08th Jul2011

Meia-Noite em Paris

by Pedro Henrique Gomes

O passado, aqui, é amigo.

No novo filme de Woody Allen, Gil Pender (Owen Wilson) é o escritor/roteirista hollywoodiano medíocre, que passa sempre por uma aventura tempestuosa para conseguir escrever uma boa história. De férias em Paris, cidade dos amores e da inspiração poética, na companhia da família de sua noiva Inez (Rachel McAdams), ele espera encontrar essa luz, esse caminho para a inspiração. Ele sempre falou que seu sonho era viver nos anos 1920, época das artes e dos artistas flamejantes, de Fiztgerald à Hemingway, passando por Picasso e Cole Porter. Essa excitação nostálgica ganha ainda mais força quando ele e sua esposa encontram um casal de amigos dela, que tem na figura do professor e erudito Paul (Michael Sheen) o grande baluarte das artes modernas e guia turístico do grupo em meio a tantos quadros, esculturas, livros e museus. Em Midnight in Paris, se por um lado Allen abre mão dos psicologismos e irreverências informais atiçados no seu próprio alter-ego (desta vez a cargo de Owen Wilson), recorrentes à sua obra, aqui ele atualiza seus esquemas empenhando-se na desmistificação destes vintage men, na quebra automática dessa falsa-noção que se engendra e se espalha na sociedade das aparências, das poses, da especularização da própria imagem.

A noção do plano, do enquadramento, tão visceral nas primeiras imagens de Meia-Noite em Paris, compõe o cartão postal. Do amanhecer ao entardecer, é por aí, por entre esses espaços não-preenchidos, essas frestas das ruas, essas mesas dos cafés, essas esquinas vazias que Woody Allen irá transitar com seus personagens, e de alguma forma esplandecerá com suas existências, dando novos rumos às suas vidas – falamos, afinal, de um autor sempre empenhando na renovação, no rejuvenescimento. Na sua mais nova visita ao passado (desta vez carnalmente), Allen flutua por dois mundos distintos, mas iguais; distantes, mas próximos. A relação sensível com a profundidade de campo é a analogia mais apropriada: Meia-Noite em Paris é o fundo da imagem e sua superfície em diálogo latente. A ambiência escolhida por Allen para instalar seu filme não deixa de ser delicada, pois é nesse lugar que sombreiam as ervas daninhas do cinema, as armadilhas de seus dispositivos que, à espera do deslize, tomam corpo e se proliferam no filme todo. Mas a organização dessa relação/ligação entre esses mundos obedece sempre à coerência e a cenas rigorosamente elaboradas nestes espaços físicos sintéticos (mentais, temporais e momentâneos). Dessa característica quase sempre auto-reflexiva e auto-problematizante esgarçada, principalmente, nas obras mais recentes de Allen, que pode soar até mesmo da boca para fora, Meia-Noite em Paris consegue escapar das fórmulas conceituais que geralmente prendem filmes focados numa lembrança imaginada, criada e teorizada a partir da realidade. Não restam dúvidas de que Woody Allen nos convida e nos sensibiliza nessa viagem.

Essa volta no tempo ou esse recuo proporcionado pela memória no qual Gil se perde enlouquecidamente instaura o choque dos “tempos”, das “Eras” e das referências; mas também dos ritmos, das linguagens, das formas, dos conceitos, das narrativas, dos autores e dos movimentos. Na arte, as experiências dos anos 1920 diferem das contemporâneas apenas no olhar do criador, pois a essência (a busca, o encantamento, o descobrimento, as perguntas e as respostas) é a mesma. A bem dizer, é o mesmo jogo, o mesmo desejo puramente insano de estar perto para descobrir, para achatar, para remexer, para converter o espírito em sangue. O que Woody Allen parece querer esboçar é que, não importa quando (no tempo), o contemporâneo é o clássico, pois já é passado, já pertence a certa Era de ouro. O mundo contemporâneo namora com o moderno, é parte integrante de sua constituição efetivamente coletivo-cultural. Meia-Noite em Paris revela um mundo (esse mundo passado-presente, mundo de eterna conexão), transforma-se nele, para então negá-lo fisicamente, recusá-lo na carne, mas não sem antes experimentá-lo, vivenciá-lo. No fundo, Gil Pender faz uma viagem à Paris clássica para conhecer a si próprio, em dois tempos.

A potência desse cinema, a força dessa imaginação, está centrada na sensação, não na palavra. Não importa se Allen fala demais (e se a palavra sempre foi o tour de force de seu cinema, sua sinergia composta), se ele obriga seus atores a dialogarem evidências e obviedades já muito claras na própria imagem/representação. O que está em foco é uma outra estética do jogo, da massa fílmica, da concepção de uma lógica espaço-temporal destrutível, passível de entorpecimento e embriaguez, dotada de uma fruição especialmente ilógica. Pois é concebível que o grande autor estadunidense em atividade tenha apreço pelo clássico, mas que também encontre nele somente mais um motivo para dominar e gozar do presente em toda sua complexidade e peculiaridade. Não se trata, então, de dominar o passado, mas, sim, de despolitizar os discursos que rogam por um presente clássico, por um mundo que navegue entre carruagens e Ipad’s – eis a verdadeira loucura, o verdadeiro realismo fantástico, a utopia. A vida simplesmente é.

(Midnight in Paris, EUA, 2011) De Woody Allen. Com Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Carla Bruni-Sarkozy, Michael Sheen, Nina Arianda, Alison Pill, Tom Hiddleston, Kathy Bates, Corey Stoll, Kurt Fuller, Mimi Kennedy

10 Responses to “Meia-Noite em Paris”

  • Presente clássico …

    Um termo que pode fazer a diferença no que estamos vendo. Talvez seja isso que espero ver em Meia Noite em Paris, saber que pode fazer um filme contemporâneo mas que em sua alma, seja o exemplo clássico de um cinema que nos apaixonamos em seus primeiros minutos.

    Abraços champs.

  • O grande ponto alto deste filme é a forma como ele retrata Paris. Sentimentos como nostalgia, romance e idealismo são causados pela capital francesa na gente. Eu acredito que deve ter muita coisa de Woody Allen no personagem interpretado por Owen Wilson. Porém, acho que o que eu mais gostei nessa obra foi que ela tem uma aura antiga…

  • Lindo filme, não vejo a hora de retornar a ele, ainda que, de fato, ele não tenha me largado. Concordo demais contigo, Pedro. A palavra não deixa de ser uma trapaça nas mãos de Allen, que pode enganar a muitos (o que é ótimo, pois todo bom cinema é enganoso), sem deixar de criar este vínculo com os outros domínios da imagem, mais ou menos sensoriais, não sei.
    Que a vida seja.

  • Boa crítica, Pedro, como de costume. Teria apenas um acréscimo: me chamou a atenção como os tempos pelos quais o protagonista viaja são estereotipados, seus personagens em todo caso. Cada uma das figuras que Gil Pender encontra na Paris da década de 1920, por exemplo, parece ter se resumido a um estereótipo de si mesma, um condensado das características mais comumente atribuídas a sua persona.

    Outra coisa: me escapa um pouco a ideia de que se trata, no filme, de “despolitizar os discursos que rogam por um presente clássico, por um mundo que navegue entre carruagens e Ipad’s – eis a verdadeira loucura, o verdadeiro realismo fantástico, a utopia”. É grande o percurso dessa sua frase e acho que me perco em meio aos passos necessários para acompanhar o andamento do raciocínio. Pode me explicar elaborando um pouco mais?

  • Pertinente o acréscimo, Marcelo.

    Quanto à sua questão, eu poderia dizer que é no sentido de que Allen propõe uma crítica à nostalgia, uma quebra desse conceito estabelecido de que o passado (o clássico) é melhor que o contemporâneo. Ele, me parece, diz que isso é pura utopia. Para além de toda a potência de uma época, os “dramas” serão sempre os mesmos: insatisfação com o tempo presente, com o estado da arte, com o tempo em que se vive, afinal. A personagem da Marion Cotillard crê muito nisso, e o próprio Gil também, mas ele descobre (naquela cena do restaurante na Belle Époque) que o melhor é o hoje. Eu penso que a ideia do filme, nessa questão, é mostrar, não sem um pouco de inocência, que o não-vivido parece melhor justamente porque não foi experimentado, e que tentar trazer o clássico para o presente (“presente-clássico”) não vai melhorar nada, nem na arte, nem vida, pois tudo é reflexo do próprio tempo. Falsa-noção, falso-conceito. Não sei se expliquei. O que acha?

    Aliás, acho que o Allen é muito explícito nesse caso, pois me parece que fica dizendo o lógico repetidas vezes, seja através da imagem ou da palavra. Ele não permite que o espectador experimente, por si mesmo, a sensação.

    Abraço!

  • Esse é aquele tipo de Woody Allen que aparece de três em três anos… O mesmo Woody Allen de “Match Point” e “Vicky Cristina Barcelona”, não o diretor de obras que aparecem no cinema todo ano sem muito efeito…

  • Além de mostrar uma Paris linda culturalmente, tem aquela nostalgia e a sensação de desejos e poder embarcar em algum lugar à procura de inspiração e torcer para esse sonho não acabar. Além disso, Allen conseguiu tirar uma excelente do Owen Wilson. 😉

  • marcio

    A foto acima ilustra bem o que é o filme, olha a cara do casal, bobin, bobin,

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