12th Sep2011

Super 8

by Pedro Henrique Gomes

 

Se muito do esforço de Hollywood para tentar revitalizar a indústria (não no sentido de formar espectadores, pois não é esta a preocupação dos empresários, mas no de vender ingressos; que são coisas absolutamente distintas) está em resgatar histórias clássicas através de refilmagens ou releituras, então Super 8, filme que J. J. Abrams dirige e Steven Spielberg produz, se enquadra em algum espaço aí no meio. Nenhum, nem outro, mas um pouco de cada. Primeiro porque Super 8 não é uma refilmagem em si, mas um pastiche. Ou seja, se utiliza de referências para se movimentar e articular, inserindo-se num espaço não totalmente novo, mas nem por isso necessariamente velho. Segundo, pois, basicamente, reduz a releitura a imagens semelhantes às de certos filmes e se constroi a partir daí, dessa experiência da cinefilia da louvação – que não é pouca. No entanto, Abrams, cinéfilo dedicado, tem dificuldade ao transformar essa atmosfera em uma produção original e autêntica, com potencial que se desenhe e se faça crer relevante dentro uma aventura possível. Ocultado pela falta de frontalidade da narrativa, o dispositivo central da história, que é o mistério do trem que descarrilha e dos acontecimentos incomuns que passam a assustar os habitantes de uma pequena cidade no interior de Ohio, nos EUA, torna-se um assunto de desinteresse, já que o mais importante passa a ser o romance entre dois jovens que presenciam o acidente, a birra que o pai da menina tem com pai do garoto, sendo que isso não produz a emoção genuína presente até mesmo dos piores filmes de Spielberg. Minimizar as situações (porque Abrams prefere espraiar nos movimentos soluções conhecidas do espectador) reduz o impacto do suspense e amplifica a jocosidade dos bons sentimentos.

Jogar para cima das crianças a responsabilidade de salvar e proteger o mundo (os EUA) revela o peso da aventura. Super 8 é claramente um filme para reverenciar suas influências, dialogar com os filmes que “marcaram época” e travar essa relação entre a homenagem e o moderno. Abrams lida bem com a perspectiva do público. Esconde o monstro até quando se torna impossível deixar de mostrar suas feições, entrelaça personagens adultos de maneira a confrontá-los, colocando-os como ameaças aos planos das crianças, filma bem a ação mecânica (a câmera não treme desnecessariamente, exceto quando precisa engendrar um efeito) e não extrapola na música, a exemplo de um filme de Steven Spielberg ou George Lucas. Tal consciência fílmica, não obstante parece sufocar o outro lado da coisa. Pois, quando é assim, o pastiche pelo pastiche, o original será sempre melhor. E é assim porque Super 8 não quer ser mais que isso (mais que um pastiche), quer ser o “filme para toda a família”, quer ser o filme do momento para aliviar o stress, o filme que comprova a permissiva questão base que guia a indústria hollywoodiana: cinema é lazer e só. É ver e pronto, a aventura acabou. Nesse contexto, é difícil pensar nele como algo maior do que um clipe de filmes antigos. Super 8 está aí para lembrar outros filmes, essa nostalgia barata, esse egocentrismo vazio.

E se Super 8 é um sintoma desse cinema explicitamente revogador de mitos antigos, porque não pensá-lo como tal? Aí, também, há esquemas facilmente desmembráveis. Se falamos de um filme-pastiche-homenagem, qual a força criativa verdadeira que esse filme pode ter se o grande foco desse olhar (Spielberg) está também pensando no filme? Não há, assim, ideias, só escolhas de cenas. Homenagem a si mesmo não é cinema de fato. O distanciamento passa a ser contraposto pela aproximação, pela parceria, mas Super 8 não tem mesmo o espírito cativante dos filmes que reverencia (E.T., Os Goonies, Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau), resgatando deles somente as temáticas. Pois tem o extraterrestre, tem a relação pai e filho calcada na obra de Spielberg, tem o olhar distópico sobre crianças e adultos, tem a paixão juvenil. Todavia, há muitos outros cineastas compilando pastiches e transbordando esse cinema de homenagens com muito mais força e sentimento, como Tarantino, Honoré (embora cada um com escolhas também questionáveis) e alguns outros – poucos. No caso de Super 8, a aventura não tem adrenalina, o drama não tem profundidade, o humor rasteja para suplantar-se pela gag da homenagem mais próxima, a moral (do filme e do diretor) é diluída assumidamente dentro de um “Spielberg, eu te amo” estridente.

A desenvoltura já é marcada, só morrerão adultos e desconhecidos, os inimigos farão as pazes, os homens se sensibilizarão com a atitude do vizinho interplanetário, somente a criança (a mente pura e distante dos males da vida) será capaz de se envolver didaticamente com o extraterrestre, compreendê-lo, mostrar o lado branco da força. Diante disso, a expectativa consiste em ver o monstro, não importa o que vai acontecer depois com ele. Após isso, não há mais nada para ser visto em Super 8 (à exceção dos créditos, que trazem as melhores cenas do filme). E o problema não é previsibilidade da trama (se é que podemos falar em trama), tampouco a secura das cenas. O mais funesto de Super 8 é que não importa se ele foi feito hoje ou se tivesse sido lançado há trinta anos, a monotonia das imagens é a única coisa que de fato prospera. Não tem mistério algum, o monstro será humanizado, estará nos seus olhos quando do contato com a criança iluminada. Ele, o extraterrestre, reconhece, como em E.T., que o homem não é de todo ruim, e só reage com violência quando é agredido violentamente. Eis a grande lógica.

(Super 8, EUA, 2011) De J. J. Abrams. Com Elle Fanning, Joel Courtney, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Ryan Lee, Joel McKinnon Miller, Noah Emmerich, Glynn Turman, David Gallagher, Ron Eldard.

4 Responses to “Super 8”

  • Acabei lendo sem ter visto o filme, e pouco me preocupando com spoilers, já que espero por que ele estreie em minha cidade há tempos e acabei descobrindo detalhes sem querer. Disso, achei interessante a discussão que você estabelece no terceiro parágrafo, sobre Spielberg também ter grande influência no que é mostrado, mesmo sendo ele o foco de homenagens. De resto, espero para ver.

  • Gostei de “o lado branco da Força”. Bom, a proposta do filme é divertir, mestre. Mais que isso, homenagear uma época, um cineasta. Só. Talvez tenha faltado mais um pouco de J.J. Abrams. Talvez. Mas acho que ele quis mesmo é dizer “Spielberg, Eu Te Amo.” Só. Para ele, desta vez, bastou isso. Cabe a cada um de nós abraçar a ideia, a homenagem. Ou não. Como cresci naquela época, ficou fácil pra mim.

    Abs!

  • Excelente texto, Pedro, apesar de eu não concordar com algumas das opiniões que você expressa. Acho que você foi muito feliz ao dizer que este filme é um pastiche. Porém, vejo que, ao emular o passado, os elementos de filmes dos anos 80, do universo do Spielberg, o J.J. Abrams consegue ainda colocar o olhar no futuro, mostrando como ele pode render ainda como diretor e como uma das mentes mais criativas e promissoras da indústria atual.

  • Acho que essa ausência de originalidade é mesmo um problema dentro do filme. Mas toda a carga emotiva referencial que ele traz faz muito bem à história de tons nostálgicos que o filme pretende contar. Não sei se existiam pretensões maiores do que isso, o que não deixa de ser uma limitação.

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