19th Oct2011

Precisamos Falar Sobre o Kevin

by Pedro Henrique Gomes

A força da consequência

Reinscrever a força da imagem sob signos, ressignificar a potência cor, amplificar o desespero mental muito antes do físico (o físico vem depois, na forma de sangue). Precisamos Falar Sobre o Kevin assina tudo isso, constitui-se de passagens lógicas (engendradas mesmo para tecer um estudo psicológico, cheio de artimanhas e efeitos). Se por um lado a cineasta Lynne Ramsay captura bem a convulsão que se inscreve na tela, por outro lhe falta dramaturgia – existencial, sociológica e, sobretudo, “cientificamente religiosa”, o perdão é a essência resolutiva aqui, a vingança é pecado lógico e inconsequente. Pois não há dúvida de que We Need to Talk About Kevin é um filme baseado na concepção da criação e do perdão religiosos, portanto condizentes com todo um imaginário de conscientização pré-fabricado que, neste caso, vem da literatura e suga, no processo, sua deficiência em retratar as dores humanas, para além da simples docência da câmera (mise en scène comportada, fotografia no lugar, sempre um plano interessante) Ramsay atropela seu tema em prol da estética, deixando para o espectador só o olhar afetado e confuso na presença da desordem das funções que se estabelecem.

A história de Kevin é conhecida. Baseado no romance de Lionel Shriver, conta o drama de uma mãe que não consegue se relacionar com o filho, que a rejeita prontamente. Ela faz de tudo, mas Kevin não responde. Com o pai, joga videogame, treina a pontaria no arco e flecha, e, principalmente, sorri. Acariciam-se, como todo pai e filho, mas, nem por isso, da parte de Kevin, transita a verdade nos sentimentos que estão em troca. A relação é platônica na medida em que não há reciprocidade. O garoto joga o jogo da convivência, da necessidade – até que suas veias explodem, respingando em outros corpos. Com Eva não, Kevin fecha a expressão, se pinta de ódio, desdenha das tentativas maternas de aproximação, nada fala, apenas chora. E sempre foi assim.

Eva, certa vez, tamanha a teimosia de Kevin, que não aceita nada, não silencia por nada, descansa ao pé de uma britadeira, onde o som ensurdecedor da máquina serve como alívio aos seus ouvidos, onde se martiriza com um mal aparentemente menor (mas, a bem dizer, trata-se de um mal apenas diferente) enquanto anestesiada pelo barulho massacrante do concreto se esvaindo da terra. Mas duram sempre brevemente seus momentos de alegria na relação com Kevin, pois embora ele às vezes demonstre interesse em renovar a relação (um e outro sinal de cooperação e companheirismo escorrem de seu olhar, não mais que isso). Quando adolescente, Eva o convida para um almoço. Para sua surpresa, ele aceita, mas apenas para terminar o passeio no meio despejando-lhe uma saraivada de desafetos pueris. Se, em condição outra, antes de Kevin der nascido, Eva vivia a normalidade da vida, depois passou a agonizar, perder a paciência facilmente.

Pois, apesar da calma com que lida no início, aos poucos a mãe vai tornando-se ansiosa, mas sem nunca desistir do filho. Cria-se então, um conflito na família, entre Eva e o marido. Ele pensa que a mulher exagera na crítica ao filho, o que corrompe a situação na casa. Kevin faz a parte dele, a parte do plano. Sociologicamente, Kevin não pode ser vítima do descontrole social, da vitimização da sociedade, da falta de amizade na escola e da ausência dos prazeres da infância, pois a diretora Lynne Ramsay fracasse ao não mostrar nada da convivência de Kevin com outras pessoas senão sua família, o que artificializa a estruturação do personagem, o torna mera crise de conceitos literários; banalização da experiência crítica/fílmica. Sabemos que a relação de Kevin com amigos é nula apenas por comentários, quando a dramaturgia exigia a imagem. O esqueleto moral constitui uma performance esquemática e redutível, as vezes incapaz de revelar a quantidade de dramaticidade que se almeja transpor. É um pouco disso que o filme de Ramsay carece: transpiração. Pois não há dificuldade em exprimir as forças (ou mesmo as fraquezas) dos personagens enquanto seres erráticos e despreparados para o mundo (Eva mais do que o próprio Kevin, que, na sua insanidade, adota uma estratégia de vida), há, por outro lado, uma crise no sentido de idealizar esse drama sem enclausurar e subsistir a própria existência deles.

Ainda assim, entendemos que Kevin é sua própria consciência – o monstro que ele cria é fruto de sua concepção de mundo, de sua mortificação. Eva fez o que podia para lidar com a crise. Narrando em tempos distintos, Ramsay fragmenta as fases da vida de Kevin, da criação até os encontros silenciosos com a mãe na prisão, permeados pelas imagens do crime que o colocou ali. Escorraçada pela comunidade, Eva é brindada a todo instante com a hostilidade daqueles que antes eram seus amigos, pais de amigos de Kevin. A familiarização dos personagens com o ambiente (o filme se passa quase que inteiramente na casa da família, para incorporar a ideia de prisão, de sufoco, de limites intercambiáveis) é própria do universo de registro: Kevin só se manifesta ali, apenas com o pai – a irmã menor é também vítima de suas incontroláveis reações. O fim deixa claro que a ideia de Kevin é fazer é violentar a mãe, mesmo que não fisicamente (ele guarda suas flechas para outros). Não se discute a culpa da mãe, nem as causas do comportamento psicótico que se exprime através de Kevin – ele é assim porque é simplesmente ou porque se formou na escola da vida são perguntas possíveis. A luta de Eva consiste em tentar evitar um futuro inevitável, frear uma dor vigente, que lhe atravessa e supera, lhe deixando só a solidão. Para fortalecer a ideia de que falamos de um filme imbuído de forte crença religiosa, trata-se de uma história de resistência eterna.

(We Need to Talk About Kevin, Reino Unido, 2011) Direção de Lynne Ramsay. Com Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Ashley Gerasimovich, Jasper Newell.

12 Responses to “Precisamos Falar Sobre o Kevin”

  • Estou ansiosíssima por esse filme, especialmente pelo forte tema e pela elogiadíssima performance de Tilda Swinton!

  • Anna Shara

    Sem mentira nenhuma, ainda não consegui fazer a ‘digestão’ total desse filme… I still think about Kevin.

  • Márley

    Filme extremamente confuso.
    Há situações inexplicáveis, ou eu dormi e não percebi… o final do filme é ridículo, senão, absurdo.
    Não recomendo.
    Típico filme que até parece bom, mas o final deixa quem esta assistindo com um monte de dúvidas, principalmente quanto ao comportamento de Kevin na última cena do filme.
    Para quem gosta de filmes com finais confusos é um prato cheio… oras, ele se arrependeu? ele amava a mae? tinha complexo de édipo? PQP, filme péssimo, deprimente.
    Respeito a opinião dos colegas, mas não recomendo mesmo.

    • Final ambíguo não é o mesmo que final confuso. Dentre os muitos defeitos do filme, esse suposto, me parece, não é um deles.

      Abraço!

    • Mariane

      Márley, o filme é baseado num livro, quem sabe lendo o livro você possa entender melhor a história.

  • Juliana Reis

    MUITO TARDIAMENTE…

    Como eu discordo da sua análise.
    Como a idéia de religiosidade ou de perdão nem me visitaram um unico atmo de segundo durante o filme que assisti apenas ontem.

    Se durante boa primeira parte dele, fiquei incomodada com o inhumano diabolismo de Kevin, me prostei chapada ao ser bombardeada perto do fim pela compreensão epifanesca de que, não é Kevin que interessa (até pq seria pretensioso e vão tentar descorticar o seu ato, e, portanto, impossivel, contrui-lo, ato e personagem, dramaturgicamente).
    Aquele abraço da mãe na cena final me rasgou o coração; mas sobretudo o pensamento. Me prostrou e me chapou.
    E perceber claramente que esse processo em mim, do incomodo a prostração, foi meticulosamente conduzido pelo diretor, é, a meu ver, maestria de tirar o chapéu.
    To ate agora sim, chapada.

    • Oi, Juliana. Obrigado pela leitura e comentário.

      Sim. O filme é explicitamente sobre a mãe, não sobre Kevin.

      A questão da religiosidade, não é uma coisa que esteja embutida intrínsecamente no filme, mas de forma extrínseca. Essa força que o filme teve sobre você, não procede substancialmente em mim. O filme tem bom pulso (e vejo isso mais hoje do que quando escrevi o texto), mas também tem fraquezas. Pretendo voltar à ele em breve.

      Abraço!

  • ricardo

    achei o filme muito pesado e tenso, que deixa a pessoa ansiosa para saber qual tragédia aconteceu diante daquela multidão e ambulâncias e tenso ao ver o sofrimento de Eva sozinha e repudiada por todos ao seu redor, o que é uma injustiça sendo que ela não teve culpa alguma no crime que seu filho realizou.. enfim, achei o filme interessante, mas fiquei com algumas duvidas..

    1 – na primeira vez que ela o visita na cadeia, ele tira algumas coisas da boca.. o que eram? nao consegui ver direito

    2 – a menina foi para no hospital por causa de produtos de limpeza deixados fora do armário?

    3 – quando o casal conversa na sala sobre algo a ver com uma decisão do pai de kevin, em que ele fala para esperar o ano letivo acabar e resolver o problema no verao, momento em que kevin chega e escuta parte da conversa, e comenta que o contexto é ele.. sobre o que eles estavam falando?

    se alguem puder responder em forma de comentario abaixo do meu, serei grato.

  • Eduardo

    1- R: Provavelmente unhas.
    2-R: Sim, os produtos de limpeza causaram a perda do olho esquerdo da menina.
    3-R: Nesse momento eles estavam falando sobre divórcio.

  • Boa noite galera.
    Bacana os comentários a respeito do filme.

    Como essa me parece uma obra bem aberta, as interpretações são muitas, por isso é bacana deixar minhas impressões sobre o filme.

    Achei excelente, adorei…

    Primeiro pela questão já apontada da sensibilidade estética do filme, tanto na montagem quanto na composição cromática. A diretora no primeiro take já faz suas escolhas, e segue fiel àquilo que para mim é o único tema do filme….culpa. Nisso o não verbal da cor vermelha tem um papel fantástico.

    Para mim ficou claro que o filme é sobre isso, CULPA. Me parece que é mais que uma simples culpa, é todo um sistema retroalimentado de ignorância, angústia, insegurança, uma culpa complexa, se é que consigo expressar o que senti com o filme.

    Vejam a imagem da mãe. Para todos aqueles que ñ tem filhos, talvez seja mais difícil se colocar na situação, mas ter filhos hoje é a coisa mais assustadora e incontrolavel da mundo, a melhor metáfora para simbolizar essa história.
    Eva é ameaçada contantemente. É posto em xeque suas liberdades individuais, seu EU, a ameaça ao seu individualismo, sua figura egocêntria. Isso já se manifesta claramente quando o conceito de gravidez é apresentado no filme. Vejam cmo a cena é griz, morta. Nesse momento é a primeira morte da personagem, se antes, na Tomatella, ela era vibrante, o resto do filme ela é só um fragmento do que havia sido. Eva poucas vezes antes dos homicídios de Kevin, consegue se articular para fora de sí, e Kevin segue como um espelho dessa atitude.

    A história segue com diálogos minimalistas, espaços entre os personagens cada vez maiores, a fobia de Eva vai crescendo e os seus demônios a consumindo por dentro.

    Não vivo na América para fazer conclusões definitivas, mas imagino que a figura dela representa todo medo americano, todas essas fobias, a paranóia xenofobista, o medo de quem vem de fora e de quem mora ao lado, tudo é ameaça, até as crianças no jardim podem ser o “inimigo”.

    No final, Kevin saúda uma platéia vazia onde só figura a bandeira americana. Que sociedade é essa?

    Para mim a “redenção” de Kevin, é a estafa de se viver angustiado, oprimido, amedrontado, e se pergunta a si mesmo no fim das contas…PORQUE? E a resposta é desoladora… “Costumava achar que sabia.”

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