04th Nov2011

Noites de Lua Cheia

by Pedro Henrique Gomes

Publicado originalmente em Cinefilia – Revista de Cinema

Se ela dança, eu danço

Louise (Pascale Ogier) é uma jovem francesa que estagia numa agência de decoração de interiores. Louise mora com Remi (Tchéky Karyo), com quem namora. Desde o início entendemos que eles são opostos. Remi é caseiro, quer casar e ter filhos, enquanto Louise aprecia a liberdade, gosta de sair sozinha e curtir a vida com sua jovialidade. A pressão de Remi a atormenta, pois ela acredita que o matrimônio lhe roubará a liberdade. Daí ela resolver alugar um apartamento no centro de Paris, para manter certo distanciamento de Remi, e assim continuar amando-o e tendo tempo para sua diversão. Louise que a distância pode apimentar a relação. Frequentemente passa a encontrar-se com Octave (Virginie Thévenet), escritor com quem divide grande parte de seu tempo. A relação entre os dois é estritamente amigável pelo olhar de Louise, mas Octave tem outra percepção. Durante uma festa, ela conhece Bastien (Christian Vadim), um jovem músico, com quem inicia um romance. São estes os personagens movediços que Rohmer analisará para construir uma visão íntima e delicada sobre as relações humanas: o amor e a traição e o desejo e a paixão carnal são os sentimentos em jogo. Um filme assinalado, desde seu prólogo, como perigoso.

O filme todo funciona na subjetividade. As escolhas dos personagens são feitas inconscientemente, a revelia de qualquer noção ou lógica. O tempo inteiro corre-se riscos: Louise arrisca-se em seus encontros com outros homens (em festas, em restaurantes, na rua); Remi põe sua sobriedade de lado ao perseguir a mulher; Octave torna-se também inquisidor em relação a Louise. A neutralidade aparece em Bastien, justamente o coadjuvante, o não-personagem. Os personagens de Noites de Lua Cheia sofrem de grandes problemas psicológicos, eles têm medo: medo de perder alguém, medo de não conquistar alguém, medo de ser infeliz, medo do futuro. As operações realizadas são pouco funcionais, e muitas vezes agem contra seu próprio bem. Aflições e dúvidas esparram-se pelos corações inquietos, debulham sob suas almas e cerceiam seus dogmas. Mas não só, os tornam seres iguais, em busca das mesmas coisas (amor e, subjetivamente, também buscam a felicidade, que, a priori, é inalcançável, intangível). Assim, a realidade (ou o senso de realismo, já que realidade é sempre uma palavra muito delicada e perigosa em se tratando de uma obra de ficção) torna mais sensível o drama. Noites de Lua Cheia acaba por isso sendo um drama muito antes de ser um romance (até porque é certo que todo romance carrega sua tragédia e tende a render-se a ela).

A sequência toda da festa, na profusão de corpos pulsantes e alegres, quentes e desejantes, livres e amantes, reúne toda a ideia pensada por Rohmer para seu filme. É também um jogo político, um movimento elástico de ações e consequências. Louise é o ser dominante, poderosa e almejada. Homens e mulheres a olham com atenção, observam seus passos e sua louca dança. Seu olhar hipnotiza a quem toca; é o olhar que modifica as coisas. Ela é, portanto, o cerne da história. Bastien, Remi e Octave são envoltos sob seus signos e jogos maquiavélicos de sensualidade e potência. São homens rendidos perante sua grandeza. Mas o ápice não é duradouro, a queda pode ser um destino cruel, ou um recomeço. Na concepção de Rohmer, a desestabilização emocional é a questão mais interessante a ser analisada. Outra grande cena elucida essa queda, ou o início de sua derrocada amorosa e seu desespero pré-solidão: no restaurante com Octave.

Quando ela vai ao banheiro, encontra Remi e se esconde para ele não vê-la. Saberemos somente depois que Remi estava jantando com outra mulher, justamente uma que conheceu na festa. Enquanto isso, Octave passa a pressioná-la da mesma forma que Remi fazia, prometendo amor eterno, o que rebela ainda mais Louise, que acaba encontrando em Bastien a fuga para um mundo de trivialidades. Noites de Lua Cheia carrega um drama clássico de amores incautos e platônicos, mas deixa bem claro que a questão chave nesse joguete todo de palavras e olhares, encontros e desencontros, revela outra refinaria: a busca constante é pela descoberta de si mesmo(a). Nesse sentido, estamos mais próximos de um registro pautado no encontro forçado, no acontecimento planejado, do que na casualidade tão recorrente na obra de Rohmer. Louise busca sua liberdade, assim como os outros personagens a desejam. Essa busca irá nortear e ao mesmo tempo cercear as interrelações entre todos, alterando certamente “os rumos” de suas vidas.

(Les Nuits de la Pleine Lune, França, 1984) De Eric Rohmer. Com Pascale Ogier, Tchéky Karyo, Fabrice Luchini, Virginie Thévenet.

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