Dumbledore reconhece sua mediocridade como frasista, mas não vai embora sem uma última grande lição, já no “céu”.

22. Em todos os filmes da cine-série Harry Potter quase morre, mas ele é Harry Potter.

23. Em todos os filmes da cine-série algum novo personagem olha para ele e diz atônito: “Harry Potter”.

24. Depois nos lembram que ele é a cara da mãe.

25. Potter é sempre acusado de alguma coisa, mas depois prova sua inocência salvando o dia.

26. Dumbledore, o Chuck Norris fundido com MacGyver da geração, já sabia de sua inocência.

27. Lord Voldemort não mete medo nem em formigas.

28. Malfoy não assume sua paixão secreta por Potter.

29. 19 anos depois, o filho de Harry Potter não usa óculos.