07th Dec2011

Conto de Inverno

by Pedro Henrique Gomes

? (dilema)

Conto de Inverno começa de maneira inusitada já que falamos de Eric Rohmer: montagem acelerada e presença marcante da trilha sonora. Um jovem casal é filmado em suas aventuras amorosas durante um período de férias. Recorre-se então a um recurso pouco utilizado na obra de Rohmer: acelerar as coisas para vê-las se transformarem mais rapidamente tão logo no início do filme. Assim, a dilatação da temporalidade é o próximo passo possível, já que o que vemos no início é fruto de um amor de instante, enunciado pela própria pressa dos cortes e das imagens furtivamente instantâneas. Passam-se 5 anos e o filme de fato começa, deixando notar que aquilo tudo que acontecera na primeira sequência só pode ser coisa do passado, da memória tragada pelo desejo e pela excitação. O casal já não está mais junto, mas é a vida de Félicie (Charlotte Véry) que iremos acompanhar, não a de Charles (Frédéric van den Driessche). Ela já mora com outro, Loic (Hervé Furic), e, mesmo sendo apenas amigos, não parece plenamente satisfeita. Ao mesmo tempo busca a felicidade namorando Maxence (Michael Voletti), dono do salão de beleza em que trabalha. Conto do Inverno vai trabalhar justamente com isso: com a manipulável sensação de desejo e bem-estar de Félicie, levando-a de cá para lá somente para depois devolvê-la às suas origens.

Também não é novidade que Conto de Inverno se passe durante um período das férias de seus personagens. Félicie ainda enfrenta mudanças diversas em sua vida, não consegue se ajustar muito bem às coisas nem as pessoas. Sair de um relacionamento e ir á outro é parte de um processo de amadurecimento, ainda que inconsciente. Ela estrutura sua vida de tal forma a não aceitar qualquer tipo de mesmice ou estatismo, só que, nessa concretização de objetivos, acabam surgindo obstáculos que nem sempre são facilmente assimilados por sua frivolidade juvenil, que, por instantes, joga por água abaixo seus desejos imaturos. Rohmer cria e conduz bem a problemática criada para sua protagonista, mas não lhe garante caminhos fáceis. Habilmente, o cineasta joga com possibilidades: ela pode ser feliz com Loic ou com Maxence estando tão presa a suas lembranças (que parecem doces, mas ao mesmo tempo amargas)?

Aqui Rohmer pouco esquadrinha espaços pré-determinados: a ideia é fixar o plano e o movimentar os objetos, mantendo o quadro estático, mexendo apenas nas tais “coisas” e “pessoas”. Sobra para Félicie, personagem balzaquiana por excelência e proustiana por acaso, seguir tentando dar um rumo a sua vida. Seria mais fácil, certamente, se as pessoas desde sempre soubessem onde está o amor. Caso assim fosse, Félicie não perderia tanto tempo procurando. Mas também não experimentaria com sua própria vida.

Rohmer estica as possibilidades de mudança até esgotá-las, retrabalhando polaridades enquanto existe um mínimo de espaço. A jovialidade de Félicie está explicita mais por suas atitudes (e não atitudes) e decisões do que por sua aparente fragilidade. Não saber ao certo para onde se deve ir (ou mesmo se o mais correto é ficar e deixar as coisas fluírem naturalmente), em quem confiar, a quem se entregar, são sensações externadas pelas situações; Félicie é tão capaz de namorar um homem casado e ao mesmo tempo morar com outro, que pouco surpreende o fato de que ela não está conhecendo o suficiente de si própria. A sensibilidade adquirida com a maturidade pode remediar, mas não a torna imune – sabemos que em Rohmer não existem imunidades dramáticas. As lembranças de Charles não lhe saem da cabeça, e isso a deixa desnutrida, impedindo que qualquer ato seu possa ser dado como plenamente consciente. E como uma aventura juvenil, o efeito da busca de Félicie pela felicidade e pelo amor resulta numa volta grandiosa ao redor de pessoas e experiências apenas para descobrir que a plenitude já esteve em suas mãos, mas ela a perdera. O corpo, após extenso período descontraído, volta a se contrair, estando de volta ao seu estado natural.

(Conte d’hiver, França, 1992) De Eric Rohmer. Com Charlotte Very, Frédéric Van Den Driessche, Michel Voletti, Hervé Furic, Rosette, Marie Rivière, Ava Loraschi, Christiane Desbois.

2 Responses to “Conto de Inverno”

  • Sempre repito o mesmo comentário quando você posta críticas do Eric Rohmer aqui, mas falo sempre a mesma coisa porque isso é pura verdade: infelizmente, nunca assisti a nada desse diretor.

  • Pedro Henrique Ferreira

    Curiosamente, acabou de sair uma crítica minha comparando o novo da Mia Hansen-Love com este. Vê o filme dela se sair por aí que vale a pena. Abs.

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