15th Jul2014

Avanti Popolo

by Pedro Henrique Gomes

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“Está tudo cinza”. A frase é do personagem de Carlos Reichenbach (este nome assina algumas obras-primas de nossa cinematografia), dita já no final do filme, no tom tranquilo de quem, mesmo relutante e algo confuso, parece compreender as coisas melhor do que nós. Em Avanti Popolo, dirigido por Michael Wahrmann (seu primeiro longa), ele recebe a visita do filho, André (Gatti), que pretende restaurar algumas imagens da família captadas em Super-8 pelo irmão, desaparecido durante a ditadura militar brasileira após ter ido estudar em Moscou, e então projetá-las para seu pai. Imagens de outros tempos, de outras ambições, este é o tratamento da memória. O filho ainda não retornou, os projetos políticos de sua geração arrefeceram, ou pelo menos se dogmatizaram, abandonando qualquer possibilidade de permanência real, de experiência de duração e continuidade.

Mas é preciso traçar uma linhagem, retomar a natureza interna coisas, reavivar algo na memória do pai que hoje vive só (não exatamente só: há a cadela, nomeada Baleia, nome remetente a certo passado de imagens e lembranças afetivas, afinal é o mesmo nome da cadela de Vidas Secas, de Graciliano, e portanto do filme de Nelson Pereira dos Santos). Wahrmann tem sabedoria e paciência e o filme não joga fora a criança junto com a água do banho. Avanti Popolo é coisa de gente miúda, que parte do que sobrou, do que ainda resta e pelo que ainda vale a pena lutar. De pronto, podemos dizer que essas são as coisas verdadeiras que lhe constituem e substanciam. Mas é claro que há mais.

Aquelas imagens vão dizer coisas que não serão vistas, o pai não as verá. Mas, afinal, ele quer ver? Ele ainda espera pelo filho desaparecido, espera pela resolução das coisas. Se há uma “mensagem”, parece ser esta: a memória da ditadura, que persiste em nós, também precisa realizar seu acerto de contas para além dos fantoches e das regalias concedidas aos torturadores, coisas que a abertura democrática não foi capaz de resolver, idealizada na nova constituição, por toda a continuidade política do poder ter se mantido nas mãos da elite outrora contente com o golpe. De todas as formas, a memória quer se fazer memória, pois vejam que ela insiste: o motorista de táxi (Eduardo Valente) colecionador de hinos nacionais, as próprias imagens do Super-8, as músicas que tocam no rádio na sequência inicial (Wahrmann, o diretor do filme, empresta sua voz ao radialista que toca as canções revolucionárias que animaram as esquerdas em tempos anteriores), o quarto do irmão desaparecido que permanece fechado, sob ordens do pai.

No filme, desde o início, quando acompanhamos a chegada do filho a casa do pai, já estava estabelecida a tensão. A casa um tanto descuidada, com tapetes e sofás empoeirados, as janelas sempre fechadas e a pintura gasta nas paredes são detalhes fundamentais na construção da atmosfera, pois tudo irá resultar na pressão do espaço que é exercida sobre nós através de planos que vão se fechando, de objetos que vão escapando ao nosso campo de visão. Se fechando não de graça, pois esses planos irão se encerrar justamente no momento em que as imagens puderem, enfim, amassar a parede da sala. É incrível o poder de tudo o que nos é dado a ver. No entanto, sem poder ver, o pai se levanta diante do projetor, momento em que a luz toca seu corpo. A imagem projetada logo no corpo de Carlos Reichenbach, portanto a fusão da mitologia e do encantamento, da imagem bruta colada na carne, é própria do momento mais político do filme (no mínimo, é momento mais intimamente político). Mas está tudo cinza!

Ora, não é de maneira meramente espetacular, fabular ou dotada de sarcasmo e ironia que a célebre música é cantada no final. Avance o povo. De outra forma, os filósofos da política diziam isso no início do século XX, os frankfurtianos idem, os movimentos de força e resistência erigidos no espírito de 1968 o fizeram também, os pensadores sociais da atualidade agora o dizem, os iluminados disseram qualquer coisa semelhante no século XVIII, mas nada disso importa mais que as imagens que restam. Ao contrário daquilo que pode parecer num primeiro reflexo, Avanti Popolo não abraça um pessimismo vulgar, tampouco se recolhe no velho fatalismo. Na verdade, parece antes centrado na crítica das utopias, incluindo as do cinema. É assim que se articula a cena em que André vai recuperar as imagens, o projetor: o técnico (o cineasta Marcos Bertoni) se anuncia fundador de uma nova estética e ética fílmica, que ele chama, agora sim inserida no discurso filme com um traço irônico, de Dogma 2002. No Dogma, é proibido filmar; só é possível dublar outras imagens. É para estar fora da indústria, pensar outras formas de criação, algo que favoreça a criatividade. Mas alguém precisou filmar as imagens que serão dubladas…

Ao final, naquela sequência de imagens e vozes da destruição, de fantasmas, vemos um cinema antigo e ouvimos uma voz (a mesma do início, do radialista) que canta, sorrateira, a utopia (leia melhor: as utopias), em tons dramáticos, em textura de outros tempos. Mas não pode restar dúvida alguma sobre essas ruínas. A própria existência de Avanti Popolo já é testemunha de que, se fosse necessário percorrer alguns caminhos novamente, desta vez renovado e cicatrizado, aquele filho, destemido, tentaria de novo.

(Avanti Popolo, Brasil, 2014) De Michael Wahrmann. Com André Gatti, Carlos Reichenbach, Eduardo Valente, Marcos Bertoni.

Publicado originalmente no Zinematógrafo #9.