25th Jul2011

Potiche – Esposa Troféu

by Pedro Henrique Gomes

Alguma coisa sobre alguém

De início logo assusta esse mais recente filme de François Ozon. Motivos diversos: cartaz colorido, cheio de piadas prontas já mesmo no desenho gráfico, elenco consagrado fazendo pose na imagem publicitária. O enredo promete abordar um pouco da mulher moderna, muitas vezes submissa ao homem e relegada ao cargo de dona de casa, infeliz e deslocada, incrédula e passiva. Mas Potiche não apresenta o prazer pelos acontecimentos filmados, não conhece nem aprofunda seus personagens, prefere artificialismos de linguagem, aposta mais no carisma de seu elenco – se encanta mais por ele (Catherine Deneuve, Gérard Depardieu) do que pelos corpos por onde eles se manifestam. Mesmo que o filme propositalmente trabalhe com a ideia do burlesco (o que, de fato, é o caso), basicamente, fica só na superfície de todo um envolvimento dramatúrgico mais consciente. Estranhamente, neste filme de Ozon, o que mais importa é apresentar a atmosfera mais conveniente ao pior do cinema comercial francês contemporâneo: a esteta do artista. Para além de qualquer beleza estética, Potiche se alimenta de um falso-bem-estar, pois não existe frescor em suas imagens e toda movimentação interna (o próprio movimento, o diálogo, a mise em scène) de seus planos não mobiliza ou contribui para qualquer envolvimento do espectador para com os objetos filmados.

O filme situa-se em 1977. Logo de início, temos um plano geral sobre a mansão em que vivem Suzanne Pujol (Catherine Deneuve) e o marido, o poderoso magnata/industrial Robert (Fabrice Luchini). Robert, que é dono de uma fábrica de guarda chuvas (localizada em frente à sua casa), não mede esforços para manter a ordem na fábrica, agindo e tratando a todos em tom austero e dominador. Na relação com a família, espalha a grosseria na casa, seja no trato com a esposa ou com os filhos. Após o sindicato de sua empresa organizar uma greve contra as condições de trabalho, Robert é sequestrado ao tentar negociar e fica retido na fábrica. Como solução, Suzanne resolve pedir ajuda a outro comunista e velho amigo da família, o agora deputado Maurice Babin (Gérard Depardieu). Depois de conseguir resgatar Robert com os manifestantes, Babin se aproxima novamente de Suzanne, com quem teve um caso no passado. Suzanne, por sua vez, durante um período em que o marido fica adoecido, assume as tarefas da fábrica, e atinge um sucesso impensável. Esse é lugar-comum que Ozon utiliza para dar encontrar um espaço factual para Suzanne. É a volta por cima da mulher coruja a grande lição do filme.

A narrativa de Ozon investe num ritmo discursivo-imagético quase avassalador para se eximir de suas fragilidades. Mas, como um presépio mal articulado, Potiche, na contramão dos últimos filmes do realizador francês (Ricky e O Refúgio, principalmente deste segundo), não consegue sustentar seu próprio argumento, cedendo ao clima fácil da família disfuncional que, no fim das contas, aprenderá a conviver em harmonia – apesar dos desentendimentos e dos problemas cotidianos que se acumulam. Os diálogos são apressados (não há um minuto de imagens sem conversas) e muitas vezes redundantes; uma cena é desculpa para a outra; qualquer humor imbuído se torna logo quebradiço e frio; a câmera só mostra a boca que fala e o corpo que se mexe, numa execução fugidia e pouco representativa na obra de um cineasta outrora tão maduro em relação ao movimento e ao plano; a caricatura parece ser a única solução para exprimir dos personagens algum sentimento que lhes reserve algum valor moral ou mesmo táctil (é como se Ozon encontrasse na sátira o único caminho possível para representar imagens de homens e mulheres em perfeita desordem social). A soma das experiências de vida é o mote de toda a dramaturgia de Potiche.

Mesmo sendo sempre um tanto perigoso falar em ritmo, é prudente contestar o desligamento do diretor com uma condução mais equilibrada, como na maioria de seus filmes anteriores (com força máxima em 8 Mulheres, talvez seu grande filme). Surpreendentemente, não existe qualquer dinâmica interna nas cenas, o texto é mal articulado e os diálogos, frágeis; o que nos conduz a uma montagem atabalhoada, coerente com a proposta narrativa, mas incoerente com a lógica da experiência do cinema. O filme acontece num estalo, sem dizer a que veio, no estilo reportagem. Até mesmo a luta de classes, amiúde o ativismo dos trabalhadores, funciona rasteiramente como pano de fundo subaproveitado. A imagem perversa do rico esnobe e as qualidades empregadas na persona do comunista batalhador e incorruptível, na representação clássica dos clichês, atestam a falência de qualquer embasamento político, só destitui e arrefece a forma do filme enquanto discurso. Tanto o magnata quanto o comunista são mais do que suas imagens aqui pintadas. Essa incapacidade política de Potiche (nada a ver com a ética do discurso; o problema é antes de explanação do que de vontade de explanar), transfere para tela uma relação muito tipificada da conjuntura do verdadeiro ativismo, da manifestação e do protesto, e também das próprias formas de governo e presidência, tendendo a deformar sua razão e essência. De nada adianta a desconstrução dos gêneros quando ela não é realizada por dentro, e o olhar de Potiche, a julgar pela tom satírico, parte de fora.

Ozon sai de uma investida no realismo mágico (Ricky) e de um drama (O Refúgio) focado numa mulher buscando seu lugar no mundo para uma comédia de costumes que promete investigar os meandros da sociedade contemporânea em toda sua multiplicidade de ideologias e formas. Muito formalmente, Ozon se empenha em nada mais do que costurar alguns personagens e suas histórias de vida (revirando, aos poucos, seus passados, contando verdades ocultas e segredos de família esquecidos em prol de uma vida-fantasia) para tecer um painel icônico sobre uma série de sonhos prontos disfarçados de pessoas. Pois, para além de qualquer inferência crítica sob seus personagens, Ozon vende uma fusão incapaz de projetar uma ideia rigorosamente não-perecível. Cheio de poses e curvas, como seu cartaz, Potiche é um filme-retrato, um sonho pronto erigido sob um clima cartunesco das possibilidades da vida – e uma vida perversa. Não seria absurdo dizer que Potiche talvez seja o pior filme dele.

(Potiche, França, 2010) De François Ozon. Com Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Fabrice Luchini, Karin Viard, Judith Godrèche, Jérémie Renier.

3 Responses to “Potiche – Esposa Troféu”

  • Pelo jeito esse é um filme irregular do Françous Ozon, um dos cineastas que mais aprecio no cinema atual. Perdi a chance de ver no Festival de Cinema Francês Varilux, que passou por aqui em Natal. Espero que tenha outra chance, em breve…

  • Não sou grande admirador do cinema de François Ozon; gosto de alguns, outros são bem medianos e esquecíveis. “Potiche” entraria para o segundo grupo se a obra não tirasse sarro de si mesma, e acho que aí reside o motivo que torna o filme um frescor. O roteiro não está nem aí para discussões sociais ideológicas, a desvinculação da crítica À sociedade machista é evidente; oque Ozon faz é simplesmente brincar com estereótipos e personagens caricaturais em uma comédia perfumada e com sofisticação. E Deneuve… um show!

    Abs,
    Elton

    • Eu até embarquei nessa quando revi o filme, e acabei gostando um pouco mais dele. Mas não consigo comprar essa “força leve” que ele aparenta ter. Sarro pelo sarro, brincar por brincar, não é muito do meu interesse em filmes. Pelo menos não de tal forma como fez Ozon em Potiche, onde, e de isso eu não arredo pé, ele não filma nada. Não acontece nada em Potiche.

      Grande abraço, Elton!

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