31st Aug2011

Pacific

by Pedro Henrique Gomes

Sobre eu e sobre você

Durante uma viagem, é natural ver diversas pessoas saírem a registrar (em vídeos, fotografias) com suas câmeras e seus portáteis os momentos vividos, salvaguardando “os instantes” para a posteridade, guardando em imagens as lembranças dos lugares e das pessoas que conhecem para não serem traídas pela memória. Num cruzeiro rumo a Fernando de Noronha, próximo ao Réveillon de 2008/2009, no qual estava a bordo a produção do filme, algumas dessas pessoas tiveram suas filmagens emprestadas à equipe para uso em um futuro documentário sobre essas gravações. Pacific, o filme realizado a partir dessas imagens anônimas, dirigido por Marcelo Pedroso, faz a colagem a partir do olhar que esses pequenos filmes possuem indistintamente (tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais) para elaborar outro olhar através do filme que os abraça, e esse tem a visão do diretor. São pessoas estranhas umas as outras, mas que essencialmente compartilham da mesma excitação pela aventura, o mesmo desejo em conhecer lugares e pessoas – um desejo também que deve ter contagiado Pedroso, no que diz respeito a conhecer o outro para conhecer a si mesmo.

Marcelo se apropria dessas imagens captadas aleatoriamente por grupos familiares diversos para construir uma visão de mundo, buscando olhar o cotidiano a bordo de um grande cruzeiro (veja bem, com todas as altercações psicossociais que possam existir quando se mistura um contingente tão vasto de pessoas e seus “modus operandi”), no intuito de constituir uma narrativa. Mas para dar forma, corpo e roupagem a essa estrutura bastante delicada de processos cognitivos do coletivo, só mesmo deixando que a espontaneidade com que essas imagens foram captadas se perca nela mesma, se contamine de uma razão possível de ser, pois é muito certo que cada família tenha fé em sua história e sua maneira de registrar o momento, restando ao diretor apenas organizá-las, daí surge o conhecimento compartilhado para conectar experiências peculiares aos olhares que se sobrepõem a todo instante na tela (o dos personagens e o do próprio Marcelo). O que, logicamente, faz de Pacific um filme de montagem, onde a partir daí, de seu fluxo experimental de cenas, seja erigida uma narrativa externa.

Mas o que torna Pacific um filme até mesmo encantador é a impossibilidade de o diretor interferir na ação do jogo (ninguém sabia que estava “atuando” para um futuro filme a ser exibido em cinema) e como isso não o torna epicentro para pequenos filmes desfilarem suas irreverências, mas um espaço crítico onde todos podem conviver e aglomerarem-se para construírem uma história só, uma história que diz muito de nossa própria sociedade – de nossos costumes, escolhas, sonhos e ilusões.

(Pacific, Brasil, 2009) De Marcelo Pedroso.

Texto escrito em 26/04/2011 por ocasião do CineEsquemaNovo 2011.


2 Responses to “Pacific”

  • Gostei da crítica. Mais um filme que descubro aqui.

  • Gosto nesse filme, particularmente, do autoretrato que eles (os próprios passageiros) fazem de uma classe social brasileira burguesa e emergente que, muitas vezes, parecem tão vazios e bobos em seu próprio mundo de maravilhas (não à-toa o destino é Fernando de Noronha). Só acho que o filme estabelece essa ideia já na sua metade, e só resta reiterar essa mesma ideia até o fim. De qualquer forma, é uma jornada interessante do ponto de vista da construção narrativa fílmica, algo que tem sido muito experimentado no cinema brasileiro recente.

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