03rd Jul2011

Fantaspoa 2011 – A Noite do Chupa-Cabras

by Pedro Henrique Gomes

O novo filme do cineasta capixaba Rodrigo Aragão (Mangue Negro) conta a história do jovem que resolve tentar a vida na cidade grande e que, após anos longe das terras onde nasceu, ressurge para uma visita e acaba sendo o estopim para que a rivalidade entre a sua família, os Silva, ganhe novos traços sanguinários com a família rival, os Carvalho. O maior diálogo que uma família consegue manter com a outra é o da troca de provocações, que termina em uma pancadaria generalizada na ambiência de um boteco, com promessas de vingança de ambos os lados. Mas, enquanto os Silva e os Carvalho se mutilam na escuridão das montanhas, em razão de um ódio decano que acompanha as famílias há anos e os faz vítimas de suas ambições, o Chupa-Cabras vai consumindo-os lentamente, à sombra de seus olhares e especulações. A rivalidade das famílias, o clima vingativo que paira sobre as terras, é o mote para o derramamento de sangue.

Se por um lado os Carvalho são retratados como os bad boys da região, calcados na figura do imponente personagem vivido por Petter Baiestorf, líder da família, e os Silva tomam posse da fama de bons moços – com o filho que estudou medicina na metrópole e sua esposa gestante, o irmão incapaz de se locomover sem o auxílio de uma cadeira de rodas -, de vítimas apaziguadas pela perda das terras para os Carvalho (daí grande parte do ódio entre as famílias). Jogo ilusório dos problemas e dos inimigos, pois o verdadeiro espírito maligno que ronda as montanhas, portanto a real ameaça às famílias, é o Chupa-Cabras (Walderrama dos Santos), que, nesse ínterim de homens de fé (aliás, imbuídos de uma fé explicitamente cega) que vão estripando-se a todo custo, vai refestelando sua fome e saciando seu canibalismo sob a égide dos homens insanos.

A situação das famílias só se complica quando, enlouquecido pelo poder da magia negra, o Velho do Saco (Cristian Verardi, no personagem que não só tem função central no filme, mas que também serve de alívio dramático à situação das famílias rivais, pois acaba os colocando face ao verdadeiro inimigo, juntos – mesmo que não como amigos – contra o mesmo monstro canibal, diferentemente do que ocorre com o Chupa-Cabras). A Noite do Chupa-Cabras, a propósito, trata, entre outras coisas, de um conflito essencialmente ideológico-político e que, como todo embate que envereda por esse caminho, tende, com o tempo, a esfalecer as forças de ambos os lados. E nessa profusão inconstante de almas incandescentes, o verdadeiro inimigo tardará a ser combalido.

(A Noite do Chupa-Cabras, Brasil, 2011) De Rodrigo Aragão. Com Afonso Abreu, Alzir Vaillant, Cristian Verardi, Eduardo Moraes, Foca Magalhães, Fonzo Squizzo, Hermann Pidner, Joel Caetano, Jorgemar de Oliveira, Kika Oliveira, Markus Konká, Margareth Galvão, Margo Benatti, Mayra Alarcón, Milena Zacché, Petter Baiestorf, Raul Lorza, Ricardo Araújo, Walderrama dos Santos.

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