12th Oct2011

Segunda-Feira de Manhã

by Pedro Henrique Gomes

 

Quando não se pode fazer um filme sobre a falência existencial do Ser baseada numa série de desafetos reconhecíveis em dramaticidade, que se faça um sobre qualquer coisa, sobre aquele velho drama plausível e mais facilmente incorporado a fruição plastificadora da experiência. Segunda-Feira de Manhã, filme de Jean-marc Moutout, é assim. É muito inteligente para ser um filme “em construção” (entendemos por “filme em construção” todo aquele que não deseja somente mostrar imagens e pessoas conversando, mas ressignificar e politizar o mundo), maduro demais, conhecedor demais das coisas que filma, dos corpos que registra (até com certa habilidade, é possível dizer). Mas, então, para que filmar? Para que abrir a câmera para esses dramas secundários, tão banalizados pela própria vida (problemas no trabalho) e também pelo registro cinematográfico.

O dispositivo que move o filme de Moutout é a negação do próprio drama, pois já é reconhecido – e afinal, para que filmar aquilo que já se conhece? –, já não se apresenta para o mundo, se liquefaz diante da mais razoável análise.  Nesse contexto, esvazia-se a poética da representação, na contramão da relevância do tema, tem-se o rigor mecanizado em impensável inocência – ainda que a inocência injustificável de Segunda-Feria de Manhã não seja seu único problema em absoluto. O entrave clássico do filme dramático contemporâneo consiste em investir (e revestir-se de) toda e qualquer potência estética e narrativa na missão de induzir o espectador a tentação do sentimentalismo.

Mas filmes que pensam o espectador como um objeto identificador de histórias semelhantes as de seus personagens, de vida tão dura e sofrível como as suas, já se assumem como meros sedutores – de olhares. Para Moutout, parece não haver outra forma para externar o desespero que consome Paul se não for através de cenas-conceito tidas como esteticamente elucidativas (a primeira reunião em que Paul percebe o novo funcionário como uma ameaça latente que chegou para tomar o seu lugar, o espaço onde outrora reinava absoluto, onde comungou). Consequentemente, a perda da força no trabalho reflete na vida familiar, multiplica a pressão interna, criada por ele próprio, em relação a hierarquia que ele agora vê desmoronar. Em Paul, o que reflete ainda mais rigorosamente é a perda do mundo, a perda do controle da ambiência de sua relação com ele.

E ele se rebela, sobretudo e sobre tudo, com sua condição e com as regras do jogo, com as quais, por sinal, não soube lidar e contornar. Revolta essa que se introduz não contra o sistema (contra o capitalismo), pois, afinal, ele ainda fazia parte do esquema até tomar a decisão de matar seus patrões, e sim justamente porque continuou acreditando nele, daí a desilusão, daí a tomada de posição e o ato peremptório. Ora, não há nada de político em suas ações (muito embora a própria revolta já seja em si politizada, ainda que secamente desfocada), até porque Paul já assume seu destino antes do crime. Mesmo assim, ele não aceita ser morto (novamente) pelo sistema, tampouco se deixa levar pelos policiais. Mais uma vez, escolhe seu próprio devir.

Tudo isso pois, numa segunda-feira como outra qualquer, ao chegar no trabalho, Paul tranquilamente se desloca pelos corredores do Banco de Comércio e Finanças, onde trabalha, portando uma arma, e então dispara contra seu chefe e o homem que tomou seu lugar, hierarquicamente, dentro da empresa. Pensando o mundo como um lugar finito, onde perecemos, Paul opta então pela solução mais fácil ao se desfazer dele. Ele desiste do mundo, não o contrário. Embora haja uma premissa aí, não há um controle sobre sua fruição, justamente porque tudo que brota disso é despido de potência, é um drama pequeno demais, pouco.

(De bon matin, França, 2011) Direção de Jean-marc Moutout. Com Jean-Pierre Darroussin, Valérie Dréville, Laurent Delbecque, Yannick Renier, Xavier Beauvois.

One Response to “Segunda-Feira de Manhã”

  • Curioso que, ao ler seu texto, pensava se tratar de um ótimo filme, mas aí, a gente chega ao final e vê que o filme meio que deixou a desejar.

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