11th Oct2011

O Americano

by Pedro Henrique Gomes

Um filme sobre filmar nada

A premissa é tudo aquilo que O Americano tem para oferecer. Em essência, não mais do que isso. A tela se preenche de falsos dramas, entope-se de conflitos banais, que, quando filmados, só desejam engendrar a tal humanização dos personagens (por isso tornam-se desumanos). Em sua estreia na direção de longas, Mathieu Demy não quer vencer o espectador com dialogismos intelectualóides, muito caros ao cinema francês contemporâneo. Ao contrário disso, investe na estrutura mais minimalista possível, tal qual demanda sua fruição. Não raro, o filme vai se costurando perecível e acaba por se desmembrar em uma atmosfera qualquer, para quem a vida é só um drama a mais que precisa ser vencido. Seja qual for sua intenção, o filme de Demy só consegue se repetir, objetar sua história a partir de uma premissa cansada (homem perde a mãe com quem não falava e volta as suas origens para acertar as contas com o passado) e se articular em virtude de caprichos estético-visuais (filmar repetidas vezes o corpo semi-nu de Salma Hayek, flashbacks indispensáveis que mostram algumas situações da infância do protagonista enquanto as recorda) que não são nunca suficientes para sanar sua esquematização. O esqueleto do roteiro já é entregue ao espectador de antemão, o que retira a possibilidade dramática da história.

O filme conta a história de Martin (Mathieu Demy, que atua, escreve, dirige e produz), homem que, na primeira cena, após o sexo com a namorada, recebe a notícia de que sua mãe acabara de morrer. Após o choque, Martin parte então em busca de Lola, a mulher que cuidou de sua mãe durante boa parte de sua vida. De Paris, ele parte rumo a Los Angeles, nos Estados Unidos, onde sua mãe morava, e onde fora criado. Lá, tratará das pendências em relação a herança. Mas ao encontrar uma foto de sua mãe com Lola, amiga de infância, decide ir atrás da menina da foto. Ao descobrir que Lola vive agora em Tijuana, no México, e trabalha como stripper em uma boate, Martin não hesita em tentar falar com ela. Agora ciente da mulher que a velha amiga se tornou, ele vai em busca de algo que não sabe muito bem precisar o que é.

Dito isso, já é possível sentir o peso da proposta. Percebe-se um filme minimamente interessado em construir um personagem para além da própria estetização que o cinema francês contemporâneo vem criando para si, e, todavia, largamente amparado no equilíbrio de suas aflições, no desdobramento de sua história, nunca no que move suas ações, suas perguntas. O problema fílmico de O Americano é que ele não tem um problema dramático. É tudo fácil demais (simples resolução), é aqui onde o momento mais perigoso que o protagonista enfrenta é ter de pagar 100 dólares o tempo inteiro para poder ter uns minutos de conversa com Lola. O medo dele é esse, não ter dinheiro – e ele de fato perde grana quando seu carro é roubado com todos seus pertences no porta-malas.

Demy recorre as mais primárias formas de externalizar os sentimentos de seus personagens, seja através de diálogos (sempre redundantes, quase sempre inadequados) ou através de composições imagéticas (filmar o rosto de Martin refletido num espelho que desfigura seu rosto é exemplo forte do desleixo para com o espectador). Para Demy, toda ação dramática (que drama mesmo?) deve vir acompanhada de uma maneira simples de demonstrá-la, de explicá-la. Nesse processo, se perde autenticidade, desaparece qualquer traço autoral possível, mumifica-se a arquitetura narrativa talhando-a a resultados dos mais comuns – uma pequena reviravolta facilmente identificável anuncia-se com antecedência, apesar de se julgar séria. E talvez seja isso que faça de O Americano um filme tão fortemente detestável.

(Americano, França, 2011) De Mathieu Demy. Com Mathieu Demy, Salma Hayek, Geraldine Chaplin, Carlos Bardem, Chiara Mastroianni.

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