01st Aug2011

A Serbian Film – Terror Sem Limites

by Pedro Henrique Gomes

Vejam o horror

Vamos começar simplificando. Na tentativa de denunciar o horror, A Serbian Film só perpetua sua falta de tato para com aquilo que almeja filmar. Não é um universo em particular, mas um buraco encrostado nele. Não um personagem específico, mas um objeto balizador das possibilidades de estudo sobre esse buraco. A rigor, o filme sérvio, pivô de tamanha polêmica em razão de seu conteúdo, causa furor por concentrar toda sua força e imaginação na representação frontal da perversidade do Homem, sem frestas ou meias palavras. A despeito de sua lógica funcional (narrativa + técnica), resta muito pouco de uma estrutura fílmica mais sustentável senão com a inclusão de um subtexto político moderno. O modo de operação do diretor Srdjan Spasojevic parece abraçar uma ideia esteta: vivemos em um país em colapso, desenvolvimento educacional pendente, violência massificada, estruturas públicas desfalecendo? Façamos um filme para aventar isso, mas que não explicite as coisas tão facilmente. Usemos um pano de fundo desproporcional (indústria pornográfica, violência sexual com crianças envolvidas) para representar o despudor, catalisaremos nossos problemas com os dramas dos outros, verticalizaremos a História e metamorfosearemos um estado que nos é tão caro. Por mais incrível que possa parecer, é mais fácil complicar as coisas, e é justamente isso que A Serbian Film faz. Parece ser essa a lógica aqui vertida. Nesse caso e nesse contexto, a arte é um meio.

Objetivamente, A Serbian Film – Terror Sem Limites conta a história de Milos, um ator pornô aposentado (e frustrado) que, ao aceitar um convite para um novo e misterioso trabalho, acaba descobrindo um mundo muito diferente daquele ao qual estava habituado. O novo filme, que promete lhe render dinheiro suficiente para garantir o sustento de sua família por muitos anos, envolve sadomasoquismo e sexo com crianças. Quando ele tenta abandonar o projeto, ao perceber sobre o que ele realmente se trata, se vê preso no desejo insano de um magnata da indústria pornográfica. Tudo que ocorre depois disso é fruto da inoperância mental de Milos, que agiu sob efeito de drogas pesadas. Algum tempo depois ele descobre, por meio de gravações, que o filme do qual foi protagonista versava sobre o lado mais obscuro do ser Humano. Inconsciente do que estava fazendo, Milos percebe que é também uma vítima do sistema.

Spasojevic aposta em um clima obscuro desde o início (amplificado pela fotografia quase monocromática), mas não abre mão de um humor negro para servir de alívio cômico. Se A Serbian Film começa distribuindo uma série de gags, ao passo que o protagonista começa a se embrenhar em um obscuro universo de violência sexual, as imagens vão ficando cada vez mais fortes (muito embora, na maioria das cenas, tudo seja apenas sugerido). Narrativamente, o filme nunca se decide entre o horror e a comédia para tentar engendrar suas soluções críticas, e a junção dos gêneros jamais encontra, de fato, uma força que o sustente. A bem dizer, ao abordar um tema tão delicado como a violência além-sexual, faltou um poder maior de confrontamento, de discussão. De todo o argumento, o máximo que Spasojevic consegue exprimir é um jogo de ironias entre Milos e seu irmão (não por acaso um policial) e cuja função crítica é efetivamente muito limitada. Por essa limitação de olhar, por essa aquiescência tão latente e burocrata, A Serbian Film não justifica o rigor extremo de suas cenas e, principalmente, de sua trama, pois o que mais choca não são primeiramente as próprias imagens, mas sim sobre o que elas tratam.

Porque seu filme tem dificuldade de articulação, ele não se identifica para sua audiência. Assim como nas piores comédias burlescas hollywoodianas (guardadas as proporções), Terror Sem Limites apela para o extremo de seu gênero, sem com isso potencializar sua voz. Ele prefere aceitar que seu filme é isso aí, só isso aí. Daí instaura o humor pelo humor, o choque pelo choque sem questionar suas próprias essências. Fica tudo jocoso demais, para além da infantilidade, daí a potência se esvai e qualquer pretensão político-discursiva se perde num emaranhado canhestro de variações do horror. Se aquelas imagens deveriam abarcar a tensão política da Sérvia, efetivamente elas só se suplantam, num processo de autosabotagem inerente a sua desenvoltura e proposta crítica até bastante esperado. Pois o que fica não são ideias postas para um debate sobre as condições do humano, sobre políticas públicas, sobre questões multilaterais, o que resta é tão somente aquele espetáculo grotesco disfarçado de mensagem política mal enjambrada. Basicamente, A Serbian Film confunde pretensão com presunção. Num sentido fílmico para a expressão, é um filme doente.

(A Serbian Film, Sérvia, 2011) De Srdjan Spasojevic. Com Srdjan Todorovic, Sergej Trifunovic, Jelena Gavrilovic, Katarina Zutic.

22nd Jul2011

Sobre a censura

by Pedro Henrique Gomes

Não há qualquer tipo de explicação, argumentação ou debate que parta do princípio defensor da censura. Pois o que fez a Caixa Econômica Federal, patrocinadora, por meio da Caixa Cultural, do RioFan – Festival Fantástico do Rio, ao proibir a exibição do filme A Serbian Film – Terror sem Limites, se explica na hora. Não existe outra atribuição possível: censura dos pés à cabeça. Mas o pior foi a alegação, a defesa que justificou o ato proibitório. A nota diz, em tom desnecessariamente dramático, o seguinte: “A Caixa entende que a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”. Por favor, intérpretes de linhas rasteiras, expliquem desde quando a arte ou a imaginação do artista possui limites? Se eles (tais limites) existem, quais são e quem é capaz de julgá-los? Uma coisa é certa, não será ninguém que tenha tomado tal decisão. Isso (estes limites), certamente não está escrito nos livros de teoria crítica do cinema, tampouco de filosofia. Que direito é esse, que é praticamente estabelecido? Direito de ver é direito de escolha. A arte dos filmes, os bons e os maus, constituem toda uma história crítica pessoal e coletiva. É só nesse diálogo, no exercício de assistir, que se consegue discernir o certo do errado (conceito expressamente subjetivo). É necessário mostrar as coisas para discutí-las, não julgá-las a revelia.

Ora, ao contrário de estimular a violência (novamente falamos de um conceito obviamente bastante utópico e acrítico), o filme apenas mostra que ela existe. Quando da exibição do filme durante o Fantaspoa – Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, em versão que já chegou censurada (não foi o corte original exibido em Porto Alegre), as sessões tiveram boa presença de público. O que significa isso? O público, mais do que ninguém, quer ver o filme. E se A Serbian Film não é um bom filme, que se lance um olhar crítico sobre suas qualidades enquanto produto do cinema, não como arma pró-crime. Não há qualquer tipo de apologia, e tudo que nele está imbuído colabora mais à exposição de uma realidade, que, por si só, é assustadora e factual. Ironicamente, a censura dissemina o preconceito, ao mascará-lo e torná-lo “perigoso” diante de certos olhares/interesses, ao colocá-lo como parte bandida do mundo simplesmente negando sua existência. A censura rema contra a maré da educação.

Na sociedade do espetáculo, essa é sua única função: reprimir, dominar e ditar as vontades da população. Ainda mais irônico é o fato de que, após a proibição, o filme (que, como cinema, é até bem pobre) ganhou força na mídia e despertou o interesse de pessoas que sequer saberiam de sua existência. A censura, neste caso, só vai fazer aumentar o público, já que ele provavelmente vai entrar no circuito de algumas salas menores. Porque, acreditem ou não, o filme vai ser visto e o público (esse sim) terá a resposta para única pergunta cabível neste imbróglio: o filme exalta e glorifica a violência ou atesta sua repugnância e covardia?

Da mesma forma, é absolutamente litigiosa a ideia de que um filme possa fazer a cabeça de uma pessoa. Ora, alguém que comete atos de violência tais quais os sugeridos no filme em questão, o faz por ser mentalmente desequilibrado, ou por qualquer outro motivo correlacionado ao convívio social, a solidão, ao desamparo, a educação. Ninguém se torna, se é. O mesmo conceito aplica-se, por exemplo, ao caso dos jogos de tiros, simuladores de guerra e jogos com violência explícita, quando lançam a eles um poder inexiste de incentivo à violência, atribuindo, muitas vezes, os atentados nas escolas (Columbine, Realengo) e nos shoppings (Holanda) ao jogo. Não existe estímulo possível, aceitar isso como a única razão e argumento para censurar e proibir é agir contra a sociedade, é menosprezar e alienar as pessoas, delegá-las a imposição moral de instituições muito pouco preocupadas com uma concepção de mundo (e, porque não, de cinema). Pois, para construir um pensamento crítico sobre as coisas, somente tomando contato com elas, provando de sua indigestão. O direito, no entanto, permite a qualquer pessoa que julgue o que lhe deve ser ou não digerível. Os filmes (pelo menos aqueles dos quais nós gostamos e respeitamos), assim como os jogos, os livros, as músicas, as peças de teatro e a poesia, são pedaços constituintes da sanidade coletivo-cultural, jamais embriões do mal absoluto.

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Segundo anúncio do RioFan, o Grupo Estação, em parceria com a distribuidora Petrini Filmes, irá promover uma sessão extraordinária de A Serbian Film no Cine Odeon, às 22h do próximo sábado, dia 23 de julho.