26th Jul2011

Sintomas do cinema hollywoodiano

by Pedro Henrique Gomes

Quais são os filmes que fazem a nossa cabeça? Quais são as qualidades desses filmes? Porque esses filmes são os nossos filmes favoritos? Quem está fazendo bons filmes? Porque tantos efeitos especiais? O que é filme de arte e o que é filme comercial? Quem é capaz de julgar quando um filme deixa de ser arte? Se não há respostas para todas as perguntas, ao menos existem as perguntas. Assim, sem pretensão alguma de respondê-las, vamos tentar, sobretudo, enxergá-las. Ao mesmo tempo, e decerto de extrema importância, adotaremos uma linguagem mais direta, como pede o tema. A ideia é ir publicando, aos poucos, uma série de textos sobre o cinema estadunidense (vamos utilizar este termo ao nos referirmos ao cinema “americano” para ficar bem claro sobre quem estamos falando), visando, antes de tudo, problematizar certos sintomas desse cinema que pode ser ao mesmo tempo tão belo e tão pobre. Se chegamos a tal ponto, não é por nada menos do que reconhecimento a uma cultura de cinema que tanto respeitamos e admiramos, além de atestar sua importância.

Originalmente escrito sem pretensão de ser publicada (pelo menos não agora), essa série textos (na verdade trata-se um artigo muito extenso que preferi subdividir), pode ser mais importante e relevante se compartilhada e discutida agora mesmo, sem espera ou revisão, com todos que possam se interessar.

Sobre o quê mesmo?

Os Estados Unidos, assim como todos os países que realizam filmes em larga escala, possui dois tipos de cinema bastante distintos. Hollywood é a grande indústria, criadora de sonhos e ilusões. Logo ali, à margem, pulula um cinema mais independente, de certa forma mais radical, na medida em que escapa do sistema produtor e mantém as ideias mais centradas na figura do roteirista/diretor. Assim, tanto o meio de produção quanto a forma dos filmes, obviamente, resultarão em filmes diferentes.

Hollywood, o mainstream

Antes de tudo, um apontamento tido como básico para qualquer início de discussão nesse sentido. É o público (a maioria dele) que dita a forma dos filmes. Ou seja, Hollywood produz on demand. Os filmes hollywoodianos são mais “puros” tecnicamente, aqueles que utilizam pouca ou quase nenhuma atividade “disfuncional” em relação aos padrões de câmera, de luz, de textura, de linguagem ou mesmo de gênero. Esses são justamente os filmes mais apreciados pelo grande público, pois já chegam embalados de maneira a não desagradar o freguês. A tarefa mais arduamente realizada em Hollywood é filmar o mesmo corpo, o mesmo diálogo, a mesma história de superação, o mesmo espaço fílmico, aquele velho drama. É mesmo filme lançado 30, 40 ou 50 vezes ao ano. Essencialmente, grande parte (veja que não há generalização) dos filmes hollywoodianos trata dos mesmos conflitos, das mesmas histórias, sob outra ótica (mas, quase nunca nesses casos, sob outro olhar). Eles dizem: “Nós fizemos os filmes que os espectadores querem ver!”. Não é assim. Cito Pauline Kael, numa frase dita em 1964 e presente no livro Criando Kane & Outros Ensaios (Ed. Record), mas que ainda tem lá sua rigorosidade: “Os filmes hoje são muitas vezes feitos em função do que os telespectadores aprenderam a aceitar”.

Nessa lógica industrializada de procedimentos, prevalece, na feitura dos filmes, o tratamento que vem levando as pessoas ao cinema, ao passo que foi o cinema estadunidense que moldou o processo industrial do cinema mundial, ou seja, suas linhas de produção, o star system e toda política de estúdio baseada no produto mais rentável. Basicamente, esse cinema funciona como mecanismo propulsor de imagens-conceito, fórmulas etéreas, sonhos prontos, diversão pura e simplesmente, entretenimento massificado e inconsequente, reto e certinho. O que, desde o lançamento de Tubarão em 1975, se convencionou chamar de blockbusters. O jogo é abrir a câmera, filmar o fundo verde para posteriormente digitalizar, com muitos efeitos, as imagens dos belos rostos e corpos enquadrados. Raramente surge um filme nesse padrão que consiga realmente produzir imagens novas. Para o público, é ver e pronto – cinema é isso aí.

Por outro lado, a cinefilia contemporânea, bem como boa parte da crítica, clama por um cinema hollywoodiano clássico, ditando frases conhecidas como “não se fazem mais filmes como antigamente” ou “o cinema hollywoodiano vive uma crise de identidade”. Ora, jamais existirá um cinema clássico na contemporaneidade. A narrativa mudou, a exigência (falamos de um cinema essencialmente comercial) estremeceu. E é bom que seja assim. O cinema hoje, se não é necessariamente obrigado a refletir sobre o factual do instante, ou seja, se não precisa ser um reflexo da vida (e, de fato, não precisa), ele ao menos permite que a vida reflita sobre ele. O cinema não olha para fora, deixa-se olhar. O cinema pelo qual precisamos lutar é aquele que se entrega a descoberta para daí retirar sua força, seu sentimento, e esse cinema corresponde a um exercício moral muito caro aos realizadores inseridos no sistema, pois exige um comprometimento para além dos mandamentos devidamente estabelecidos por ele. Uma luta, todos sabem, difícil de ser vencida – isso quando ela quer ser vencida, porque Hollywood se alimenta inclusive do próprio cenário independente, colhendo filmes vencedores de festivais para distribuí-los nos cinemas.

Tais afirmações incorrem de um equívoco altamente difundido no pensamento crítico new age e até mesmo dentro de determinados círculos da cinefilia contemporânea. Essa ideia de que Hollywood é uma indústria de entretenimento e que, assim sendo, deve se preocupar simplesmente em oferecer produtos que não desafiem a manutenção da lógica produtiva, falha já no conceito. Nesse sentido, a luta dos produtores não é pela profundidade, mas, inversamente (e propositalmente), pela superfície, pelo balizamento fácil e aceitável. Antes de tudo, qualquer tipo de cinema é feito para entreter, desde Ramin Bahrani (cineasta independente) até Michael Bay (um dos baluartes do cinema-comércio), daí supomos que a tese que diz que “esse filme foi feito apenas para entreter” não se sustenta. Entretenimento é o mínimo, a base, o alimento primário. Um filme precisa ter algo mais. Não faz muito sentido entreter por vias daquilo que, por sua natureza e essência, já é entretenimento. O que leva uma pessoa ao cinema senão o prazer do filme, a experiência do cinema? O algo a mais.

À margem

Cinema é manipulação. A função primeira do arrasa-quarteirão é fisgar o público pelo visual, com efeitos e diálogos não muito estendidos, cortes secos, montagem acelerada. A proposta é facilmente aceita pelo espectador de modo tal que, a partir da manipulação dos elementos técnico-narrativos da linguagem audiovisual, a gramática dos filmes passam a ser sempre as mesmas, pois é o que vende. O cinema estadunidense independente, que também é uma indústria, é o exato oposto do mainstream, justamente por manipular de acordo com outra visão. Trata-se, a bem dizer, de outra concepção de cinema, e que, como consequência, forma outro público. Não queremos dizer que, por ser independente, um filme, por automatismo, possua qualidades artísticas superiores. Atualmente, o cinema independente americano lança mais filmes que a grande indústria e, muitos destes filmes, são tão ruins quanto os piores blockbusters. Primeiro porque os melhores filmes independem de sua lógica de produção (embora poucos recursos suscitem boas ideias), e segundo porque, quanto mais filmes são feitos, maiores as possibilidades de eles incorrerem a certa banalização da linguagem.

Se esse cinema tem John Cassavetes como a figura de grande potência em sua formação, hoje respira através do fôlego bom de Jim Jarmusch, James Gray e o já citado Ramin Bahrani. Pois, não sem um pouco de ironia, podemos dizer que, por mais inacreditável que possa parecer, existem cineastas como Ramin Bahrani, que possuem um poder muito forte sobre o espectador e criam um diálogo muito naturalmente com ele. Os filmes de Bahrani não são adeptos do estudo psicológico sobre personagens, eles simplesmente se mostram, existem. A câmera é a um só tempo onipresente e reveladora – está ali porque precisa, porque quer mostrar. Seus filmes, (Strangers, Man Push Cart, Chop Shop, Adeus) não agem sobre seus personagens, não apresentam reviravoltas para marcar as imagens na cabeça do espectador, não são exercícios de fruição narrativa. Bahrani faz estes filmes, principalmente se pegarmos Adeus como exemplo (onde, muito sutilmente, o cinema transmuta sua potência e mantém sua integridade), pois eles pedem para ser feitos, e feitos assim. O cinema, fora de uma concepção calcada primeiramente no lucro, respira.

4 Responses to “Sintomas do cinema hollywoodiano”

  • É um debate que sempre será pano na manga. Argumentos secos e ao mesmo tempo perturbadores que volta a ideia que infelizmente existirá pessoas que comparte sua visão e outras não. Mais um texto genial feito por suas mãos champs! Abraços!

  • Esse texto é pra guardar! :) Parabéns!!!!

  • Jéssica Evelyn

    Primeiramente, excelente artigo.

    Abrir um debate como esse é sempre válido. Expor as problemáticas diante do tema, como você fez no texto, torna as discussões possíveis mais abrangentes e dialoga proveitosamente com o leitor, o que é – para ambos os lados, presumo – enriquecedor.

    O assunto é complicado e não se esgota facilmente, mas vou tentar destacar uns pontos e/ou questões…

    A distinção entre “cinema de arte” e “cinema comercial” é algo profundamente frágil. Não gosto dessas adjetivações, porque elas esbarram num ponto perigoso: há um cinema em que há arte e outro em que não há? Mas se elas se fazem necessárias…

    O problema-chave do cinema hollywoodiano, no geral, acredito que seja mesmo o “modo-de-fazer-on-demand”. Mas mais que isso, arrisco dizer que haja um “modo-de-ver-on-demand”, não somente por parte dos espectadores mas também (talvez principalmente) dos que realizam, produzem, atuam, trabalham os filmes. Acredito que o que torna esse cinema tão problemático é, como você mencionou, o “deixar-se olhar” que é amiúde impossibilitado. Que sejam feitos filmes bons, ruins, medianos, excepcionais… mas que esse filmes deixem-se olhar enquanto filmes.

    Uma questão pontual que muito me interessa você traz à tona no momento em que escreve: “O que leva uma pessoa ao cinema senão o prazer do filme, a experiência do cinema? O algo a mais.”
    Que seria esse algo a mais? É “algo” que não consigo precisar, muito menos nomear. De qualquer forma, é “algo” que me fascina.

    Esperando ansiosamente a continuação do artigo…

    Abraço!

    • Jéssica,

      Então, realmente não me parece possível precisar onde começa o cinema comercial e termina o de arte. Mas, até evitei falar em “cinema de arte” porque, antes de tudo, todo cinema é comercial (na medida em que precisa de um público para existir), mas não tenho tanta certeza se todo cinema é “artístico”.

      Acredito que o cinema comercial (grande parte dele, não sua totalidade) a que costumamos nos referir fala mais de um cinema “fazer-por-fazer”, “o-que-der-deu”. O cinema de arte (se ele significa algo), opera numa concepção que visa, antes de tudo, pensar o cinema, aprender e evoluir com ele. Por outro lado, há o “cinema de arte” ruim – mas sobre isso eu falei na próxima parte do texto, a ser publicado.

      Quanto ao “algo a mais”, é isso que nos fascina mesmo. É chegar no cinema esperando por algo que não se sabe de onde vem ou de que se trata.

      Grande abraço!

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