03rd Oct2012

As Acácias

by Pedro Henrique Gomes

As acácias são as carnes de Rubén e Jacinta. Carnes dos corpos que deixam pela estrada, junto do fluxo de suas vidas, de coisas que devem ser esquecidas ou não devem ser recordadas. Sobre as relações afetivas, paixões, intrigas e desejos dos personagens só temos criações mentais. “Os passados” deles não existem em imagens, estão inacessíveis a priori, mas são construídos pelas linhas: linhas do corpo, da pele, os traços do rosto, as unhas. É importante, dentro do jogo de visão que as câmeras imprimem no registro da ação dramática, que os personagens sejam assim, expressivos e corporais, que não tenham medo de revelar algo até maior que o filme. Transcendente. As Acácias vai em busca do efeito inesperado, daquilo que o espectador não quer ver, daquele gran finale que o público anseia e que, quando aparece, não é nada disso que aparenta ser. Anticlímax. Não é também um road movie de passagem. Aqui não cabem rótulos. A experiência estética não é só amiga íntima do repertório textual, que por sua vez precisa sempre corresponder às esperanças narrativas balizadas pela necessidade de um fim. O filme de Pablo Giorgelli não tem fim, acabaria apenas quando o mundo acabasse – e é justamente isso que confirma sua beleza.

Mas o mundo é mesmo ordinário, as coisas se repetem, passam, escapam. É por isso que os espelhos do caminhão de Rubén são memórias, as madeiras que Ruben transporta há trinta anos pelas estradas que ligam Assunção e Buenos Aires são representativas desse movimento que se vai. O processo que vemos é tanto a passagem do tempo quanto a conexão espiritual com ele, pois a única forma que temos de acessar o passado é através do presente, ou seja, de memórias que podemos ter agora. O plano em que Rubén observa Jacinta se aproximar do caminhão para pegar carona, olhando-a pelo retrovisor, não raro um dos mais significativos do filme, resume a ideia de que algo ainda ficou para trás na vida de Rubén. Mas Las Acacias não cai em nenhum tipo de convenção e logo mostra seu rugido. Jacinta e sua filha, Anahí, pegam carona com Rubén nessa viagem até a capital argentina, em que o ronco do motor é a trilha sonora (não há música) e o silêncio, muitas vezes, é o melhor diálogo.

Giorgelli deixa o tempo fluir, investe não na contemplação, pois não há o que contemplar, mas antes nos movimentos internos de cada um dos personagens. E não é alegoria, pois todos se comunicam sem palavras, embora não abdiquem delas. Todavia, não existe simplicidade alguma na narrativa, e tampouco na estética, de Giorgelli. As Acácias não poderia ser mais arrojado, mais perigoso (eis sua potência), mais experimentador (não experimental). A câmera quase sempre sufoca o personagem, esquadrinha toda sua doença, retirando-lhe, assim, sua verdade – verdade que é também relativa, pode não vir, pode vir fragmentada ou pode simplesmente ser falsa. Não se incorre na busca pela imagem icônica, pelo final aberto, catalisador de sonhos. Enquanto metade do cinema se pretende descobridor de uma nova forma de se apropriar das imagens cinematográficas, Las Acacias apenas é um fluxo delas, consciente do seu sabor, do seu cheiro, do seu minimalismo escandaloso. Não cair no labirinto da estética de festival de arte, deixando-se contaminar pelos personagens e pela relação que eles tão naturalmente estabelecem, ele atinge um efeito. Há muita pretensão em jogo, o que é ótimo.

A natureza, com toda a polivalência que a aplicação dela pelo filme pode significar, é mais que a simples bagagem que Rubén transporta, é sua vida. Fica a impressão, até pelo ambiente da cabine do caminhão, de que as acácias que vemos sendo cortadas e retiradas de seu habitat logo na abertura do filme sejam mais que meros pedaços de madeira. Todo o movimento sucede sua existência, lhe pede o sacrifício. Giorgelli filma as coisas acontecendo durante tanto tempo que incomoda o bom gosto (no sentido que nos mostra a intimidade do outro, o que pode muito bem ser assustador). Se Rubén para o caminhão para descer e fumar um cigarro, à beira da estrada, a câmera fica com ele, inala junto, até o fim, a sua experiência. Afinal, As Acácias não é mais que uma grande experiência afetiva. Mas não nos enganemos, ele não é um filme tão belo por ser pequeno, é assim, e não poderia ser de outra maneira, porque quer ser grande.

(Las Acacias, Argentina, 2011) De Pablo Giorgelli. Com Germán de Silva, Hebe Duarte, Nayra Calle Mamani.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

21st Nov2011

O Gaúcho

by Pedro Henrique Gomes

Eu, um Homem.

Em O Gaúcho Jacques Tourneur se coloca de frente para o problema de sua narrativa, ou seja, aquilo que dá pulsão as suas engrenagens. A história se passa no pampa argentino, em meio a turbulências do exército, da população gaúcha que se vê ameaçada sua existência, que desde sempre viveu segundo seus costumes e tradições. A luta é comandada pelo gaúcho Martin (Rory Calhoun), que fora preso recentemente por assassinato (acabou matando um homem com uma facada durante uma briga), mas que logo conseguiu escapar, não sem a ajuda de alguns amigos. A prisão na verdade é a integração ao exército, no qual fica nas mãos do Major Salinas (Richard Boone), que o desafia constantemente. Após a fuga, Martin lidera um grupo de gaúchos que desejam retomar o controle sobre suas tradições, almejam revoltar-se diante da sociedade do exército puritanos que os ofendem e acuam.

No entanto, Salinas, que, durante a fuga de Martin, teve seu braço ferido, organiza seu contingente para encontrar Martin (e matá-lo, sobretudo). O que se segue é uma saga revolucionário de um lado (o dos gaúchos) e opressora do outro (do exército), onde o pampa argentino fornece sua vastidão para inúmeras batalhas a cavalo. Martin, decerto um homem rigoroso, de poucos sorrisos e muitas ações, se encontra também apaixonado pela filha de um padre, mas se vê impedido, dadas as circunstâncias, de consumar essa relação. O torpor dele está agora desejante pela luta, pela reconquista do espaço e do respeito que são seus por direito. A guerra será então travada pela compaixão desses corpos marcados pela vontade de potência (desejo de poder).

Mas O Gaúcho se convence com poucas coisas. Acredita cegamente que filmar o cenário desértico com cavalos montados por pessoas é suficiente para engendrar uma ação reconhecível pelo espectador. Tourneur aposta no jogo das circunstâncias, não na essência mesma da revolta dos gaúchos. As aventuras filmadas (bem filmadas, afinal) parecem mais simulacros dos acontecimentos do que acontecimentos mesmos. Reflexo simplificado (ora caricatural demais, ora fantástico além da conta) da causa para atingir um fim único, fim que, para Tourneur, só pode ser empírico, qual seja ele. Martin, o gaúcho-central do filme, truculento, representa o desleixo: personagem construído para simbolizar, para mitificar, enquanto o necessário era encontrar nele a diferença crucial entre o fascismo militarista e a revolta popular (que, aliás, fica sempre na superfície, no jogo nada elucidativo). O filme não articula essa dicotomia de maneira a transcender as caricaturas de seus personagens, que só atuam para a câmera, só representam trajes e trejeitos, expressões e sotaques, armas e flores. O Gaúcho é um filme sem ideologia.

Tourneur se insurge pelas aparências mais do que pela razão, pela realidade concreta das relações possíveis daquilo tudo que filma. Seu filme tem pulsão (afinal falamos de um “diretor que sabe filmar”), falta mesmo é virulência, vontade de ser mais do que simplesmente uma reprodução de corpos, homens/símbolos e maneras de vivir. E se Tourneur nunca foi um cineasta que transparecia para o espectador pela economicidade de sua direção, aqui, todavia, não se agigante sequer na formulação de sua história, que é a um só tempo de argila e de papel. Pois Martin, o protagonista-herói do filme, depois de muito matar, perdoa com a maior das facilidades seu inimigo que, não raro, não o perdoaria. Tal cena se passa logo em frente da igreja, da qual o pai de sua amada é o padre. O Gaúcho não é um filme político, mas é sim um filme religioso.

(Way of Gaucho, EUA, 1952) De Jacques Tourneur. Com ??Rory Calhoun, Gene Tierney, Richard Boone, Hugh Marlowe, Everett Sloane, Enrique Chaico, Jorge Villoldo, Ronald Dumas, Hugo Mancini, Néstor Yoan.