22nd Jul2011

Sobre a censura

by Pedro Henrique Gomes

Não há qualquer tipo de explicação, argumentação ou debate que parta do princípio defensor da censura. Pois o que fez a Caixa Econômica Federal, patrocinadora, por meio da Caixa Cultural, do RioFan – Festival Fantástico do Rio, ao proibir a exibição do filme A Serbian Film – Terror sem Limites, se explica na hora. Não existe outra atribuição possível: censura dos pés à cabeça. Mas o pior foi a alegação, a defesa que justificou o ato proibitório. A nota diz, em tom desnecessariamente dramático, o seguinte: “A Caixa entende que a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”. Por favor, intérpretes de linhas rasteiras, expliquem desde quando a arte ou a imaginação do artista possui limites? Se eles (tais limites) existem, quais são e quem é capaz de julgá-los? Uma coisa é certa, não será ninguém que tenha tomado tal decisão. Isso (estes limites), certamente não está escrito nos livros de teoria crítica do cinema, tampouco de filosofia. Que direito é esse, que é praticamente estabelecido? Direito de ver é direito de escolha. A arte dos filmes, os bons e os maus, constituem toda uma história crítica pessoal e coletiva. É só nesse diálogo, no exercício de assistir, que se consegue discernir o certo do errado (conceito expressamente subjetivo). É necessário mostrar as coisas para discutí-las, não julgá-las a revelia.

Ora, ao contrário de estimular a violência (novamente falamos de um conceito obviamente bastante utópico e acrítico), o filme apenas mostra que ela existe. Quando da exibição do filme durante o Fantaspoa – Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, em versão que já chegou censurada (não foi o corte original exibido em Porto Alegre), as sessões tiveram boa presença de público. O que significa isso? O público, mais do que ninguém, quer ver o filme. E se A Serbian Film não é um bom filme, que se lance um olhar crítico sobre suas qualidades enquanto produto do cinema, não como arma pró-crime. Não há qualquer tipo de apologia, e tudo que nele está imbuído colabora mais à exposição de uma realidade, que, por si só, é assustadora e factual. Ironicamente, a censura dissemina o preconceito, ao mascará-lo e torná-lo “perigoso” diante de certos olhares/interesses, ao colocá-lo como parte bandida do mundo simplesmente negando sua existência. A censura rema contra a maré da educação.

Na sociedade do espetáculo, essa é sua única função: reprimir, dominar e ditar as vontades da população. Ainda mais irônico é o fato de que, após a proibição, o filme (que, como cinema, é até bem pobre) ganhou força na mídia e despertou o interesse de pessoas que sequer saberiam de sua existência. A censura, neste caso, só vai fazer aumentar o público, já que ele provavelmente vai entrar no circuito de algumas salas menores. Porque, acreditem ou não, o filme vai ser visto e o público (esse sim) terá a resposta para única pergunta cabível neste imbróglio: o filme exalta e glorifica a violência ou atesta sua repugnância e covardia?

Da mesma forma, é absolutamente litigiosa a ideia de que um filme possa fazer a cabeça de uma pessoa. Ora, alguém que comete atos de violência tais quais os sugeridos no filme em questão, o faz por ser mentalmente desequilibrado, ou por qualquer outro motivo correlacionado ao convívio social, a solidão, ao desamparo, a educação. Ninguém se torna, se é. O mesmo conceito aplica-se, por exemplo, ao caso dos jogos de tiros, simuladores de guerra e jogos com violência explícita, quando lançam a eles um poder inexiste de incentivo à violência, atribuindo, muitas vezes, os atentados nas escolas (Columbine, Realengo) e nos shoppings (Holanda) ao jogo. Não existe estímulo possível, aceitar isso como a única razão e argumento para censurar e proibir é agir contra a sociedade, é menosprezar e alienar as pessoas, delegá-las a imposição moral de instituições muito pouco preocupadas com uma concepção de mundo (e, porque não, de cinema). Pois, para construir um pensamento crítico sobre as coisas, somente tomando contato com elas, provando de sua indigestão. O direito, no entanto, permite a qualquer pessoa que julgue o que lhe deve ser ou não digerível. Os filmes (pelo menos aqueles dos quais nós gostamos e respeitamos), assim como os jogos, os livros, as músicas, as peças de teatro e a poesia, são pedaços constituintes da sanidade coletivo-cultural, jamais embriões do mal absoluto.

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Segundo anúncio do RioFan, o Grupo Estação, em parceria com a distribuidora Petrini Filmes, irá promover uma sessão extraordinária de A Serbian Film no Cine Odeon, às 22h do próximo sábado, dia 23 de julho.

5 Responses to “Sobre a censura”

  • Bravo! Belo texto, Pedro!!!! Um absurdo esse tipo de situação acontecer.

  • É curioso como que em Portugal, para muitos como um país conservador, exibiu três vezes, o A Serbian Film na competição do Fantasporto, o mais importante festival do fantástico e até lhe atribuiu um Prémio Especial do Júri. E embora tivesse chocado muitos, não levantou grandes polémicas, ao contrários de países como o Reino Unido e até em Espanha, onde o director do festival de San Sebastian até foi preso por exibir o filme!

  • Um absurdo um ato como esse ainda acontecer. Belo e esclarecedor texto, Pedro.

  • Fabrízio

    O que esperar de uma democracia que inicia com a obrigatoriedade do voto?

  • Vinícius

    Sou contra a censura, Pedro, mas acho que “A Serbian Film” deveria ser exibido apenas em sessões especiais, com um controle rigoroso de idade. Não é filme para circuito comercial. “A Serbian Film” é para os fãs do gênero de horror, do cinema extremo, e para quem tem estômago forte. Por isso que eu não recomendo o filme. A situação é bem complicada. Exige que se leia com atenção o Estatuto da Criança e do Adolescente antes de se tomar uma decisão. Mas, enfim, a liminar foi dada por quem não viu o filme para quem não viu o filme, agindo em nome de quem também não viu o filme.

    Ou seja: uma lástima.

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