19th Jun2013

Tabu

by Pedro Henrique Gomes

tabu miguel gomes

Deus já foi mulher. É assim que Mia Couto inicia A Confissão da Leoa, seu último romance. No livro do moçambicano, um caçador de leões é chamado para encontrar e matar os felinos que têm comido mulheres de uma aldeia. Chegando lá, logo descobre as dificuldades do trabalho, reconhece as relações míticas dos populares com os deuses, presencia as tensões políticas que dizem respeito inclusive à sua presença na região, narra violenta e poeticamente a confusão dos corpos humanos com os predadores esfomeados na companhia de um escritor que tudo anota. O caçador percebe que seu habitual tiro, outrora certeiro, não vai encontrar a carne dos leões sem antes entender como eles agem espiritualmente com o povo. A conexão do espírito, muito além de uma lógica religiosa centrada numa figura única e toda potente, é apropriada em um clima de sonhos e desejos, atos do impulso, fissuras da alma que rasga e que sangra. Há variantes em jogo, personagens que resistem e querem viver em paz. Descobrimos, no final, que a leoa é também uma mulher: é gente, humana.

Em Tabu, mais recente filme de Miguel Gomes, há também uma dança, o rufar dos tambores sintetizam a morte do caçador que se despediu da vida: foi morrer junto do crocodilo. Narrado pelo próprio diretor, começa com o preâmbulo do caçador indo até o rio para dançar com a morte, desarmado, enquanto a morte está sempre armada. Após seu fim, que não vemos, pois Miguel nos dá a ouvir apenas o barulho de um objeto que se lança às águas enquanto a música dá tom a sua morte, outra história terá início. Já no final desta sequência, há um plano do crocodilo “triste e melancólico”, quando a luz já é pouca, seguido da figura de uma mulher “que um misterioso pacto uniu e que a morte não pode quebrar”. A mulher e o crocodilo, juntos na eternidade, quem sabe num só corpo, conduzem as histórias do filme. Como no livro citado, o caçador foi morar no corpo do outro animal.

Um passado colonial tão assustador e presente que não sai da geografia dos ambientes contamina as imagens de Tabu, assim como compõe o imaginário estético da escrita de Mia Couto. A relação entre o livro e o filme reside apenas no símbolo de uma aventura, de um pacto de criação, fome de aventurar e de pensar a própria consequência dos espaços artísticos – cinema e literatura, sonhos e deuses, memórias de um presente infinito. Em ambos, não há espaço para visões de uma África exótica senão como atitude de revelação de um insulto (no caso de Tabu, o europeu africanizado), a potência africana é outra, responsável e rica, vítima de seu ouro e não de sua ingenuidade. A aventura é essa alegria de filmar e de pensar o cinema de forma radical, que é precisamente o contrário de homenageá-lo. Sobra em Tabu a beleza de um ritual quase xamânico, que é o cinema mesmo, a feitura do filme – coisa que Aquele Querido Mês de Agosto (2008), seu trabalho anterior, capta tão bem. A viajante do Vento do Leste (1970), de Godard, escolhe o caminho da aventura após perguntar a um Glauber Rocha cantante qual o caminho do cinema político. É por aí que vai o cinema de Miguel Gomes.

Não é por acaso que a primeira parte do filme, intitulada o Paraíso Perdido, começa em um 28 de dezembro, dia fatídico para toda uma simbologia do cinema, pois se trata de seu “nascimento” lá com os Lumière (para quem o cinema não teria futuro algum), numa sala cujo nome não poderia ser mais significativo: Eden – o paraíso bíblico, início de tudo, selva dos maiores pecados; caixa de pandora de toda nossa dor. Lá onde o cinema “passa a existir”, também tem início a história de Tabu, com Pilar, uma das personagens, sentada numa sala de cinema vazia. Mas ao contrário da sala lotada de espectadores que dormem (ou que estão mortos?) na abertura de Holy Motors (2012), Pilar parece saber bem o que está vendo. E ela irá outras vezes ao cinema, acompanhada de um amigo pintor, homem de alma generosa. Ela é vizinha de Aurora, mulher de idade avançada, que mora aos cuidados de uma empregada africana. Ao longo dos dias, após algumas rodadas de chá, Aurora acaba no hospital. Para que o cinema possa narrar outra história, de outro tempo, de outro passado, Aurora precisa morrer.

A segunda parte do filme, Paraíso já localizado, vai contar a história da jovem Aurora no monte Tabu, em uma África de muitas décadas antes. Após a morte de Aurora, que deixou num bilhete apenas um nome, Pilar, mulher de reza, de fé católica, encontra Gian-Luca Ventura, homem que narrará todo o filme que resta, sua história com Aurora, o amor e sobretudo a “a-ventura”. Numa África ainda colonizada por Portugal, diferente daquela de Mia Couto (onde o problema é a autodeterminação do povo), ela é também boa no gatilho, assim como o caçador do prólogo. Namora outro, mas mantém um caso com Ventura; secreto, vibrante, perigoso. Nesta segunda parte, o filme gira em torno dessa relação.

Esse panorama narrativo é útil para que possamos tentar entender um pouco as coisas. Ver como elas conversam e interagem com os tempos e os personagens, criando um drama de movimentos delicados que se amarram com paciência, com o sabor do fluxo do rio onde se esconde o crocodilo. O cinema silencioso que aparece aqui e ali, as músicas que não podem faltar (e nunca faltaram em seus filmes anteriores) e o preto e branco da fotografia. Se em A Cara que Mereces (2004) o mundo é um sonho (sonho de cinema, exatamente cinematográfico, porque cinema é sonho, ilusão, mentira, verdade) e em Aquele Querido Mês de Agosto o sonho é o mundo, em Tabu o cinema é um mundo a sonhar, na poesia da narração que jamais atropela a forma intrínseca das imagens, que não conta mais do que mostra, que narra como um xamã se comunica com os espíritos. Através dessas imagens que constroem desde já um repertório estético e narrativo muito amplo, Miguel Gomes vai firmando território e se instalando como um dos mais interessantes cineastas contemporâneos. Sua maior força não está no inovar, mas na produção de um conhecimento novo a partir de uma coleção de imagens e de olhares sensíveis e provocadores. O xamã é aquele capaz de enxergar no escuro.

(Tabu, Portugal/França/Brasil/Alemanha, 2012) De Miguel Gomes. Com Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Henrique Espírito Santo, Carloto Cotta, Isabel Muñoz Cardoso, Ivo Müller, Manuel Mesquita.

12th Sep2012

Batman Eternamente

by Pedro Henrique Gomes

De pronto, o que mais chama atenção em Batman Eternamente em relação a qualquer um dos outros filmes com o Homem Morcego (incluindo as versões dos anos 1940 e 60), é o Dispositivo. Entendemos aqui como Dispositivo não só o aparato técnico do material que constitui o filme (seguindo as concepções estética e narrativa de Christian Metz), mas também toda e qualquer relação da própria técnica (câmera) com os personagens. Ora, Joel Schumacher não filma com o tom jocoso de Tim Burton (que, após dois filmes, aparece aqui como produtor), e as vezes parece não saber onde colocar a câmera e mesmo para onde levá-la: os personagens se escondem do enquadramento – naquilo que deveria haver uma contaminação, existe apenas um leque de gags gastas e tacanhas dominando a ação. Quando Schumacher acerta (Um Dia de Fúria, 1993), parece que foi sem querer.

Também era difícil, já que o roteiro de Batman Eternamente (mais família, segundo a publicidade) perde a sensualidade que permeava os diálogos dos dois filmes anteriores dirigidos por Tim Burton que, vamos dizer francamente, possuem lá suas limitações. Enquanto os anteriores roubavam dos personagens suas sensibilidades carnais (no discurso; na mise en scène), aqui eles não possuem nada a doar pois são não-personagens: o tom de voz, a luz (fotografia), o humor (!), a ação e a música só contribuem para salientar o quanto suas deficiências são latentes, pois precisam repetir as notas para formar o acorde desejável. É um erro sistemático, ativado na base da produção cultural, que desmistifica os heróis da pior maneira possível: despolitizando e tirando a crueldade do herói (paralelo no cinema mais contemporâneo é o Os Vingadores, 2012).

Quando surge na cena outro herói (Robin), o ritmo só aumenta em sua superficialidade. Sai aquela sede de explorar as personas e entra o apelo ao produto, o ridículo que antes era amigo, passa agora a significar o desequilíbrio em si. Problemas: Batman Eternamente não é um filme engraçado, a ação é uma clipagem dos piores filmes de ação dos 1980, mas sem o grito de uma época que aqueles filmes possuíam e ainda possuem. A questão parece ser, sobretudo, uma questão de texto e não especificamente de roteiro , já que a estrutura é comum o suficiente para não oferecer desconfortos ao diretor e ao montador na hora de pensar as imagens e suas posições no filme. A narrativa é de segunda mão pois aquilo que tanto importa num filme, a palavra, é mero jogo de fruição – só aparece quem fala.

Salvo por um Tommy Lee Jones inspirado pela própria extravagância de seu personagem (nota-se o tom especialmente diferente em relação aos vilões dos filmes sob o comando de Christopher Nolan) e por um Jim Carrey dançando sua música, o filme de Joel Schumacher passa lento e não convence como aventura, tampouco aparenta ser um filme família. Ora, os “filmes família” são sempre os mais cruéis.

(Batman Forever, EUA, 1995) De Joel Schumacher. Com Val Kilmer, Tommy Lee Jones, Jim Carrey, Nicole Kidman, Chris O’Donnell, Michael Gough, Pat Hingle, Drew Barrymore, Debi Mazar, Elizabeth Sanders, Rene Auberjonois, Joe Grifasi, Philip Moon, Jessica Tuck, Dennis Paladino, Kimberly Scott, Michael Paul Chan, Jon Favreau.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

12th Sep2011

Super 8

by Pedro Henrique Gomes

 

Se muito do esforço de Hollywood para tentar revitalizar a indústria (não no sentido de formar espectadores, pois não é esta a preocupação dos empresários, mas no de vender ingressos; que são coisas absolutamente distintas) está em resgatar histórias clássicas através de refilmagens ou releituras, então Super 8, filme que J. J. Abrams dirige e Steven Spielberg produz, se enquadra em algum espaço aí no meio. Nenhum, nem outro, mas um pouco de cada. Primeiro porque Super 8 não é uma refilmagem em si, mas um pastiche. Ou seja, se utiliza de referências para se movimentar e articular, inserindo-se num espaço não totalmente novo, mas nem por isso necessariamente velho. Segundo, pois, basicamente, reduz a releitura a imagens semelhantes às de certos filmes e se constroi a partir daí, dessa experiência da cinefilia da louvação – que não é pouca. No entanto, Abrams, cinéfilo dedicado, tem dificuldade ao transformar essa atmosfera em uma produção original e autêntica, com potencial que se desenhe e se faça crer relevante dentro uma aventura possível. Ocultado pela falta de frontalidade da narrativa, o dispositivo central da história, que é o mistério do trem que descarrilha e dos acontecimentos incomuns que passam a assustar os habitantes de uma pequena cidade no interior de Ohio, nos EUA, torna-se um assunto de desinteresse, já que o mais importante passa a ser o romance entre dois jovens que presenciam o acidente, a birra que o pai da menina tem com pai do garoto, sendo que isso não produz a emoção genuína presente até mesmo dos piores filmes de Spielberg. Minimizar as situações (porque Abrams prefere espraiar nos movimentos soluções conhecidas do espectador) reduz o impacto do suspense e amplifica a jocosidade dos bons sentimentos.

Jogar para cima das crianças a responsabilidade de salvar e proteger o mundo (os EUA) revela o peso da aventura. Super 8 é claramente um filme para reverenciar suas influências, dialogar com os filmes que “marcaram época” e travar essa relação entre a homenagem e o moderno. Abrams lida bem com a perspectiva do público. Esconde o monstro até quando se torna impossível deixar de mostrar suas feições, entrelaça personagens adultos de maneira a confrontá-los, colocando-os como ameaças aos planos das crianças, filma bem a ação mecânica (a câmera não treme desnecessariamente, exceto quando precisa engendrar um efeito) e não extrapola na música, a exemplo de um filme de Steven Spielberg ou George Lucas. Tal consciência fílmica, não obstante parece sufocar o outro lado da coisa. Pois, quando é assim, o pastiche pelo pastiche, o original será sempre melhor. E é assim porque Super 8 não quer ser mais que isso (mais que um pastiche), quer ser o “filme para toda a família”, quer ser o filme do momento para aliviar o stress, o filme que comprova a permissiva questão base que guia a indústria hollywoodiana: cinema é lazer e só. É ver e pronto, a aventura acabou. Nesse contexto, é difícil pensar nele como algo maior do que um clipe de filmes antigos. Super 8 está aí para lembrar outros filmes, essa nostalgia barata, esse egocentrismo vazio.

E se Super 8 é um sintoma desse cinema explicitamente revogador de mitos antigos, porque não pensá-lo como tal? Aí, também, há esquemas facilmente desmembráveis. Se falamos de um filme-pastiche-homenagem, qual a força criativa verdadeira que esse filme pode ter se o grande foco desse olhar (Spielberg) está também pensando no filme? Não há, assim, ideias, só escolhas de cenas. Homenagem a si mesmo não é cinema de fato. O distanciamento passa a ser contraposto pela aproximação, pela parceria, mas Super 8 não tem mesmo o espírito cativante dos filmes que reverencia (E.T., Os Goonies, Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau), resgatando deles somente as temáticas. Pois tem o extraterrestre, tem a relação pai e filho calcada na obra de Spielberg, tem o olhar distópico sobre crianças e adultos, tem a paixão juvenil. Todavia, há muitos outros cineastas compilando pastiches e transbordando esse cinema de homenagens com muito mais força e sentimento, como Tarantino, Honoré (embora cada um com escolhas também questionáveis) e alguns outros – poucos. No caso de Super 8, a aventura não tem adrenalina, o drama não tem profundidade, o humor rasteja para suplantar-se pela gag da homenagem mais próxima, a moral (do filme e do diretor) é diluída assumidamente dentro de um “Spielberg, eu te amo” estridente.

A desenvoltura já é marcada, só morrerão adultos e desconhecidos, os inimigos farão as pazes, os homens se sensibilizarão com a atitude do vizinho interplanetário, somente a criança (a mente pura e distante dos males da vida) será capaz de se envolver didaticamente com o extraterrestre, compreendê-lo, mostrar o lado branco da força. Diante disso, a expectativa consiste em ver o monstro, não importa o que vai acontecer depois com ele. Após isso, não há mais nada para ser visto em Super 8 (à exceção dos créditos, que trazem as melhores cenas do filme). E o problema não é previsibilidade da trama (se é que podemos falar em trama), tampouco a secura das cenas. O mais funesto de Super 8 é que não importa se ele foi feito hoje ou se tivesse sido lançado há trinta anos, a monotonia das imagens é a única coisa que de fato prospera. Não tem mistério algum, o monstro será humanizado, estará nos seus olhos quando do contato com a criança iluminada. Ele, o extraterrestre, reconhece, como em E.T., que o homem não é de todo ruim, e só reage com violência quando é agredido violentamente. Eis a grande lógica.

(Super 8, EUA, 2011) De J. J. Abrams. Com Elle Fanning, Joel Courtney, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Ryan Lee, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Glynn Turman, David Gallagher, Ron Eldard.