16th Jul2013

A lógica dos discursos

by Pedro Henrique Gomes

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Chuva, chuva, chuva.

(A Lua Vem da Ásia, Campos de Carvalho)

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A repercussão do movimento que ocupa a Câmara Municipal de Porto Alegre desde 10 julho, a partir de articulação do Bloco de Luta Pelo Transporte Público, é registrada sob um mar de ações políticas por parte dos grandes veículos de comunicação da cidade. A mídia age e sempre agiu politicamente, daí lamentar que os movimentos sociais tenham motivações políticas é, no mínimo de nossa boa vontade, ingenuidade e hipocrisia.

Não fossem os coletivos autônomos e independentes, como o Catarse e a Mídia Ninja, por exemplo (além das reportagens e imagens esclarecedoras do Sul21), o corpo da ocupação seria sempre o mesmo: frágil a partir da deturpação dos acontecimentos e da organização popular. Em relação à pauta do Bloco, a imprensa maior opera de duas formas, pela omissão e pela despolitização (chama de utópica, essa palavrinha que a direita mais utiliza para dizer que são impossíveis as lutas sociais das quais discorda). De um lado, o silêncio criminoso da mídia monopolizadora. Do outro, quando o assunto surge nos rodapés das páginas de internet ou nas notas que circulam nos jornais, se apressa em fazer o retrato de um vandalismo terrorista marginal (os termos mais adorados do momento), sem foco, violento. É violento, mas o é porque violenta a coisa política lá onde ela se enraíza, isto é, nos preconceitos, na “obrigatoriedade do aperto” nos corredores de ônibus, nas práticas de redução/remoção do pobre, no aniquilamento das diferenças, na exclusão de classe e, ali perigosamente, na negação da desigualdade do cotidiano. É mister: violência de ideias é essencial à democracia.

Mas a ocupação em si, como já atestou a Justiça, é pacífica. Qualquer alegação em sentido contrário a isso é falsa. Os sujeitos dançantes popularizam suas pautas, investigam coletivamente, projetam, criam, pintam. Os raciocínios nunca lhes foram tão contagiantes, as ideias borbulham e vão crescendo ou ficando pelo caminho conforme percorrem os espaços ocupados. Por isso parece estranha aos vereadores, pois vão e vem de forma autônoma, sem decretos “de cima”. Tudo corre para todos e por todos os lados. Na verdade, talvez, para os vereadores, seja interessante inclusive repensar a ideia de ocupação. A Câmara está ocupada, mas todos podem entrar, está plenamente aberta, principalmente para que seus funcionários (entre os quais, evidentemente, os vereadores) possam trabalhar – inclusive existem alguns que estão trabalhando normalmente. Só não vai quem não quer. Não há impedimento nenhum da parte dos manifestantes.

Lá estão famílias com suas crianças, seus brinquedos, seus carnavais. A bem dizer, nunca houve lugar tão propício para a educação e para o cultivo de respeito entre os sujeitos. Não é somente democrático, é muito melhor.

Passe livre

O discurso hegemônico diz, logo de partida, que não é viável o passe livre. Mas não é somente este o argumento. A elite (e a classe média brasileira) não quer o passe livre porque ele colocaria aquele monte de gente do morro nos ônibus. Credo! Não gosta de pensar no preto e no pobre dividindo aquele banco apertado do T7. Muitos deles. Inconsoláveis, pensam que um dia por mês já está de bom tamanho. Ora, a alegria dos pobres sempre incomodou a consciência burguesa. Ela sempre frequentou apenas os lugares de poucos, os espaços compartilhados são “chinelagem”, “maloqueragem”. Quando chegam num ambiente de diferentes, ou seja, de todos, logo dizem que “esta é a primeira e a última vez”. A elite só gosta de guetos. Seu lema é: eles lá, nós cá. Por isso, é preciso continuar e combater de uma vez por todas os empresários crocodilos que abocanham não só o dinheiro, mas a subjetividade, a dignidade e o Direito de muitos. Pois a cidade precisa fruir.

Leia também outro texto, publicado neste mesmo blog, sobre a ocupação: A potência da ocupação.

19th Sep2011

Porto Alegre em Cena 2011 – A Lua Vem da Ásia

by Pedro Henrique Gomes

“Fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris”

Os recursos cênicos são mínimos neste espetáculo dirigido por Moacir Chaves a partir do texto de Campos de Carvalho. A Lua Vem da Ásia, monólogo interpretado por Chico Diaz, retoma (ou investe) uma questão de suma importância para o teatro nacional: o drama é o que importa, depois o rosto. Chico Diaz dá vida a esse personagem de vários nomes (ou sem nome, afinal), travando literalmente um duelo com seu duplo, que ele diz ser seu irmão gêmeo. Como uma sagaz crítica social, o texto de Campos de Carvalho, em toda sua sofisticação, se vê incorporado à potência do ator, que lhe dá um rigor para além da representatividade, pois é quase inumano. Do surrealismo temos não somente a disposição dos objetos cênicos, mas principalmente o texto em si e articulação dos diálogos. Ele olha para a parede do quarto e não vê nada além do vazio do branco que a recobre. Por detrás das grades daquela prisão malcheirosa, fita a chuva. Dorme e sonha, delira e agoniza com frequência, mas sempre questionador; desafiado e desafiante, vítima e algoz. A narrativa fragmenta-se entre os capítulos, o que dá liberdade ao observador para criar seus ideários possíveis.

Se o surrealismo que se transfigura no corpo e no cenário tonifica o discurso crítico em toda sua potencialidade rítmica (Chico Diaz de fato domina o plateia, com a sinergia do olhar e inquietação do poeta; encanta inclusive pelo improviso quando a luz cai no instante/lugar errado, aí reconhecemos o grande ator), todavia, assim como em Artaud, a relação entre a moral e a ética confunde-se sensivelmente com o drama do personagem inominável, que tão logo fala já anuncia ser um assassino – matou seu professor de lógica, mas em legítima defesa, com está exposto na primeira linha do livro de Campos de Carvalho. A razão é dele por um instante, para em outro momento ser contestada, não sem um grande fluxo de “diálogos consigo”, inconscientes sim, mas talvez justamente por seu excesso de consciência. Pois, indubitavelmente, o personagem, quando delira, o faz com absoluta lucidez, com destreza e finesse, sem alegorias pueris. O elogio da loucura corporifica-se no imaginário dele, porque, tal qual o célebre livro de Erasmo, a loucura toma o corpo do personagem somente para demonstrar sua sanidade. A loucura é amiga. A sátira justamente parece vir lá de onde nascem estas ervas daninhas que prontificam os problemas sociais, ou seja, quando ele fala com aparente lucidez (essa lucidez formal a que se resume tão complexa e delicada palavra), ele está negando essa fala como um conceito possível de verdade. Enquanto que, por outro lado, é através daqueles momentos de insanidade que lhe escapam as verdades críticas mais justas a sua personalidade e ideologia anarquista.

Para ele o manicômio é um hotel elegante, reduto da criação, na companhia da chuva, no abraço das lágrimas que lhe escapam. É quando ele escreve. Escreve não para guardar a memória, mas para lembrá-la a si própria, pois o louco, quando já é declarado como tal, não esquece jamais. O que ele rabisca são suas próprias memórias, sua própria história, antes que ninguém a escreva. A história do ponto de vista da loucura. Aí repousa a sensibilidade do ator, mais do que do próprio diretor, pois é ele quem externa o drama, muitas vezes silenciosamente, outras vezes agonizando, se contorcendo e gritando. Dividida em duas partes, cada qual separada por capítulos que não seguem qualquer ordem numérica, A Lua Vem da Ásia vive da loucura por um instante para metamorfoseá-la na exata proporção da dor da consciência. Estamos aqui falando de uma construção dramática em crescente valorização de sentimentos, pois o que se representa no palco é reflexo constante da inquietação do personagem, do escritor, do diretor, salientada na pele mesma, na raiz do problema. Falamos essencialmente de um problema antropológico disfarçado de embasamento teórico, que se faz difícil pela transposição da linguagem da literatura (quase um realismo-mágico, flertando com o surrealismo clássico), uma vez que não foi escrito primeiramente para o teatro, mas que encontra sua força no diálogo muito preciso que idealiza com o público.

Texto: Campos de Carvalho. Direção: Moacir Chaves. Elenco: Chico Diaz.