01st Nov2011

O Amigo da Minha Amiga

by Pedro Henrique Gomes

Publicado originalmente em Cinefilia – Revista de Cinema

Restituir o verbo

O Amigo da Minha Amiga é último filme da série Comédias e Provérbios (que conta com outros 5 filmes, entre os quais dois de seus melhores trabalhos Pauline na Praia e O Raio Verde), e como fecho de um ciclo, o encerra com elegância. Como no restante da série, aqui temos um ciclo amoroso complexo, em que desventuras amorosas e conflitos morais transitam nas mentes e nos corações dos personagens. A palavra, como sempre, é parte da encenação. É através dela que os personagens transeuntes do filme irão expressar suas aflições, tentando resolver questões existenciais – familiares a todos. Integrantes da classe média suburbana francesa, os personagens de O Amigo da Minha Amiga são a síntese de um cinema interessado em falar da contemporaneidade. E que, nesse desejo, acabam se tornando algo a mais, algo que eles, a priori, desconhecem. Portanto, não deixa de ser um filme sobre uma jornada pelo descobrimento pessoal do mais íntimo dos sentimentos humanos.

O filme conta a história de dois casais franceses, que vivem (e convivem) entre si, enfrentando suas peculiaridades e desejos. Blanche (Emmanuelle Chaulet) é uma secretária que, por ocasião de um almoço ao acaso, fica amiga de Léa (Sophie Renoir), que é técnica de informática. Blanche tem certa dificuldade em arrumar namorados, em razão de uma suposta timidez, apesar de sua beleza e inteligência. Lea namora Fabien (Eric Viellard), mas seu namoro não vai lá muito bem das pernas. Fabien é amigo de Alexandre (François-Eric Gendron), que é namorado de Adrienne (Anne-Laure Meury). Enquanto Blanche se apaixona por Alexandre, Lea, que não sabe se vai continuar com Fabien, tenta fazer com que Blanche se interesse por ele. Mas Lea é indecisa, pois nunca sabe ao certo se quer ou não continuar sua relação com Fabien, o que acaba confundindo ainda mais os sentimentos tanto do próprio Fabien quanto da amiga Blanche.

A teia de relações fica sempre balançando entre o amor e a amizade, e por vezes podemos ser confundidos pelo naturalismo com que os personagens falam um com os outros. Apesar de demonstrarem sempre interesses banais, no subtexto existe sempre o flerte mais ousado – que acaba disfarçado pelo “cinismo bondoso” dos diálogos. Alexandre, que tem Blanche em suas mãos, mas a esnoba, é afim de Lea, e chega sempre com “sutilezas na palavra” (influência explícita de Camus e Balzac) quando se dirige a menina. Lea, cedo ou tarde irá ceder ao charme discreto do rapaz, enquanto Blanche pode estar saindo com seu namorado. É esse mesmo o clima (Rohmer, como poucos, era um mestre em criar atmosferas), de relações não tão organizadas, mas certamente previsíveis aos personagens – estes, aliás, de tão diferentes entre si, de tão opostos num mesmo espaço, acabam por adquirir interesses sexuais em comum. E na organização desse espaço (cênico), Rohmer é craque.

Para elucidar personalidades extremas (Blanche e Lea não são como o fio e a navalha) Rohmer brinca com os figurinos. Se as duas vão a uma festa, uma veste azul em cima e branco embaixo e a outra o exato oposto. Os figurinos voltam com função dramático-metalinguística nos planos finais do filme (desta vez com o verde), mas que, para não estragar o desfecho, não vão ser detalhados aqui. Não que um filme possa ser reduzido a questões de encerramento, até porque (ainda mais quando falamos de Éric Rohmer) o que vale mesmo é a estrutura que lhe sustenta no caminho até esse desfecho. Não cabem “bons momentos” ou “pequenos momentos”, no final do filme, soma-se o geral do conjunto das experiências totalizantes. O Amigo da Minha Amiga é assim, dotado de mecanismos rigorosos de construção dramática e precisão na criação de “climas”, seja pelos diálogos sempre sofisticados que se inserem dentro de planos e contra-planos posicionados habilidosamente pelo diretor ou pelos momentos de puro prazer de ver aqueles personagens em embates ácidos através da troca de palavras. Rohmer também economiza na “musicalidade”, assim com Bresson, para evitar, segundo ele, a banalização dos sentimentos. Deixava que seus personagens expressassem sentimentos diversos através da palavra.

(L’ami de mon amie, França, 1987) De Eric Rohmer. Com Emmanuelle Chaulet, Sophie Renoir, Anne-Laure Meury, Eric Viellard, François-Eric Gendron.

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