04th Jul2011

Fantaspoa 2011 – Pólvora Negra

by Pedro Henrique Gomes

Resistir à bala

O grande mérito de Pólvora Negra corresponde a dois movimentos transversais. Assumir e compreender seu exagero, forjar sua teatralidade de horrores como parte de um universo não mimetizado. E se o cinema de gênero fabricado no Brasil hoje é essencialmente referencial, ligado muitas vezes a um registro caricato do cinema de horror dos anos 80/90, Kapel Furman consegue manter e se apropriar dos gêneros e dos formatos para construir um filme ao mesmo tempo caricatural e bastante melindroso em relação à estética narrativa. Pois se por um lado a vertente sanguinária está por todo esse cinema (já que é sua função-fim, seu desejo de potência, sua forma e conteúdo), também existe o traço do realizador, que economiza nos diálogos (sem escapar das frases-efeito) para compensar com imagens pungentes e cenas de ação não menos que eletrizantes. Em Pólvora Negra, há muito do jogo imagem-imagem, em sequências que entram gags absolutamente certeiras – cenas do bar e na cozinha do restaurante do japonês. Nestes momentos, o humor se constitui a revelia da própria criação, como parte integral de uma mitologia desconhecida.

O filme começa após alguns anos de um trágico crime, que acabou com a vida da namorada de Castilho Paredes e destroçando a visão de seu olho esquerdo. Nesta terra sem lei, onde não há heróis ou algozes, só homens sedentos por vingança, Paredes vai atrás dos homens que tiraram a vida de sua namorada – no melhor estilo de um legítimo faroeste moderno brasileiro. Mas não só, está em jogo a honra do homem que teve sua vida destruída, sua existência jogada em um esquema de manipulações perigosamente mortais. Paredes, após a tragédia, tornou-se patologicamente transformado num homem de objetivos muito claros e específicos: vingar, sobretudo, sua própria honra.

Doravante a tentativa de inserir um alívio cômico, para além do próprio personagem central (que, por si só, já possui força e efeito suficientes) e da maneira como as cenas internas são filmadas, de certa forma desloca a ação do filme, mas, todavia, dispõe e distribui uma sequência de elementos icônicos pertinentes a ambiência terrena que se quer não só representar, mas fazer sentir, ser parte. Como no melhor do cinema de gênero, a equivalência entre herói e bandido é o que constroi a mitologia ao redor do personagem. A clássica história de vingança que norteia o cinema de gênero é o artifício condutor do filme de Furman, que funciona e se engendra ora por entre a sátira, ora entre o libidinoso emaranhado de sangue e vísceras particularmente brasileiro que se insere e se acumula juntamente da própria sátira.

(Pólvora Negra, Brasil, 2011) De André Kapel Furman. Com Nicolas Trevijano, Ricardo Gelli, Munir Kanaan, Ken Kaneko, Joaz Campos, Eduardo Reys, Andre Ceccato, Celso Camargo, Trovão, Elder Fraga, Claudio Savietto, Thais Simi, Suzana Alves, Julia Novaes, Duda Cacciatore

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