19th Jul2011

O Assassino em Mim

by Pedro Henrique Gomes

Até que a morte os separe

No Texas dos anos 1950, Lou Ford é um policial de uma pequena cidade que mantém um relacionamento com Amy Stanton. De vida aparentemente pacata, Lou patrulha aqui e ali, resolvendo um caso e outro. Quando é designado para dar um fim na prostituta Joyce Lakeland, mandando-a embora da cidade, por manter um caso com o filho do influente magnata local Chester Conway, sua vida ganha uma repaginada. Logo quando vai à casa de Joyce, num local à beira da estrada, distante do centro da cidade, não resiste aos prazeres da carne. Depois de informá-la do porque da visita, ela lhe desfere um tapa, depois dois e três. Ele então reage e a domina, no que ela pede mais violência. Está configurada a lógica do mais novo casal. O sexo torna-se emocional e fisicamente marcante, e resistir configura o prazer.

Tesão e coerção se combinam no raciocínio lógico de Lou, que avança o sadomasoquismo até a morte. Essa força brutal que nasce dos punhos do vilão ganha amplitude quando ele encontra fotos nuas de sua mãe (não por acaso em meio às páginas de um Velho Testamento, com toda ironia possível), se insinuando para ele, clamando pelo castigo, e passa a relembrar de alguns acontecimentos relacionados. Mas esse flashback de uma educação aética não o afasta do problema (e da responsabilidade), já que matar é uma escolha tomada no ato e está mais ligada à sua própria mente desvirtuada e sedenta por vingança do que por uma criação submissa e turva. O lance de Lou é levar a cabo seu plano de vingar a morte do irmão (que morreu anos antes) a qualquer custo, a qualquer vida. Winterbottom abraça a violência frontalmente para mostrar que ela existe ali mesmo onde não se imaginava que ela poderia ganhar corpo. A violência tomou o corpo de Lou.

Primeiro ele é agredido, depois ele agride. É a regra do jogo que eles criam para a relação. O tapa confere a excitação e a dor amplifica o prazer. Os encontros evoluem para promessas de uma vida compartilhada, não raro movidos por uma paixão de (e pelo) sexo agressivo, pontilhada por uma dose de perversão. O lance do título do filme é justamente o que floresce em Lou. As empenhadas horas de sexo que ele dispende com a amada prostituta desperta nele um instinto violento e, no limite de qualquer razão, assassino. Mas não pensemos nisso como algo insurgente na persona do protagonista. Mentalmente problemático deste antes das imagens, no pré-filme (o passado de Lou nos fica reservado à sua própria voz em off, narradora de alguns fatos pontuais sobre a cidade, sua família e vida), é possível notar que o obscuro do homem estava à espreita, na iminência do perigo, do deslize emocional e psicológico. E o que Winterbottom faz não é lançar um olhar pronto e romantizado sobre a trajetória sangrenta de Lou como num faroeste de John Ford ou Anthony Mann (vamos deixar as comparações de lado), ou seja, não iremos torcer pelo algoz, mas, sim, testemunhar seu convalescer e daí tirar conclusões psicossociais acerca de um discurso político possível embutido nessa história que, como nos melhores westerns, narra uma vingança, ou melhor, um desejo-prazer de vingança – mas não só ou simplesmente.

O Assassino em Mim pode, invariavelmente, corresponder uma estética da negação, pois abre mão de um registro psicológico muito caro ao cinema contemporâneo. Winterbottom filma tudo (principalmente as cenas de violência e sexo) com uma crueza a um só tempo dura e consciente de sua pungência, sem o glamour a que diversos cineastas se apegam ao filmar o horror do ser humano. Não se trata, com isso, de um filme puramente violento, pois o diretor de 9 Canções e Caminho para Guantánamo (dois exemplos de filmes distintos, mas essencialmente límpidos e maduros) sabe que a violência existe, e não pode simplesmente negá-la. O que Winterbottom faz nada mais é do que abrir a câmera para o mundo se mostrar através dela – sinal de uma consciência fílmica e narrativa potencializadora que jamais desiste da imagem. Imagem-mimese, que se monta e remonta aos olhos do espectador, sem meias palavras ou desvios sonoros difusos. Basicamente, para apreciar um filme de Winterbottom, basta abrir os olhos. Nas horas do afago, as palavras dela são sempre mais doces que as dele, que, ao contrário, é frio e cru – mesmo que ame, não irá dizer. Mas, a bem dizer, as palavras não importam muito, pois o espírito carnívoro que circunda o sangue daquele homem destemido (na superfície) está explícito no olhar e no ato de sua crueldade. Mas tão logo percebemos o descontrole mental de Lou, numa sucessão de acontecimentos que só fazem expurgar-lhe a sobriedade, ratificamos a ideia de que ele agride e mata mulheres não tão somente para pôr em prática seu plano maquiavélico, mas, provavelmente, por que sente prazer em esmurrar um rosto indefeso.

A prostituta que só queria uma paixão fulgurante como aquela, recebe porradas com pedidos de perdão instantâneos, enquanto nada faz para se defender. Joyce simplesmente aceita seu destino, literalmente dá a cara a tapa, postulando-se como objeto de Lou. Ela apanha olhando no olho do amante incauto. Mas o rosto dilacerado dela é só o primeiro crime mórbido do policial, pois na medida em que outros personagens lhe demonstram algum perigo, ele logo trata de dar-lhes um fim. Na lógica da vida, as coisas tendem só a piorar. A abjeção de Lou logo o torna vitimizador e vítima, dominador e dominado. Para simbolizar esse aviltamento do personagem, Winterbottom não recorre ao drama fácil, calcado nas reminiscências do passado de Lou (o que poderia destituir o filme dessa força que brota tão naturalmente de suas imagens-problema), ao contrário, dá-se o tempo necessário, um prolongamento plausível, até que seu universo rigorosamente constituído venha a desmoronar diante das circunstâncias que se acumulam. O que ocorre sem surpresa alguma.

Não se trata do choque psicológico tampouco do estudo de personagem. O Assassino em Mim não se reduz a análise rasteira sobre a origem do mal no Humano, apesar de se render, aqui e ali, aquele olhar típico sobre o serial killer intelectualizado (à maneira de um Hannibal Lecter, o canibal, ou um Coringa de O Cavaleiro das Trevas, aquele que fere por ideologia), que lê Poe e vai ao cinema com sua vítima. Winterbottom não julga personagem algum, menos ainda seu vilão e protagonista, prefere deixar a experimentação e o gosto pela sensação a cargo do espectador. É por isso que o pulsar desse cinema, debruçado sobre os limites mais irrepreensíveis do Homem, é sua própria potência. Seu poder de fogo se mantém aceso.

(The Killer Inside Me, EUA, 2010) De Michael Winterbottom. Com Casey Affleck, Jessica Alba, Kate Hudson, Ned Beatty, Elias Koteas, Simon Barker.

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